Entre as ruas do Centro de Fortaleza que guardam vestígios de outras épocas, um casarão centenário preserva as marcas de uma família ligada à história política de Russas, no interior do Estado. Comprada já construída por João de Deus, duas vezes prefeito do município, a residência na Rua da Assunção, 398, atravessou gerações, foi cenário de histórias familiares e mantém características arquitetônicas originais até hoje.
“Ele nasceu e morreu naquela casa”. A lembrança de Roberto de Deus Carvalho sobre o tio, Antônio João, resume parte da relação da família com o imóvel. Filho de João de Deus, o antigo morador nasceu na residência por volta de 1947 e permaneceu ligado a ela durante praticamente toda a vida.
O Diário do Nordeste escolheu históricas residências do Centro tombadas provisoriamente pelo poder municipal para compor a série “Casarões de Memórias”, com reportagens especiais que revelam histórias inéditas, o estado atual dos imóveis e aspectos afetivos de quem habitou esses lugares.
Segundo Roberto, baseado nas idades dos familiares e nos últimos documentos que teve acesso antes da venda do imóvel, o casarão já chega aos 100 anos de existência.
A história da casa começa com o avô dele, João de Deus, político que foi duas vezes prefeito de Russas. Ele comprou a residência já construída para servir de ponto de apoio à família durante as estadias na capital cearense, já que morava principalmente no município do interior.
“Morava lá o vovô João de Deus, que ia para Russas e voltava, a vovó também. E tinha a Nininha (governanta)”, recorda Roberto. Segundo ele, as mulheres envelheceram e morreram na própria casa, que permaneceu ligada à família por décadas.
Com o passar dos anos, Antônio João tornou-se um dos poucos moradores permanentes do casarão. Na fase final da vida, dividia o espaço com um rapaz chamado Luiz e uma cozinheira, Quitéria. “Eu sempre que passava lá na casa, conversava com ele. Eu era o mais próximo dele, dos sobrinhos”, conta Roberto.
Antônio João morreu em 2018, sem deixar filhos. Parte do imóvel ficou para Roberto e outra parte para a mulher com quem o tio mantinha uma união. A propriedade foi vendida em 2022, após dificuldades na administração conjunta, segundo o familiar.
Da herança à nova ocupação
O atual proprietário, um administrador de empresas, que preferiu não ser identificado, afirma que encontrou a construção deteriorada quando a comprou.
Segundo ele, só depois da aquisição tomou conhecimento de questões relacionadas aos órgãos públicos e à situação patrimonial do imóvel. “Infelizmente, a gente nem sabia desse processo. Tinha Ministério Público, tinha Meio Ambiente, tinha entrado com um processo para o imóvel, que estava mal”.
A ideia inicial do administrador de empresas era transformar a residência em uma pousada, mas o projeto não avançou por questões familiares e dificuldades relacionadas à localização. Parte da casa passou a ser utilizada para locação de unidades residenciais.
“Acabei alugando alguns apartamentos como kitnets, mas eu não mudei praticamente nada da configuração da casa”, afirma o atual dono do imóvel. Atualmente, quatro pessoas vivem no casarão.
Apesar das mudanças de uso, elementos antigos continuam presentes. Entre eles, estão pisos, escadaria de madeira, vitrais e uma grande banheira. O dono afirma que procurou manter essas características e que encontrou fotografias da família entre os pertences deixados na residência. Parte do material foi devolvida aos antigos moradores.
O banheiro do andar superior também permanece na memória de Roberto, que recorda as dimensões incomuns. “O curioso lá é o banheiro que tem lá em cima, que é do tamanho de uma sala grande mesmo, muito grande”.
Uma casa que ajuda a contar a expansão do Centro
Além das memórias familiares, a residência oferece pistas sobre as transformações urbanas de Fortaleza. O casarão possui tombamento provisório e consta na relação municipal de bens protegidos sob o processo nº 23892/2012.
Em 2025, a Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Cultura (Secultfor), lançou o Edital de Fomento ao Patrimônio Cultural Edificado, financiado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). A iniciativa selecionou projetos para realizar levantamentos técnicos, históricos e arquitetônicos de imóveis com tombamento provisório.
Foi por meio desse edital que o arquiteto e urbanista Eduardo Soares de Oliveira e a equipe dele (os historiadores Vinícius Mesquita e Vanessa Albuquerque, a técnica em desenho Hevilany Ferreira e o coordenador de produção visual, Marcelo Pacheco) realizaram o levantamento arquitetônico da residência, incluindo desenhos técnicos, pesquisa histórica e diagnóstico do estado de conservação.
Até o momento, a equipe não encontrou documentos que permitam atribuir a autoria do projeto a um arquiteto específico. Durante a apuração desta reportagem, o Diário do Nordeste compartilhou com os pesquisadores informações obtidas em entrevistas sobre a história do imóvel e dos primeiros moradores, contribuindo para aprofundar a investigação.
Uma das hipóteses levantadas é a de que a casa tenha sido projetada pelo arquiteto húngaro Emílio Hinko. A possibilidade está relacionada às semelhanças entre a residência e outras construções atribuídas a ele, especialmente nas fachadas, escadarias e acabamentos internos.
A cerimonialista Alódia Moreira Guimarães, herdeira da casa vizinha com características arquitetônicas semelhantes, confirmou na primeira reportagem desta série que a construção da família dela é uma residência construída por Hinko. Essa informação reforça o interesse em investigar uma possível relação entre os imóveis.
Para Eduardo, a importância da residência está também na maneira como foi implantada no terreno. A construção ajuda a representar um período em que Fortaleza começava a ultrapassar os limites do núcleo mais antigo e avançava em direção a outras áreas da cidade.
“Que foi quando a cidade começou a sair do Centro para as bordas. Antigamente, as casas ocupavam o lote por completo, de muro a muro, não tinham recuos. Isso era um retrato de uma época”, explica.
A mudança na forma de construir também acompanhou transformações nos conhecimentos sobre higiene e saúde pública. Segundo o arquiteto, a valorização da iluminação natural e da ventilação levou à adoção de novas soluções nas residências.
À medida que a ciência foi evoluindo, viram que, na verdade, a casa totalmente fechada era ruim, porque ficam bactérias, vírus, fungos, tudo lá dentro. Começaram a aparecer os problemas respiratórios. Então houve essa primeira evolução urbanística, não só em Fortaleza, mas no Brasil todo, no mundo inteiro, que foi deixar as casas mais iluminadas e mais arejadas.
O casarão possui recuo frontal, afastamentos laterais, espaço livre nos fundos e varandas nos dois pavimentos. Para Eduardo, essas características revelam uma nova relação entre a residência e a rua. “É uma forma de você já começar a viver mais a rua. É um espaço semipúblico, digamos. A pessoa já está ali vivendo, já está vendo a cidade”.
“Já é uma pequena modernização do estilo de vida, uma pequena modernização dos costumes. Ela é um exemplar da primeira expansão do Centro. Construíram ali os boulevards, o Parque das Crianças e tudo mais. Então, ela já está além do Centro e já é essa casa que agora está descolada do lote”.
Um dossiê para subsidiar decisões
O levantamento arquitetônico também registrou elementos históricos que permanecem na construção. Eduardo considera que a residência está bem conservada, embora existam alterações em algumas áreas, especialmente nos fundos. “Ela tem piso original, na maioria da parte".
Entre os elementos identificados estão a escadaria de madeira maciça, os ladrilhos hidráulicos e o piso de madeira no andar superior, com desenhos que chamaram a atenção dos pesquisadores. O arquiteto destaca ainda o cuidado empregado na composição dos ambientes e nos acabamentos da casa.
Além de documentar a arquitetura, a equipe produziu um laudo sobre as condições atuais da construção. Segundo Eduardo, esse material é necessário para instruir processos de tombamento.
Todos os tombamentos precisam de desenhos. A casa não tinha. Então a gente fez os desenhos técnicos e fez um laudo de conservação, como é que está o estado, que também todos os tombamentos precisam fazer, dizendo como é o estado de conservação atual da casa
O dossiê reúne informações históricas, arquitetônicas e construtivas que podem auxiliar a Prefeitura na análise do imóvel. As informações compartilhadas pela reportagem sobre os antigos moradores complementam esse trabalho ao acrescentar relatos sobre a trajetória da residência.
A elaboração do documento, contudo, não significa que o tombamento definitivo esteja garantido. O material fornece subsídios técnicos para que o poder público avalie o bem e dê andamento aos procedimentos necessários.
Entre a memória e o custo de manutenção
Para o atual dono do imóvel, manter uma construção antiga representa um desafio financeiro. O proprietário defende que o poder público desenvolva mecanismos capazes de estimular o uso econômico dos casarões históricos e ajudar a custear manutenção. “Eu acho que o Centro da cidade devia priorizar essas locações”, afirma.
Na avaliação dele, os incentivos existentes são insuficientes para compensar os gastos de conservação. “Para manter um imóvel desse é caro. A gente não tem isenção de praticamente nada, só 50% do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Assim, não tem sentido nenhum”.
Créditos
João Lima Neto, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo