Identificação pessoal ganha expressões peculiares popularizando cidadãos sertanejos no Interior do Ceará
Limoeiro do Norte. No País em que até o presidente da república é conhecido pelo apelido, não se pode esperar coisa muito diferente nos vários rincões do Brasil. Se mãe é quem cria, nome é aquele pelo qual as pessoas atendem. A impressão é de que no Interior do Ceará um apelido vale por mil nomes. Fácil de memorizar e, por vezes, destacando um aspecto negativo ou positivo de quem o recebeu, o apelido é uma das mais óbvias informalidades entre os brasileiros que alguns consideram mais importante que o próprio nome. Nesse período eleitoral, político que tem apelido pode ter mais chances de ser lembrado. Esses nomes adquiridos já depois da certidão de nascimento estimulam afeto, intrigas, e também muitas risadas.
A reportagem tem um Milagre para contar. Surgiu há 44 anos na localidade de Sítio Morros, em Limoeiro do Norte. E vez por outra o Milagre bate à porta das residências. Mas dificilmente encontraríamos a própria casa do agente de saúde Antônio Gomes da Costa se a pergunta não fosse “onde mora Milagre?”. Poucas pessoas – possivelmente restringindo-se à família – sabem ao menos o primeiro nome do agente que combate a dengue. Até esposa e filhos se referem ao homem pela alcunha.
“Se perguntar pelo nome verdadeiro você nunca me acharia”, conta Antônio, que tem um irmão chamado “Maribondo”, ou, para os extremamente íntimos, Mauro Celso. Os dois foram apelidados ainda na infância pelo “Tio Honorato”, que não tem apelido.
Apelido, vulgo, alcunha, cognome, esses nomes de fácil identificação do outro provavelmente remontam ao homem primitivo, que poderia identificar seus companheiros por simples “urros”, ou variantes de interjeições. Desde quando a roda da comunicação foi inventada pelo ser humano, o nome que vocativa alguém é sua principal identidade social no mundo. Tem quem adore, e os diminutivos – inha, inho – e aumentativos – ão, ona – lideram o agrado para os Juninho, Carlinha, Benzinho, Carlão. No entanto, até mesmo o tom de voz pode diferenciar um “neguinho” carinhoso de um pejorativo, de conotação racista. Aí o caso é de polícia.
Tem quem não goste do apelido, mas este já “pegou” de tal modo que seria esforço em vão lutar contra o nome eleito pelo povo. “Se eu for reclamar, aí é que o pessoal vai falar, porque gostam é de ´frescar´ mesmo, então hoje eu acho normal”, explica “Pau-de-Gato”, de 28 anos, que só a mãe e o irmão chamam por “Valdenir” (Lima de Sousa). Em um jogo do Independente, time do qual ele participa na comunidade limoeirense de Arraial, o locutor anunciava que “lá vai Pau-de-Gato”; “Pau-de-Gato pega a bola, chuta...”. Foi o suficiente para Maria da Conceição desligar o rádio resmungando.
Origem
“Desliguei mesmo. É muito feio um apelido desse. Tão bonito é o nome dele: ‘Valdenir’. Nam!”, resmunga mais uma vez a mãe do rapaz. A origem do nome? “Quando eu tinha 12 anos era bem magrinho, pequeno, raquítico mesmo, aí o pessoal falou que parecia um pau de matar gato”, explica Valdenir, respeitado pelos amigos que já pronunciam ‘pau-de-gato’ como quem chama um nome comum. Já o pai, Francisco Alves de Sousa, é conhecido por “Meu Bem”. Desse apelido, Conceição não reclama.
Tem quem prefira o apelido ao próprio nome, este que causaria muito mais estranheza. É a inversão de valores identitários. Assim Geriberguearusco Mendes é chamado apenas de “Bergue”, seguramente facilitando a vida de quem precisa chamá-lo. Sua irmã, Geruzarusca Mendes, fica por “Nêga”, dentro e fora de casa. O mesmo ocorre com Marusca, que fica “Maca”. A mãe de todos, Antônia Soares da Silva Mendes, 67 anos, é “Toinha”, bem mais comum que o seu esposo, que quando criança era chamado de “nenenzim”, e depois que cresceu só é conhecido por “Nenenzão”. Em outros casos o apelido é um nome comum, mas que não está na carteira de identidade, como acontece com o servidor público José Lins Guerra, só conhecido pelo nome “Eliezer”.
Pixita, Babi, Bilinha, João Rato, Marretinha, Bita, Bodin, Caixão, ou ainda, Gasolina, Pouca-Pena, Pé-de-Quenga, Manga Rosa, Zé Caracol, Chico Bomba, Calazar e Colher de Pau. Ainda tem Ferro Quente, Gente Boa, Abençoado, Herança, Pintinho, Psicoxota.
Há apelidos de todo tipo e em todo lugar, identificando alguma característica física – Gasolina tem pelo branco-amarelada - , ou comportamental – Psicoxota só pensa em mulher – as novas identidades nem sempre são bem-vindas, mas depois que se instalam, tenha “Zé” para tirar.
Há dez anos a Justiça brasileira admite a inclusão do apelido ao registro de identidade. No País da bola de Pelé, Garrincha, Dunga, Ronaldinho, Vampeta, Zico, Popó, Maguila e Guga, os apelidos também funcionam como instrumentos na inclusão social. E dão fama aos “anônimos”.
Melquíades Júnior
Colaborador
Mais informações:
Leis que tratam de registros públicos, validação ou não de alguns apelidos
www.legjur.com/legislacao
www.mp.gov.br
COSTUME
"Caso alguém perguntasse pelo meu nome verdadeiro, com certeza, nunca me acharia"
Antônio Gomes (Milagre)
Agente de saúde
Limoeiro do Norte. No País em que até o presidente da república é conhecido pelo apelido, não se pode esperar coisa muito diferente nos vários rincões do Brasil. Se mãe é quem cria, nome é aquele pelo qual as pessoas atendem. A impressão é de que no Interior do Ceará um apelido vale por mil nomes. Fácil de memorizar e, por vezes, destacando um aspecto negativo ou positivo de quem o recebeu, o apelido é uma das mais óbvias informalidades entre os brasileiros que alguns consideram mais importante que o próprio nome. Nesse período eleitoral, político que tem apelido pode ter mais chances de ser lembrado. Esses nomes adquiridos já depois da certidão de nascimento estimulam afeto, intrigas, e também muitas risadas.
A reportagem tem um Milagre para contar. Surgiu há 44 anos na localidade de Sítio Morros, em Limoeiro do Norte. E vez por outra o Milagre bate à porta das residências. Mas dificilmente encontraríamos a própria casa do agente de saúde Antônio Gomes da Costa se a pergunta não fosse “onde mora Milagre?”. Poucas pessoas – possivelmente restringindo-se à família – sabem ao menos o primeiro nome do agente que combate a dengue. Até esposa e filhos se referem ao homem pela alcunha.
“Se perguntar pelo nome verdadeiro você nunca me acharia”, conta Antônio, que tem um irmão chamado “Maribondo”, ou, para os extremamente íntimos, Mauro Celso. Os dois foram apelidados ainda na infância pelo “Tio Honorato”, que não tem apelido.
Apelido, vulgo, alcunha, cognome, esses nomes de fácil identificação do outro provavelmente remontam ao homem primitivo, que poderia identificar seus companheiros por simples “urros”, ou variantes de interjeições. Desde quando a roda da comunicação foi inventada pelo ser humano, o nome que vocativa alguém é sua principal identidade social no mundo. Tem quem adore, e os diminutivos – inha, inho – e aumentativos – ão, ona – lideram o agrado para os Juninho, Carlinha, Benzinho, Carlão. No entanto, até mesmo o tom de voz pode diferenciar um “neguinho” carinhoso de um pejorativo, de conotação racista. Aí o caso é de polícia.
Tem quem não goste do apelido, mas este já “pegou” de tal modo que seria esforço em vão lutar contra o nome eleito pelo povo. “Se eu for reclamar, aí é que o pessoal vai falar, porque gostam é de ´frescar´ mesmo, então hoje eu acho normal”, explica “Pau-de-Gato”, de 28 anos, que só a mãe e o irmão chamam por “Valdenir” (Lima de Sousa). Em um jogo do Independente, time do qual ele participa na comunidade limoeirense de Arraial, o locutor anunciava que “lá vai Pau-de-Gato”; “Pau-de-Gato pega a bola, chuta...”. Foi o suficiente para Maria da Conceição desligar o rádio resmungando.
Origem
“Desliguei mesmo. É muito feio um apelido desse. Tão bonito é o nome dele: ‘Valdenir’. Nam!”, resmunga mais uma vez a mãe do rapaz. A origem do nome? “Quando eu tinha 12 anos era bem magrinho, pequeno, raquítico mesmo, aí o pessoal falou que parecia um pau de matar gato”, explica Valdenir, respeitado pelos amigos que já pronunciam ‘pau-de-gato’ como quem chama um nome comum. Já o pai, Francisco Alves de Sousa, é conhecido por “Meu Bem”. Desse apelido, Conceição não reclama.
Tem quem prefira o apelido ao próprio nome, este que causaria muito mais estranheza. É a inversão de valores identitários. Assim Geriberguearusco Mendes é chamado apenas de “Bergue”, seguramente facilitando a vida de quem precisa chamá-lo. Sua irmã, Geruzarusca Mendes, fica por “Nêga”, dentro e fora de casa. O mesmo ocorre com Marusca, que fica “Maca”. A mãe de todos, Antônia Soares da Silva Mendes, 67 anos, é “Toinha”, bem mais comum que o seu esposo, que quando criança era chamado de “nenenzim”, e depois que cresceu só é conhecido por “Nenenzão”. Em outros casos o apelido é um nome comum, mas que não está na carteira de identidade, como acontece com o servidor público José Lins Guerra, só conhecido pelo nome “Eliezer”.
Pixita, Babi, Bilinha, João Rato, Marretinha, Bita, Bodin, Caixão, ou ainda, Gasolina, Pouca-Pena, Pé-de-Quenga, Manga Rosa, Zé Caracol, Chico Bomba, Calazar e Colher de Pau. Ainda tem Ferro Quente, Gente Boa, Abençoado, Herança, Pintinho, Psicoxota.
Há apelidos de todo tipo e em todo lugar, identificando alguma característica física – Gasolina tem pelo branco-amarelada - , ou comportamental – Psicoxota só pensa em mulher – as novas identidades nem sempre são bem-vindas, mas depois que se instalam, tenha “Zé” para tirar.
Há dez anos a Justiça brasileira admite a inclusão do apelido ao registro de identidade. No País da bola de Pelé, Garrincha, Dunga, Ronaldinho, Vampeta, Zico, Popó, Maguila e Guga, os apelidos também funcionam como instrumentos na inclusão social. E dão fama aos “anônimos”.
Melquíades Júnior
Colaborador
Mais informações:
Leis que tratam de registros públicos, validação ou não de alguns apelidos
www.legjur.com/legislacao
www.mp.gov.br
COSTUME
"Caso alguém perguntasse pelo meu nome verdadeiro, com certeza, nunca me acharia"
Antônio Gomes (Milagre)
Agente de saúde