Eremita vive na Serra do Araripe

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
25 de Agosto de 2010 - 20:31
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José Cícero da Silva vive isolado em uma pequena casa, em um sítio, no Município de Porteiras

Porteiras Sem qualquer companhia humana, apenas os cânticos de grilos, pássaros e coaxar de sapos. É assim que vive o agricultor José Cícero da Silva, isolado numa pequena casa de taipa com dois metros de frente e dois de fundos e apenas uma porta, localizada no Sítio Saco, Município de Porteiras, no sopé da Serra do Araripe, tendo como companhia as imagens do Padre Cícero e São Francisco pregados na parede de taipa da cabana. Alimenta-se apenas de farinha e açúcar que são levados por pessoas que moram nas proximidades. O acesso ao local é feito a pé.

O ermitão não possui nenhum documento, nem mesmo registro de nascimento. No entanto, as pessoas que o conhecem desde pequeno presumem que ele tenha mais de 80 anos. Não quer nem ouvir falar em aposentadoria. Não toma banho, nem troca de roupa. Nunca namorou, nem casou. Quando novo, trabalhava na moagem de um engenho de rapadura. Com o fechamento do engenho, há 30 anos, ele resolveu se isolar do mundo e dos poucos parentes que ainda estão vivos.

Quando alguém o procura para ajudá-lo, ele ameaça: “Se vocês continuarem com essa besteira, eu sobe de serra acima e nunca mais vocês me acham”. Apesar do sistema inusitado de vida, Cícero conversa normalmente, conhece as pessoas com quem conviveu na mocidade e justifica que está se sentindo muito bem no seu isolamento. “Quem quiser que cuide de sua vida, eu estou cuidado da minha”, responde.

Apesar de sua recusa em receber qualquer assistência, a família de seu ex-patrão, sempre manda uma pessoa à cabana para saber como ele se encontra. Na semana passada, ele pediu uma tesoura para cortar o cabelo e um litro de querosene para passar no corpo, a fim de repelir os insetos que o perturbam durante a noite.

No seu isolamento, o ermitão não quer saber do que está acontecendo do lado de fora de seu refúgio. Seus ex-companheiros de trabalho ganharam casas. Outros compraram carros e motos, mas nada disso o faz sair do seu esconderijo. Nem mesmo uma ordem judicial que o obrigava a tirar os documentos com o objetivo de receber ajuda dos programas sociais foi cumprida pelo ermitão.

Significado

Eremita ou ermitão é o indivíduo que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, vive em lugar deserto, isolado. O local de sua morada é designado eremitério. Na história da Igreja Católica há um capítulo importante sobre os eremitas e o desenvolvimento da vida monástica, com destaque para Santo Antão do Deserto.

“José Cícero não defende nenhuma causa social, ambiental ou religiosa. Foi uma opção de vida, uma desilusão com o mundo que o cerca”, comenta o médico Napoleão Tavares Neves, proprietário da área onde o ermitão curte a sua solidão voluntária.

O local onde o eremita construiu o seu refúgio é cercado de misticismo, crendices e mitos que povoam o imaginário popular. Os moradores dizem que, durante a noite, aparece um “carneiro de ouro iluminado” que transita do pontal da serra para a Pedra Branca, um acidente geográfico situado a cerca de um quilômetro da cabana. Outros garantem que já ouviram barulho de talheres no interior da Pedra Branca que são atribuídos a uma “princesa encantada que mora dentro da pedra”.

Indiferente a estas crendices, José Cícero alimenta outras utopias como, por exemplo, a certeza de que a vida não lhe pertence. “Um dia, a morte vem me buscar”, acredita. Com esta concepção de vida e morte, sem se preocupar com horário, ou dia da semana, o ermitão prefere o anonimato, ou melhor, a solidão que o acompanhe desde menino, uma profunda sensação de vazio e isolamento, indiferente até mesmo aos animais que rondam sua cabana a procura de comida.