O casarão de número 1.313 da Avenida Imperador, no Centro de Fortaleza, atravessou diferentes fases da história cearense. Foi residência de uma família ligada à elite econômica do Estado, abrigou atividades de órgãos públicos e, nas últimas décadas, passou a enfrentar o abandono e a deterioração.
Agora, a perspectiva de uma nova função pode abrir caminho para que o imóvel centenário volte a ser utilizado: a construção deverá abrigar uma casa de apoio para pacientes da cidade de Icapuí, no Litoral Leste do Estado, que buscam atendimento médico na Capital, e também poderá receber estudantes do município.
A possibilidade de dar uma nova finalidade ao prédio ganha força após a conclusão de um dossiê técnico elaborado por três arquitetas selecionadas no Edital de Fomento ao Patrimônio Edificado da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor).
O trabalho reúne informações históricas, levantamento arquitetônico, registros fotográficos e a identificação dos danos existentes na construção, que possui tombamento provisório municipal desde 2012.
O documento foi apresentado no dia 7 de outubro, em reunião do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural de Fortaleza (Comphic), e poderá subsidiar o avanço do processo de tombamento definitivo. Ao mesmo tempo, o material oferece informações técnicas que podem orientar futuras intervenções de recuperação e adaptação do imóvel.
O Diário do Nordeste escolheu históricas residências do Centro tombadas provisoriamente pelo poder municipal para compor a série “Casarões de Memórias”, com reportagens especiais que revelam histórias inéditas, o estado atual dos imóveis e aspectos afetivos de quem habitou esses lugares.
Diferentemente dos dois casarões abordados anteriormente nesta série, a residência da Avenida Imperador não é usada como moradia e também não possui função comercial. O imóvel pertence à União e foi cedido pela Superintendência do Patrimônio da União no Ceará (SPU-CE) ao Município de Icapuí, que pretende transformá-lo em um equipamento de apoio à população.
A proposta, contudo, ainda depende da obtenção dos recursos necessários para executar as obras. A Prefeitura de Icapuí já iniciou o levantamento dos custos para a intervenção, mas não há, até o momento, previsão confirmada para o começo da reforma.
De residência da família Markan a prédio público
Antes de ser conhecido como o antigo prédio do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), o casarão foi morada de Joaquim Markan Ferreira Gomes, empresário ligado à indústria de cigarros em Fortaleza. Ele viveu no local com a esposa, Noemi, e os cinco filhos do casal.
A residência esteve ligada à história da família Markan pelo menos desde o início do século XX até o começo da década de 1930. Um dos registros que ajudam a dimensionar a antiguidade da construção é o nascimento de Geraldo Markan, filho mais novo do casal, em 5 de janeiro de 1929, no próprio casarão.
A casa também foi cenário de encontros sociais e de uma rotina que refletia o padrão de vida da família. Entre as lembranças transmitidas pelas gerações, estão as grandes festas frequentadas pela sociedade cearense e a criação de duas vacas no quintal, para garantir leite fresco às crianças.
Décadas depois, Joaquim Markan mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Em 1956, o imóvel foi adquirido pelo Dnocs, encerrando o período conhecido de ocupação como residência particular da família.
O prédio passou a integrar a estrutura pública federal e recebeu atividades ligadas à piscicultura. No local, funcionou o Serviço de Piscicultura do Dnocs, e o Museu Rodolpho von Ihering foi inaugurado em 15 de setembro de 1958.
Dossiê reúne história, arquitetura e diagnóstico dos danos
O trabalho das arquitetas Marianne Albuquerque, Rebeka Ayres e Beatriz Santos partiu de uma investigação que combinou pesquisa histórica e visitas técnicas ao imóvel. Selecionada por meio do edital da Secultfor, a equipe teve como objetivo documentar as características da construção, identificar os problemas de conservação e reunir informações que possam orientar futuras decisões sobre o patrimônio.
O resultado foi um dossiê que vai além de um registro fotográfico. O material reúne informações sobre a história do casarão, levantamento de medidas, características construtivas, identificação dos ambientes e diagnóstico das patologias encontradas na edificação. Também foram produzidos desenhos técnicos, como plantas baixas, além de relatório de execução do trabalho.
Durante as visitas, as profissionais encontraram um imóvel de dimensões maiores do que a fachada voltada para a Avenida Imperador permite imaginar. A construção possui dois pavimentos, diferentes ambientes internos e anexos que revelam as mudanças realizadas ao longo de sua história.
Em agosto, o Diário do Nordeste mostrou que o casarão havia sido atingido por danos associados a uma obra no terreno vizinho. A situação incluiu paredes rompidas, alvenaria exposta e resíduos de construção espalhados pelo interior. A Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) autuou o responsável pela intervenção por irregularidades, entre elas a execução de obra sem licença e danos a uma construção integrante do patrimônio cultural.
Apesar dos danos, o imóvel ainda preserva elementos de interesse arquitetônico, como ladrilhos hidráulicos, vitrais, esquadrias, gradis, ornamentos e trabalhos em madeira. Esses componentes ajudam a compreender as características da construção e oferecem referências para uma eventual recuperação.
Trabalho pode ajudar a avançar no tombamento definitivo
O casarão possui tombamento provisório municipal desde 2012. Essa condição já submete o imóvel à proteção patrimonial, mas o processo de tombamento definitivo ainda depende da tramitação e da análise pelos órgãos competentes.
O dossiê elaborado pela equipe de arquitetas poderá contribuir para essa etapa ao reunir informações históricas, arquitetônicas e técnicas sobre a construção. O documento oferece uma base organizada para a avaliação dos valores culturais do imóvel e de suas condições de conservação.
Para Marianne Albuquerque, o trabalho representa uma oportunidade de aproximar profissionais, poder público e sociedade em torno da preservação dos bens históricos. “Quando se trata de conseguir que cada um faça a sua parte, com um objetivo comum, é como se a gente realmente estivesse participando de uma movimentação para algo além, que, nesse caso, seria o tombamento das casas e dos imóveis”, avalia a arquiteta.
A profissional acrescenta que iniciativas desse tipo ajudam a aproximar o conhecimento técnico das necessidades de preservação. Para ela, a participação de equipes especializadas permite olhar para os imóveis históricos de forma mais aprofundada e identificar possibilidades de recuperação.
A entrega do dossiê, entretanto, não significa que o tombamento definitivo esteja concluído. O documento é um instrumento técnico que pode subsidiar o processo, cuja continuidade depende das instâncias responsáveis pela política municipal de patrimônio.
Icapuí começa a calcular custos para recuperar o imóvel
Enquanto o processo de proteção patrimonial segue um caminho positivo, a Prefeitura de Icapuí trabalha para viabilizar a utilização do casarão. A proposta é instalar uma casa de apoio para moradores do município que precisam permanecer em Fortaleza durante tratamentos de saúde ou consultas médicas.
A distância entre Icapuí e a Capital torna especialmente difícil a rotina de pacientes que precisam realizar procedimentos frequentes. Entre os públicos que poderão ser beneficiados, estão pessoas submetidas a quimioterapia, radioterapia e diálise, além de pacientes que precisam permanecer em Fortaleza por mais tempo para acompanhamento médico.
Francisca Nathalia Barreto Rats, que atuou como secretária da saúde de Icapuí até o início de setembro deste ano, explica que a abertura do espaço no casarão da Avenida Imperador busca reduzir as dificuldades enfrentadas por essas pessoas e os custos que recaem sobre o município. “É muito sofrido para os pacientes que fazem tratamentos médicos de longa duração. Alguns precisam ficar em Fortaleza porque têm consultas ou outros atendimentos”, relata.
Segundo a ex-gestora, a equipe de engenharia do município já realizou levantamentos e iniciou a cotação de custos para a recuperação. O trabalho considera tanto a área da frente do terreno quanto a construção histórica, que exige cuidados específicos por suas características arquitetônicas.
A gestão municipal também busca apoio financeiro do Governo do Estado para viabilizar a obra. Como o casarão possui grandes dimensões e demanda intervenções especializadas, a recuperação exige planejamento e recursos que ainda estão sendo levantados. “É um custo alto, não é uma coisa tão barata. Mas estamos correndo atrás”, afirma Francisca Nathalia.
Ela ressalta que a reforma deverá considerar as particularidades do imóvel histórico, evitando que as adaptações comprometam características arquitetônicas originais.
Espaço para estudantes também está nos planos para o casarão
A proposta da Prefeitura de Icapuí não se restringe ao atendimento de pacientes. O projeto também prevê a possibilidade de receber estudantes que precisem se deslocar para Fortaleza para fazer vestibulares, participar de atividades acadêmicas ou realizar cursos.
A iniciativa pretende oferecer um espaço de apoio para moradores que buscam oportunidades educacionais na Capital e que, muitas vezes, precisam arcar com despesas de transporte e hospedagem.
“Uma das ideias era que também houvesse alojamentos para os nossos estudantes que vêm estudar. Isso daria uma grande economia e oportunidade para as pessoas que querem fazer um curso ou entrar em uma universidade”, explica Nathalia.
A definição dos ambientes, porém, dependerá do projeto de adaptação e das condições técnicas identificadas durante o planejamento da obra.
Na avaliação de Marianne Albuquerque, a dimensão interna da construção pode favorecer a implantação das atividades pretendidas, embora sejam necessárias intervenções para adequar alguns espaços.
Eu acho que isso seria uma grande oportunidade de deixar a casa valorizada. Acredito que há bastante espaço para atender tanto estudantes quanto pessoas que vêm a Fortaleza para receber atendimento médico
A arquiteta destaca que a adaptação precisará considerar as necessidades específicas de cada público. Entre os pontos que poderão exigir mudanças está a instalação de sanitários adicionais, especialmente nos pavimentos e ambientes destinados à hospedagem.
Para a profissional, o aproveitamento do casarão representa uma oportunidade de conciliar a preservação histórica com uma função de interesse público. “O fato de Icapuí ter abraçado a causa, de pegar aquele prédio e dar um novo uso a ele, já é algo incrível”, avalia.
Créditos
João Lima Neto, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo