Três pontos para entender o reflexo da disputa Lula x Flávio para as eleições de 2028 em Fortaleza

Resultado da eleição presidencial expõe desafios para André Fernandes, fortalece o campo governista e amplia expectativas sobre a gestão de Evandro Leitão.

Escrito por Igor Cavalcante igor.cavalcante@svm.com.br
01 de Novembro de 2026 - 07:00
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Legenda: Evandro Leitão e André Fernandes devem disputar a Prefeitura de Fortaleza no próximo pleito.
Foto: Thiago Gadelha; Vittor Sales/Campanha Flávio B.

A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) pela Presidência da República terminou no último domingo (25), mas seus efeitos devem chegar às eleições municipais de 2028 em Fortaleza. A reeleição do petista coloca no horizonte os desafios eleitorais do bolsonarismo na Capital, a reorganização das forças políticas e as vantagens do alinhamento entre os governos municipal, estadual e federal.

Na Capital, Lula recebeu 932.282 votos, o equivalente a 60,07% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro conquistou 619.634 votos, ou 39,93%. A diferença entre os candidatos foi de 312.648 votos, segundo os dados da Justiça Eleitoral.

O resultado contrasta com o equilíbrio registrado na eleição municipal de 2024, quando Evandro Leitão (PT) derrotou André Fernandes (PL) no segundo turno por uma margem de apenas 10.838 votos. Na ocasião, o petista recebeu 50,38% dos votos válidos, contra 49,62% do adversário.

Embora disputas municipais e presidenciais tenham dinâmicas distintas, os números ajudam a dimensionar os desafios que os principais grupos políticos da Capital enfrentarão nos próximos dois anos.

A oposição, que esteve próxima de conquistar a Prefeitura em 2024, terá de avaliar como ampliar sua base eleitoral. No campo governista, a continuidade do PT na Presidência e no Governo do Ceará mantém uma estrutura de alianças favorável a Evandro, mas também aumenta a cobrança por resultados. Além disso, a eleição de novos parlamentares e o fortalecimento de lideranças com projetos políticos próprios devem influenciar a formação das alianças para a próxima disputa municipal.

O crescimento de Lula e os limites da estratégia bolsonarista

Um dos principais elementos revelados pelas urnas foi a diferença no crescimento das votações de Lula e Flávio Bolsonaro entre os dois turnos em Fortaleza. O presidente reeleito conquistou 135.280 votos adicionais na Capital, enquanto o adversário acrescentou 33.383 votos. Em números absolutos, o aumento de Lula foi aproximadamente quatro vezes mais que o registrado pelo candidato do PL.

Em termos proporcionais, Lula passou de 53,48% dos votos válidos no primeiro turno para 60,07% no segundo, um avanço de 6,59 pontos percentuais. Já Flávio Bolsonaro saiu de 39,34% para 39,93%, ampliando sua participação em apenas 0,59 ponto percentual.

O resultado ocorreu apesar do envolvimento de lideranças bolsonaristas na campanha presidencial, entre elas o deputado federal cearense André Fernandes e o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL), que esteve no Ceará na sexta-feira (23), a dois dias do pleito. Flávio também desembarcou no Estado durante o segundo turno em busca de eleitores.

Para a cientista política Cleris Albuquerque, o crescimento da votação de Lula reflete a mobilização das lideranças governistas tanto no Interior quanto em Fortaleza. Ela destaca a participação de Evandro Leitão, Elmano de Freitas e Cid Gomes na campanha e avalia que a derrota da oposição na disputa estadual, ainda no primeiro turno, contribuiu para reduzir a capacidade de mobilização em favor de Flávio.

"Houve uma perda de fôlego na mobilização das forças para a campanha de Flávio, o que pode ser percebido pela virada de Lula", afirma. O desempenho de Flávio também coloca em discussão a capacidade de ampliação do eleitorado bolsonarista na Capital, especialmente diante da perspectiva de uma nova candidatura de André à Prefeitura em 2028.

Apesar da derrota presidencial de seu campo político, André sai fortalecido das eleições legislativas. O deputado obteve a maior votação para a Câmara Federal no Ceará e consolidou sua posição à frente do PL, que elegeu quatro deputados federais e seis estaduais.

Cleris aponta que o resultado credencia André como a principal liderança da oposição e representante do bolsonarismo no Estado. Entretanto, ressalta que uma eventual candidatura competitiva à Prefeitura dependerá da construção de alianças. A cientista política também chama atenção para a eleição municipal de 2024, quando André terminou o primeiro turno à frente de Evandro, mas acabou derrotado na etapa seguinte.

Nesse cenário, uma das questões para 2028 será a estratégia adotada pelo parlamentar para alcançar eleitores que fazem oposição ao grupo governista, mas não necessariamente se identificam com o bolsonarismo.

A possibilidade de ampliar o discurso para questões municipais, como serviços públicos, infraestrutura e avaliação da gestão de Evandro, aparece como uma alternativa. Ao mesmo tempo, André terá de administrar a relação com sua base mais fiel, construída em torno de pautas conservadoras e da identificação com a família Bolsonaro.

Cleris também questiona se o deputado manterá essa associação diante dos acontecimentos posteriores à derrota presidencial. "Com os desdobramentos envolvendo o candidato derrotado Flávio Bolsonaro, será que André Fernandes continuará associando sua imagem ao bolsonarismo em uma eventual disputa em 2028?", indaga.

Novas lideranças e a disputa por espaço na esquerda e na direita

O resultado das eleições de 2026 também alterou a distribuição de forças entre as lideranças políticas que poderão influenciar o próximo ciclo eleitoral.

Na oposição, André Fernandes aparece como um dos principais beneficiados pela reorganização partidária. Além de conquistar a maior votação para deputado federal no Ceará, o parlamentar conseguiu ampliar a presença de aliados no Legislativo estadual.

Entre os seis deputados estaduais eleitos pelo PL estão Abreu Júnior e Tancredo dos Santos, nomes diretamente ligados ao grupo de André. Tancredo, inclusive, foi o candidato mais votado para a Assembleia Legislativa.

O fortalecimento da legenda ocorre em paralelo à perda de espaço de outras lideranças oposicionistas. Roberto Cláudio (União), candidato a vice-governador na chapa de Ciro Gomes (PSDB), e Capitão Wagner (União), que disputou o Senado, não conseguiram vencer suas respectivas disputas. Ambos apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial e mantêm relações políticas com setores da direita, mas chegarão a 2027 sem mandato eletivo.

Ciro Gomes, que centralizou a força oposicionista no pleito estadual, também acumulou mais uma derrota. Após registrar seu pior desempenho em uma disputa presidencial em 2022, o tucano foi derrotado na tentativa de retornar ao Governo do Ceará.

Conforme mostrou o PontoPoder, nos bastidores da oposição, aliados apontam que o acordo entre PL e PSDB também envolve a possibilidade de apoio de Ciro a André na disputa municipal de 2028. "No campo da oposição, o principal nome é André Fernandes, seguido de outras lideranças como Capitão Wagner e Roberto Cláudio e até Ciro Gomes, os quais tendem a manter a aliança com o PL como forma de preservar seu espaço político no campo oposicionista", afirma a cientista polítca.

Após o resultado das urnas, enquanto Ciro Gomes buscou a Justiça para tentar cassar a chapa de Elmano de Freitas e Flávio Bolsonaro rejeitou o resultado da eleição e deixou o Brasil, André adotou um tom apaziguador. O deputado reconheceu a derrota nacional do candidato do PL e defendeu o fim do "revanchismo".

Em vídeo nas redes sociais, ressaltou ainda que cabe à oposição "bater a poeira do corpo" e seguir em frente. "Não vou desistir de vocês, peço que vocês não desistam do Ceará, do nosso Nordeste e do nosso Brasil", afirmou.

A reorganização não ocorre apenas na direita

No campo governista, a reeleição de Lula e de Elmano de Freitas (PT) fortaleceu a influência política do senador Camilo Santana (PT), que integrou a coordenação-geral da campanha presidencial no segundo turno.

Apontado por cientistas políticas ouvidas pelo PontoPoder como uma das lideranças cearenses mais fortalecidas pelo resultado, Camilo deverá manter protagonismo na articulação do grupo político que governa o Estado e a Capital.

Esse fortalecimento, contudo, ocorre em um cenário de maior presença de outras lideranças com bases eleitorais próprias. Uma delas é Cid Gomes (PSB), reeleito para o Senado e responsável por uma ampla rede de articulação com prefeitos e lideranças municipais. Outra é Luizianne Lins (Rede), também eleita senadora, que construiu sua trajetória no PT, governou Fortaleza por dois mandatos e mantém um histórico de divergências com o grupo político liderado por Camilo.

Na avaliação de Cleris Albuquerque, os dois senadores terão importância estratégica para Lula no Congresso. "Cid e Luizianne obtiveram resultados bastante positivos na eleição e terão papel importante no fortalecimento da base governista e no apoio a pautas importantes, principalmente em um senado dominado pela direita", analisa.

A cientista política destaca ainda a influência municipalista de Cid e a trajetória política dos dois parlamentares, que conquistaram mandatos com apoio do campo governista. A presença dessas lideranças no Senado amplia a representação do grupo em Brasília, mas também cria novos espaços de influência nas articulações estaduais e municipais.

"Na base governista, o ponto é organizar, de maneira harmoniosa, lideranças de renome e que possuem o mesmo alinhamento político", resume Cleris.

O alinhamento entre Lula, Elmano e Evandro e o desafio das entregas

A reeleição de Lula e Elmano também favorece a negociação de investimentos, a execução de projetos e a cooperação administrativa entre a Presidência da República, o Governo do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza durante o período que antecede as eleições municipais de 2028.

Para Evandro, que chegará à segunda metade do mandato em 2027, a manutenção dessa aliança representa uma vantagem política. O prefeito também contará com o apoio de Camilo Santana, uma das principais lideranças do grupo governista no Estado.

Cleris Albuquerque avalia que o resultado das eleições de 2026 demonstrou a força da estratégia de aproximação entre as disputas estadual e nacional. Segundo ela, o apoio de Lula foi importante para a vitória de Elmano, mesmo diante de um adversário competitivo como Ciro Gomes.

"Não por acaso, Lula veio algumas vezes ao Ceará, pois a campanha tinha clareza do peso eleitoral desse apoio", afirma.

Entretanto, conforme ela aponta, a presença do mesmo campo político nas três esferas de governo não garante, por si só, resultados eleitorais favoráveis ao prefeito. A vitória apertada de Evandro em 2024 demonstra que a disputa pela Prefeitura possui características próprias.

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