Garoto de 6 anos tem dom para tocar sanfona

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
06 de Setembro de 2009 - 00:47
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O interesse pela música teve reforço quando o pai, Marciano, deu a primeira sanfona ao filho aos dois anos

Iguatu. Tímido, calado, ainda com o mundo infantil em seu imaginário, Lucas Pereira da Silva, seis anos, mostra talento ímpar para tocar sanfona. A habilidade com o instrumento vem despertando a atenção da família, de vizinhos e agora de muitos moradores desta cidade. Sozinho, aprende a arte musical e aos poucos vai descobrindo os segredos do instrumento, que ele conduz e segura com jeito, mas às vezes com dificuldade por causa dos braços e mãos ainda pequenos.

Quando está com a sanfona no colo, Lucas deixa a timidez de lado e se transforma num músico infantil que revela jeito para dominar o acordeom. "É um dom que Deus lhe deu", diz o pai, servente de pedreiro Marciano Pereira da Silva. "Aos dois anos de idade, ele começou a brincar com a sanfona e logo percebi que levava jeito". A família e vizinhos garantem que não é exagero. "O curioso é que ele aprende sozinho", ressalta.

A família é moradora do Mutirão, localizado no bairro Vila Neuma, na periferia de Iguatu, às margens do Rio Jaguaribe. É um dos bairros mais pobres. Com muito esforço, mas acreditando sempre no talento do filho, Marciano da Silva comprou uma pequena sanfona e deu de presente, quando o filho tinha dois anos. "Sempre mostrou interesse e vi que gostava muito de música", lembra o pai.

De acordo a família, ao receber o presente, Lucas colocou as alças nos braços e posicionou os dedos nas teclas e ficou como se estivesse tocando. O jeito da criança deixou os pais admirados. "Eu fico impressionada porque ele aprende sozinho. Ele escuta a música, descobre as notas e vai aprendendo", diz a mãe, Edinete da Silva, que não esconde a felicidade com o talento do filho, conta.

A música preferida do jovem instrumentista é "Asa Branca", letra do compositor iguatuense, Humberto Teixeira, em parceria com o mestre sanfoneiro do Nordeste, Luiz Gonzaga. "É a que gosto mais", diz o menino. No repertório do pequeno sanfoneiro, os forrós de Gonzagão ganham destaque, ao lado de outros ritmos como vaneirão e sertanejo. "Sou admirador de Patativa do Assaré e de Luiz Gonzaga", revela.

O líder comunitário da Vila Neuma, Antônio Pereira, mais conhecido por Antônio Baixinho, mostra-se entusiasmado com o talento do jovem músico. "É impressionante o que este menino faz com a sanfona", observa. "É preciso apoiá-lo porque esse menino tem futuro". A esperança na comunidade é de que Lucas tenha uma carreira de sucesso e, como músico, possa ter uma condição de vida melhor. "O pai está desempregado, mas não mede esforços em apoiar o filho", conta Antônio.

Lucas Pereira não se dedica apenas à sanfona. Na escola, esforça-se para aprender a ler. "Quero aprender as duas coisas, ler e tocar", diz. O jovem músico é aluno da 1ª série da Escola de Ensino Fundamental Elze Lima Verde. Até o ano passado, estava na creche da comunidade. A professora Aldenora Ferreira de Queiroz confirma o jeito calado do aluno. "É um menino bom, comportado, que mostra gosto pelo estudo e adora a música".

Marciano Pereira, nos últimos dias, faz bico para sustentar a família. Além de Lucas, tem mais quatro filhos. "Sentimos muitas dificuldades porque o dinheiro é pouco, mas sempre quero o bem do meu filho", disse o pai dedicado. "Seria bom que a escola de música popular já estivesse funcionando porque seria mais fácil para meu filho aprender a tocar sanfona". A família espera apoio para que o jovem instrumentista tenha orientação e acompanhamento de um professor especializado.

Sem medir esforços, Marciano Pereira comprou uma sanfona de 80 baixos para o filho, mas viu que o instrumento era grande para o seu tamanho e trocou-a por uma de 40 baixos, que é utilizada por Lucas da Silva até hoje. O repertório do menino já inclui forró, vaneirão e sertanejo. Sobre o futuro, não tem dúvida: "quero ser sanfoneiro". O jovem instrumentista é tímido e mal responde às perguntas do repórter e justifica: "A sanfona fala por mim".

Os pequenos e delicados dedos da mão esquerda mal encostam nos botões dos baixos. "Mesmo assim, ele faz sua apresentação e toca o tom direitinho", observa o músico e radialista Bêu Paulino. "É um talento nato e raro". Em casa, quando Lucas pega na sanfona, logo os amiguinhos se aproximam. A calçada da casa vai ficando cheia de curiosos. As pessoas de maior idade ficam admiradas com o esforço e o talento da criança e todas revelam uma expectativa positiva quanto ao futuro do menino tocador.

Mais informações
Antônio Baixinho
Rua Souza Alexandre, S/N
Vila Neuma
(88) 8815.4036

TRADIÇÃO
Uso da sanfona é fundamental no forró

Iguatu.
No Nordeste, o forró é estilo musical predominante, seja os novos estilos ou mais tradicional, conhecido como pé-de-serra. E, neste caso, a sanfona torna-se instrumento indispensável para manter o estilo vivo. É o instrumento característico, ao lado do zabumba e do triângulo. Mesmo nas bandas em que o ritmo ganhou estilo eletrônico, o acordeom ou acordeão também é destaque.

O sanfoneiro sempre aparece na frente do palco e, às vezes, é o principal vocalista. Há uma estreita relação entre o forró, a sanfona e a região Nordeste. Até a década de 1940, as festas na região denominavam-se samba, mas o que se tocava era polca, valsa, canções românticas e o que o músico Dominguinhos denomina de arrasta-pé. Vários pesquisadores e músicos já afirmaram que o forró pé-de-serra e, sobretudo, o baião, começaram com a dupla Humberto Teixeira e o pernambucano Luiz Gonzaga, que muito contribuíram para imortalizar a sanfona.

A parceria com o advogado e compositor Humberto Teixeira, a partir de 1947, assegurou ao músico e sanfoneiro Luiz Gonzaga o início de uma carreira de sucesso. Atribui-se aos dois a criação do ritmo baião. A música mais famosa cantada pelo rei do baião é "Asa Branca", uma das primeiras composições da dupla, que chegou à década de 1950 fazendo sucesso. Além disso, compôs outras canções que iriam divulgar pelo Brasil.

Nascido em Iguatu, o advogado Humberto Teixeira é responsável pelo início da carreira de sucesso de Luiz Gonzaga e pela reafirmação do ritmo baião. A discografia da dupla, ainda hoje, integra o rol dos principais sucessos. Além de "Asa Branca", destacam-se as canções: "Juazeiro", "Paraíba", "Assum Preto", "Baião de Dois", "Qui nem Jiló", "No meu pé de serra" e "Kalu".

O músico, cantor e compositor Dominguinhos, que no ano passado esteve nesta cidade realizando show durante o Iguatu Festeiro, fez questão de homenagear a dupla e frisou: "Tudo começou com Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Graças a eles que estamos aqui". Afirmação semelhante também costuma fazer o cantor e compositor Raimundo Fagner.

Não há como negar a importância da dupla Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. A carreira de sucesso de Luiz Gonzaga ainda hoje é referência para os jovens músicos e sanfoneiros. A imagem de "Gonzagão" com a sanfona branca, o chapéu de couro e o gibão permanece no imaginário popular e influência, até hoje, os futuros sanfoneiros, seguindo ou não o mesmo musical ou eletrônico, mas a base é a mesma: a sanfona.

HONÓRIO BARBOSA
REPÓRTER