Esta poderia ser uma história triste. Mas fé, persistência e, sobretudo, amizade, não a deixam ser assim. É a história de Valentina Almeida, estudante cearense selecionada, neste ano, para a última fase da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), em Campinas (SP).
Aos 17 anos, a adolescente ficou impossibilitada de viajar devido a um diagnóstico de câncer – descoberto semanas antes da final. Mesmo assim, colheu os frutos da dedicação até ali.
Um desses foi a conquista de uma medalha de ouro pela equipe que a representou na competição, composta pelas estudantes Cecília Almeida, Lais Castelo e Isadora Arruda – esta incluída no trio em substituição à Valentina. O triunfo foi para além do conhecimento: representou homenagem à amiga que permaneceu em Fortaleza.
“Sinto muito orgulho delas e acho que mereciam demais viver aquele momento”, vibra a protagonista do tributo, estudante do segundo ano do Ensino Médio da rede privada de ensino de Fortaleza, ainda emocionada pelo feito. “Claro que tem minha mão nessa medalha, ela existe. Mas é nelas que eu mais penso quando recordo dessa conquista”.
O êxito foi compartilhado com ela por chamada de vídeo no último domingo (30), quando aconteceu a final da ONHB. Visivelmente eufóricas, as amigas em Campinas festejavam serem uma das apenas 17 equipes que atingiram a láurea máxima da prova. Foi o ponto alto de uma jornada de grandes tentativas e muita entrega.
Como Valentina descobriu a doença
Para Valentina, tudo começou em 2024, quando conheceu a Olimpíada em História do Brasil e almejou, já naquele ano, avançar para a fase final da disputa. Sem conseguir, tentou no ano seguinte – embora ainda sem sucesso.
Neste 2026, com o trio intitulado “As Ghata Nunes”, em alusão à influenciadora trans Agatha Nunes, deu certo: ela, Cecília e Laís chegaram a levar uma medalha de ouro na fase estadual, e foram selecionadas para a nacional.
Nesse ínterim, Valentina lembra, passou a sentir sinais pelo corpo – principalmente coceira e suor excessivo. Consultou dermatologista, tomou medicamentos, mas não via resultado. Pelo contrário: os sinais avançaram com a presença de caroços pelo pescoço.
“Nunca pensei que pudesse ser algo grave. Mas comecei a estudar, a pesquisar na internet, e vi que podiam ser várias coisas: tuberculose, hepatite e também linfoma”, conta.
Não demorou para que, nos dias seguintes, quando participava de um acampamento pela comunidade católica Shalom, a jovem tenha percebido o pescoço inchado e, assim, precisasse ir à emergência de um hospital. Após bateria de exames, o diagnóstico veio somente depois de uma biópsia: estava com Linfoma de Hodgkin.
Segundo o Ministério da Saúde, trata-se de um tipo de câncer originado no sistema linfático – conjunto composto por órgãos (linfonodos ou gânglios) e tecidos responsáveis por produzir as células responsáveis pela imunidade e os vasos que conduzem essas células pelo corpo.
A doença surge quando um linfócito – célula de defesa do corpo – mais frequentemente do tipo B, se transforma em célula maligna, capaz de multiplicar-se descontroladamente e disseminar-se. A célula maligna começa a produzir, nos linfonodos, cópias idênticas, também chamadas de clones.
Com o passar do tempo, tais células malignas podem se disseminar para tecidos próximos; se não tratadas, podem atingir outras partes do corpo. A maior incidência da enfermidade acontece na região do pescoço e do tórax. Além disso, pode ocorrer em qualquer faixa etária, com maior recorrência em homens.
Reação à descoberta e novos passos
Conforme a estudante detalha, receber um diagnóstico tão forte foi motivo de reflexão, mas, sobretudo, de convicção. “
Sou muito religiosa, então acredito que Deus já havia colocado no meu coração que eu precisava ser forte porque estava com linfoma. Já estava me preparando mesmo, até o dia de receber o diagnóstico. Acho que eu já sabia. Tanto que eu falava com as minhas amigas, “olha, acho que tô com câncer mesmo, como é que vai ser?”.
Houve tristeza, claro, pelo fato de não saber o que iria acontecer dali para a frente; porém esperança e fé se sobressaíram. Neste instante, estão previstos seis ciclos da quimioterapia, totalizando seis meses.
“Como o tratamento diminui a imunidade, a doutora disse que eu não poderia viajar pra final da ONHB. Isso foi muito difícil para mim, além do fato de eu não poder mais ir à escola neste semestre”, divide.
“Chorei demais. Gosto muito de ir pro colégio, e queria muito ir pra final. Virou um sonho. De todo modo, assim que eu soube que não ia conseguir viajar, já falei com as outras meninas da minha equipe para ver o que elas poderiam fazer”.
A solução pareceu perfeita: convidar Isadora – também amiga de Valentina e das outras integrantes do trio – para participar. Ela também estava na ONHB, mas não conseguiu avançar com a equipe de origem.
Tudo pronto, a viagem não apenas aconteceu, como reservou o já agora conhecido momento de emoção e reconhecimento vivenciado pelas quatro adolescentes.
“Foi muito especial para mim acompanhar a viagem delas por fotos e vídeos. Hoje ainda tô passando pelo tratamento. Vou começar o segundo ciclo das quimioterapias no dia 7 de setembro. Minha rotina mudou bastante – tem dias mais tranquilos e outros mais difíceis. Mas tento continuar fazendo as coisas que são importantes para mim dentro do que consigo”, partilha.
“Acho que uma das coisas que essa experiência me ensinou foi isso: mesmo quando acontece alguma coisa que muda completamente nossos planos, ainda existem motivos pra continuar olhando para a frente. Quando penso na ONHB, não penso só na medalha, mas em todo o processo – nas horas de estudo, nas discussões, nas minhas amigas, na equipe e em tudo que aconteceu nesse período. Acho que é por isso que essa conquista significa tanto pra mim”.
Para professor, situação é testemunho de amizade
Professor e orientador da equipe, Caliel Vinicius – outrora participante da ONHB, mas como estudante, em 2017 – situa que acompanha Valentina há anos e desenvolveu amizade com a jovem. Ao saber da notícia de que ela estava com câncer, ficou “totalmente abalado”.
“Nunca imaginei passar por isso sendo professor, e nunca imaginei que ia sentir tanto. São muitos alunos, muito trabalho, muitas escolas, o mundo caiu na minha cabeça. Lembro de ter ficado bem pensativo sobre essa situação”.
De forma prática, quanto à substituição necessária na equipe, não titubeou: “Precisava ser uma pessoa que demonstrasse respeito pela situação, pela equipe, e que fosse de confiança. Tinha que ser a Isadora”.
Da decisão até a realização da prova, foram horas diárias de estudo e cuidado para com os estudantes, tanto na parte intelectual quanto no trato psicológico.
Resultado: além de angariar medalhas de bronze e prata em outras equipes, também levou para casa a medalha de ouro justamente com a equipe que mais depositou torcida para que isso acontecesse, tendo em vista a situação envolvendo Valentina.
“Nada me tirava a certeza de que essas meninas iam medalhar. Elas eram as melhores, as mais preparadas, focadas e tinham a responsabilidade de representar uma menina grandiosa, maravilhosa, inteligente, sociável, que tá passando por uma situação difícil. Era motivador e, ao mesmo tempo, uma pressão. Mas eu confiava nelas”.
E completa: “Ali notei a importância da amizade de forma gigantesca. Nunca vi meninas tão dedicadas em torno de um objetivo – e esse objetivo era conseguir uma medalha pra Valentina. É uma vitória, então, extremamente compartilhada. Sei que tenho uma parte imensa nisso, mas insisto: não chegaria na final se não fossem outras pessoas e, principalmente, a Valentina. Não se faz professor sem aluno”.