Voluntários cuidam de desamparados em Crateús

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
23 de Agosto de 2010 - 00:58
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Pessoas que viviam nas ruas ou não têm mais família estão sendo acolhidas em entidades filantrópicas

Crateús. É certo que quem tem que tomar conta dos membros da família é a própria família. De fato e de direito. A família nuclear, composta por pai, mãe, irmãos primeiramente ou, em instância posterior pelos parentes diretos, como avós, tios, sobrinhos e parentes. Nem sempre, porém, esta ordem é seguida. Mesmo assim e com todas as evoluções e mudanças sociais e culturais ocorridas, ela continua sendo a base da sociedade, que dela depende diretamente. Com essa motivação, é que surgiram em Crateús duas casas que abrigam e acolhem pessoas sem amparo familiar.

Infelizmente, muitos não têm a felicidade de ter uma família com possibilidades de abrigar e acolher, que seja capaz de proteger, cuidar e encaminhar para a vida. Aqueles com os quais pode compartilhar as alegrias e que seja o porto seguro nos momentos em que surgem as intempéries da vida. Para muitos essas palavras são apenas um sonho. Para outros, uma saudade. Felizmente, para preencher esta lacuna surgem, na vida de muitos desses desafortunados, pessoas que acreditam na solidariedade e que encontram no servir ao próximo o sentido da vida. São os voluntários, que destinam um pouco do seu tempo ou, em alguns casos, o seu tempo todo para exercer o primeiro dos mandamentos: amar ao próximo.

As duas casas são frutos de iniciativas solidárias de voluntários, que se comoveram ao se defrontarem com realidades de abandono e de desamparo nas ruas da cidade. Decidiram, então, partir para a ação. "A fé sem ação é uma fé morta", diz Maria Araújo Macedo, conhecida como Vilani. Há seis anos atrás, ela e mais duas participantes do grupo de oração Luz e Vida, da Igreja católica sentiram a vontade de fundar um local para abrigar pessoas que viviam pelas ruas, sem lar e sem família. "Víamos algumas pessoas abandonadas na rua e aquilo nos tocava profundamente". Procuraram apoio na Prefeitura à época e não conseguiram. Alugaram um espaço físico e, com a colaboração de doadores, criaram a Casa de Jesus Misericordioso.

Missão

A Casa atualmente é situada no Centro da cidade, à Rua do Instituto Santa Inês, e acolhe idosos e adultos, assistindo com alimentação, abrigo, remédios e acompanhamento médico. Tudo fruto de doações. Do poder público chegam apenas legumes, verduras e peixe de programa da agricultura familiar. Das três amigas que iniciaram a ação, apenas Vilanir continua, mas outras pessoas surgiram e dão apoio. Ela conta também com o apoio do esposo, Antônio. Algumas vêm ajudar nas tarefas do dia a dia, outras vão à Casa para rezar o terço junto com os acolhidos e para distraí-los. Alguns profissionais de saúde tiram um pouco do seu tempo para ir ao local atender os acolhidos. Mas a coordenação e fidelidade à missão escolhida é tarefa mesmo de Vilanir, assumida com satisfação. "Servir para mim é uma missão, o evangelho pede prática e ver as pessoas melhores me dá alegria e satisfação", declara.

Atualmente dez pessoas são atendidas, sendo que cinco vivem na Casa. Os outro cinco fazem as refeições, pois têm onde morar. Nem que sejam sozinhos, como é o caso de José Rufino, de 54 anos, que mora no Bairro dos Venâncios e todos os dias vou até a Casa para se alimentar e receber cuidados de higiene e tomar os medicamentos. Segundo ele, não tem familiar nenhum, nem filhos. Natural de Crateús, foi embora para Brasília cedo para trabalhar, por lá casou, separou e quando adoeceu voltou para a terra natal. Sofre de problemas psíquicos. A Casa é o seu amparo. "Aqui sou bem tratado", diz. Queixando-se de problemas na visão, fala para dona Vilanir que "logo ficarei aqui, pois estou caindo muito na minha casa".

Visitas

Além dos acolhidos, o grupo conduzido por Vilanir realiza visitas a outras pessoas necessitadas fora da Casa e, de vez em quando, a Casa recebe pessoas de forma provisória, como alguém de outros municípios que se encontram em situações vulneráveis ou longe da família, por algum motivo. O sonho dela é que a Casa seja um local permanente de cuidados com as pessoas e que logo possua uma sede, em prédio já doado pela Diocese, "para atender melhor as pessoas". E que surjam mais voluntários, pois a Casa hoje já paga, com o dinheiro dos benfeitores, duas pessoas para os serviços domésticos e cuidado dos idosos. Uma ajuda consistente do poder público municipal também faz é desejo de Vilanir.

A oração faz parte do dia a dia da Casa. Diariamente, às 15 horas, se reúnem para rezar o Terço da Misericórdia e aos sábados, às 16 horas, o rosário. Os acolhidos já possuem o hábito da oração e Vilanir diz que perceber claramente os benefícios do alimento espiritual. "Eles ficam mais tranquilos renovados, assim como nós". Maria Auxiliadora, que cuida dos acolhidos na Casa de Jesus Misericordioso, acredita também na força da oração. "Ela nos dá força e coragem para realizar o trabalho" e complementa: "cuidar destas pessoas e ver as situações delas me fazem refletir sobre o valor da vida e da família".


Enquete
Satisfação

Luís Soares
Acolhido na Casa de Jesus Misericordioso
Não tenho pai nem mãe mais, tenho só uma irmã, que não vem me visitar. Gosto muito da hora do terço

Maria de Mesquita
Acolhida da Casa dos Amigos de Jesus
Viver aqui é muito bom, pois as pessoas que estão nesta casa são como se fossem, melhor, são a minha família

Terezinha Branco
Coord. da Casa dos Amigos de Jesus
Os acolhidos aqui são minha família. Jesus e o Espírito Santo estão presentes nestes atos de amor

MAIS INFORMAÇÕES
Casa de Jesus Misericordioso (88) 3691.5913 - (88) 9666.4485
Casa dos Amigos de Jesus
(88) 9638.2329

AMIGOS DE JESUS
Missionárias coordenam trabalhos

Crateús.
Na comunidade Pedra Viva, ao lado da capela de mesmo nome funciona a Casa Amigos de Jesus, instituição fundada há quase três anos pelo padre Xavier, de nacionalidade francesa que até o mês de junho passado fazia parte da Diocese de Crateús. Voltou para França. Junto com ele, na fundação da Casa, a missionária Terezinha Branco, que agora coordena os trabalhos com um grupo de missionários da Irmandade do Servo Sofredor.

A satisfação de servir ao próximo como meta de vida é clara em suas palavras. "Iniciamos com estas atitudes na vizinha cidade de Poranga ao visitarmos famílias e presenciarmos situações de negligência e abandono, viemos para Crateús e demos continuidade por nos sentirmos chamados pelo Senhor para fazer o bem aos desamparados", diz Terezinha. Eles se revezam nos trabalhos voluntários, cuidando dos acolhidos na higiene pessoal, nas opções de entretenimento e nas conversas. Cada voluntário tem o seu dia e o período de dedicar um pouco do seu tempo.

Cinco pessoas moram na Casa. Outras dez fazem refeições e recebem assistência por parte dos voluntários que ali atuam, durante o dia. De vez em quando ficam por lá pessoas que estão de passagem pela cidade. Outras já fazem da Casa seu lar definitivo, como a idosa Maria de Mesquita, chamada por todos na Casa de vózinha. Doce e alegre, parece não ter consciência da sua triste realidade. Vivia sozinha, pois tem uma filha com deficiência mental e que não tem condições de cuidar dela. Assim como a Casa de Misericórdia, também sobrevive de doações. A manifestação do poder público municipal é insipiente, apenas com os produtos da agricultura familiar, que por vezes não tem uma frequência fixa.

Enquanto os voluntários, alimentados pela Palavra de Deus partem para a ação amparando e acolhendo idosos e pessoas sem família na cidade de Crateús, a Prefeitura atua com nos Centros de Referência da Assistência Social (Cras) e no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas). Dali os casos são acompanhados por meio do fortalecimento dos vínculos familiares.

Segundo a secretária de Assistência Social, Luciene Bezerra, São atendidos também 120 idosos, com acompanhamento médico, atividades recreativas, artísticas e de convivência. "Temos projetos prontos e estamos em busca de recursos para a construção do Centro de Referência do Idoso e de uma Casa de Passagem".

Silvania Claudino
Repórter