Uma empresária e estudante do oitavo semestre de Direito foi flagrada nessa quarta-feira (5), no Jangurussu, em Fortaleza, recebendo 264 quilos de skunk, um tipo de maconha mais forte. A droga estava camuflada em diversos potes de açaí e veio de Manaus, no Amazonas. O flagrante foi convertido em prisão preventiva nesta quinta (6).
A Polícia Civil do Ceará (PC-CE) tomou conhecimento da carga dias atrás, por meio de uma troca de informações com a Receita Federal, e a rastreou no território cearense até uma lanchonete no Jangurussu, o bairro mais populoso da Capital, que, atualmente, está sob a influência da facção carioca Comando Vermelho (CV).
O Diário do Nordeste apurou que a mulher presa em flagrante se chama Fabiana Pastor Lima, 40, e é uma das donas de um estabelecimento que comercializa açaí e outros lanches na região. Informalmente, ela negou a posse da droga, mas a Polícia sustenta que a empresária encomendou a mercadoria.
"Todos os indícios apontam que ela encomendou o material e que iria fazer a guarda de toda essa carga", disse o delegado Paulo Renato Moreira Sales, titular da Delegacia de Narcóticos (Denarc). Segundo ele, o estabelecimento opera de maneira lícita, tendo equipamentos e funcionários regulares. A empresa, inclusive, não é alvo da investigação.
No entanto, por ter sido flagrada recebendo a carga ilegal, Fabiana foi autuada pelo crime de tráfico de drogas, que pode acabar em até 15 anos de prisão.
A defesa nega que a universitária tenha envolvimento com o tráfico e afirma que ela é vítima da situação. "Ela realmente comprou achando que seria uma carga de açaí. [...] Na instrução criminal, o celular dela vai provar", garantiu o advogado Adriano Caúla, um dos representantes de Fabiana.
Como a Polícia localizou a carga de skunk?
A investigação começou quando um auditor-fiscal da Receita Federal em Natal, no Rio Grande do Norte, identificou uma transação comercial suspeita originária de Manaus com destino a Fortaleza. As autoridades identificaram o caminhão que faria o transporte da mercadoria do Amazonas para o Ceará e informaram à Polícia local, para ajudá-las a verificar a carga.
Por dias, a Delegacia de Narcóticos monitorou o trajeto do caminhão, até que o veículo chegou a Fortaleza e transferiu a carga para um veículo Fiat Strada que faria a entrega final.
Acompanhados de agentes da Receita, os policiais seguiram o veículo suspeito até a lanchonete no Jangurussu e flagraram o momento em que a mulher recebeu a mercadoria. Um cão farejador participou da abordagem e apontou positivamente para a presença de droga nas caixas de isopor que deveriam estar carregadas de açaí congelado.
Quando romperam o lacre das caixas, os policiais encontraram potes brancos e, no interior deles, uma fina camada de açaí cobrindo entre três e cinco tabletes de maconha, que, depois, a perícia identificou como skunk. No total, foram apreendidos 264 kg de maconha distribuídos em 214 tabletes.
Conforme depoimentos do inquérito obtidos pela reportagem, Fabiana, inicialmente, afirmou que a mercadoria era sua, mas mudou o relato quando a droga foi encontrada nos potes.
De onde veio a droga e para onde ela iria?
Como a investigação está no início, a história ainda tem muitas pontas soltas. Não se sabe, por exemplo, onde exatamente a droga foi produzida e qual seria seu destino final.
"A gente tem informação de que ela veio de Manaus. O local da produção, realmente, a gente não conseguiu identificar. E as informações que vieram da Receita [Federal] também não identificaram", disse o delegado Paulo Renato ao Diário do Nordeste na manhã desta quinta-feira, após coletiva de imprensa na sede da Denarc.
Segundo o delegado, embora o Comando Vermelho exerça influência no Jangurussu, também não é possível afirmar que a facção está diretamente associada ao carregamento. "Nem sempre vai haver uma relação direta. Tivemos um exemplo ano passado. No local em que a droga foi apreendida, era uma organização criminosa que atuava, mas as investigações apontaram para a participação de outra", diferenciou.
Cada um dos tabletes apreendidos com Fabiana está identificado com o logotipo de uma marca italiana de carros esportivos de luxo. O mecanismo, comum no contexto das organizações criminosas, é utilizado para identificar o traficante originário ou o lote daquele entorpecente, na tentativa de imprimir a "garantia da pureza" do produto.
"Geralmente, vai ser um cara no Norte que, em tese, não vai ter relação direta [com o caso investigado]. Eles embalam [a droga], aí ela é revendida para outro traficante, aí ele bota o [logotipo] dele, aí ela é revendida para outro. Devem ter umas duas, três embalagens embaixo dessa", explicou Paulo Renato.
O delegado reforçou ainda que, embora tenham sido descobertas e destruídas plantações de maconha no Ceará, o skunk é um tipo do entorpecente que é produzido, sobretudo, na região Norte do País e na Colômbia. "Ele é trazido para cá dessa maneira, por meio dessas camuflagens", disse.
"Agora, a investigação vai avançar no sentido de [descobrir] qual organização criminosa [está por trás do tráfico], quem era o destinatário final, se ela [suspeita] era a responsável pela comercialização ou se ia repassar o material para terceiros", acrescentou o delegado Ricardo Pinheiro, chefe do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO).
Prisão convertida em preventiva
Fabiana Pastor foi capturada em flagrante na quarta-feira (5) e teve a prisão convertida em preventiva nesta quinta (6). Embora tenha negado a propriedade da droga no momento da apreensão, ela preferiu ficar em silêncio durante o depoimento na delegacia. Nos autos, consta que ela não tem antecedentes criminais, mas teve um processo arquivado em 2015 referente a um caso de falsificação de documento e estelionato.
O motorista da caminhonete que entregou a mercadoria também foi ouvido. Ele garantiu que foi contratado apenas para o frete.
Em entrevista à reportagem, o advogado Adriano Caúla, que representa a suspeita, alega que ela foi enganada. "Ela foi envolvida e ia ser usada para esse fim. Ela realmente comprou a carga achando que seria uma carga de açaí. Todas as provas estão no celular dela que foi apreendido e que vai para a perícia", pontuou o defensor particular.
Segundo ele, um fornecedor entrou em contato com a loja de açaí do Jangurussu oferecendo um preço diferenciado. Fabiana teria dito que não queria o produto, mas o vendedor teria insistido, dito que a transportadora já estava a caminho e afirmado que, assim que o carregamento chegasse a Fortaleza, ela poderia comunicar a ele a recusa que ele mandaria alguém buscar para a devolução. "Provavelmente, ele ia usar esse comércio lícito dela para desvirtuar [a carga]. [...] Na instrução criminal, o celular vai provar", garantiu o advogado.
Veja a nota, na íntegra, da defesa de Fabiana Pastor
"A defesa de Fabiana Pastor Lima vem a público manifestar-se acerca da prisão efetuada na data de ontem (05/08/2026), envolvendo a suposta apreensão de carga de substância entorpecente em sua posse. Neste momento inicial de apuração dos fatos, a defesa técnica esclarece que está acompanhando toda a apuração dos fatos e movimentações processuais com seriedade e combatividade.
Ressaltamos que nossa cliente não possui qualquer ligação aos fatos que lhe são imputados. Confiamos plenamente no Poder Judiciário, no Ministério Público e nas autoridades policiais que conduzem as investigações. A defesa fará de tudo para que os fatos sejam rigorosamente esclarecidos no decorrer da instrução processual, oportunidade em que restará demonstrada a completa ausência de dolo ou participação de nossa cliente no evento criminoso investigado, culminando, por medida de inteira justiça, em sua absolvição. Solicitamos a preservação da imagem e da presunção de inocência da cliente, resguardando-se os ditames constitucionais do devido processo legal.
Eduardo Martins Feitosa e Adriano Caúla da Silva"