O primeiro dia do júri do 'Caso Clarissa', nesta segunda-feira (13), no Fórum Clóvis Beviláqua, foi encerrado com o depoimento da mãe da enfermeira, vítima de feminicídio.
Áurea Lúcia Cândido Costa foi ouvida em plenário e, logo em seguida, a sessão foi suspensa, porque o réu Matheus Anthony Lima Martins Queiroz passou mal.
A reportagem apurou que Matheus teria sofrido uma convulsão, caído e batido a cabeça, sendo socorrido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao hospital.
O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) confirmou que o julgamento foi suspenso por razões médicas e o acusado impossibilitado de retornar à sessão no período da tarde. "O julgamento terá continuidade nesta terça, às 9h, iniciando com a oitiva das testemunhas de defesa", acrescentou o TJ.
Veja depoimentos do primeiro dia de julgamento do caso
Durante a manhã e o início da tarde desta segunda-feira (13), foram ouvidas cinco testemunhas da acusação. O primeiro a depor foi um policial civil que fez o flagrante do réu, a segunda foi uma vizinha da vítima, a terceira e a quarta foram amigas de infância dela e a mãe, Áurea, foi a última. Quando ela falou, Matheus já não estava mais presente para ouvir.
Durante o depoimento, a mãe de Clarissa contou detalhes sobre o momento em que soube que a filha havia sido assassinada.
Ela recorda que estava no trabalho quando, por volta das 16h do dia 9 de julho de 2025, recebeu uma ligação de uma parente pedindo que fosse para casa. "Quando cheguei na minha casa, a rua estava cheia de gente. Quando entrei na minha casa, encontrei a minha filha no chão, assim, deitadinha, com a boquinha um pouquinho aberta. Eu disse: 'O que aconteceu com a minha filha? Filha, a mamãe vai cuidar de você', porque, até então, eu achava que eu ia cuidar dela".
"Posso levar minha filha pro hospital? Minha filha tem plano de saúde. O policial dizia: 'A senhora não pode mexer nela'. Ainda peguei nela, ela tava quentinha", narrou Áurea.
A mãe relatou ainda que não sabia dos desentendimentos entre a filha e o namorado: "Vim perceber mais depois de tudo o que passou. Na minha frente ela não demonstrava nada, nem tampouco ele. Ele, na minha frente, tratava ela muito bem".
"Minha filha era uma menina meiga, educada, inteligente, esforçada. Tinha muitas amigas, uma excelente aluna, excelente profissional e, principalmente, excelente filha", acrescentou a mãe da vítima.
Defesa e acusação chamaram dez testemunhas para serem ouvidas em plenário (cinco de cada parte). Esperadas para esta terça-feira (14), as testemunhas de defesa são, em sua maioria, familiares do réu.
Qual a versão da defesa do réu?
A defesa de Matheus, agora representada pela Defensoria Pública do Ceará (DPCE), por meio do defensor Emerson Castelo Branco, diz que o réu falará pela primeira vez sobre o crime e que "há outro culpado nessa história e não somente o Matheus".
"Ele vai confessar, pedir perdão e botar os joelhos no chão. Não pediremos absolvição, mas uma condenação justa... Ele tem depressão, problemas psicológicos e está comprovado que ele tomava medicação. Isso não justifica absolutamente nada, a defesa vai ser uma defesa ética", disse Emerson Castelo Branco sobre o assassinato da enfermeira Clarissa Costa Gomes.
Apesar da intercorrência médica desta segunda, a defesa afirmou que o depoimento do acusado está mantido.
Caso Clarissa: relembre o crime
Clarissa Costa Gomes morreu aos 31 anos, vítima de feminicídio, em Fortaleza. Segundo as investigações, ela foi assassinada com 34 golpes de faca pelo namorado, Matheus Anthony Lima Martins Queiroz, então com 26 anos.
Vizinhos da enfermeira disseram que viram o casal chegar à casa da vítima, no Jardim Cearense, por volta de 13h30. Um vizinho relatou à Polícia que, às 15h20, ouviu uma voz feminina gritar "me solta, vai me matar". Outra vizinha ouviu ela gritar o nome de Matheus duas vezes. Por último, os moradores ouviram apenas o som de uma batida no chão.
Matheus foi visto saindo da residência em sua motocicleta. O irmão dele chegou algum tempo depois e, junto aos vizinhos, encontrou o corpo de Clarissa sem vida. "Meu Deus, o que meu irmão fez?", exclamou ele, segundo o relato das testemunhas.
Matheus foi preso em flagrante na Maraponga e confessou o crime. Questionado sobre a motivação, ele disse, a princípio, tomar medicação para epilepsia e ansiedade. Depois, falou que não se lembrava do que tinha acontecido.
Clarissa pediu ajuda para amiga por mensagem
Na denúncia apresentada à Justiça sobre o caso, o MPCE detalhou que Clarissa chegou a mandar uma mensagem com os dizeres "S.O.S" para uma amiga no momento em que estava sendo espancada pelo namorado, mas a colega de trabalho acreditou que a enfermeira estava se referindo a um assunto que estava sendo tratado na reunião remota que ambas estavam participando naquela hora.
O MP afirmou ainda que o relacionamento de cerca de dois anos foi marcado por episódios de ciúme excessivo por parte do réu. Além disso, pessoas próximas à vitima relataram que haviam identificado comportamentos abusivos e possessivos no acusado, bem como uma mudança no comportamento de Clarissa, que se tornou mais fechada.
As investigações apontaram ainda que, em junho do ano passado, a enfermeira confidenciou a duas amigas que pretendia terminar o namoro com Matheus.