Ceará

Casarão na Rua da Assunção guarda memórias da expansão do Centro de Fortaleza

João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
13/10/2026 - 06:00 (Atualizado em 13/10/2026)

Fortaleza chega aos 300 anos carregando, entre ruas, praças e edifícios, marcas de diferentes períodos da história. No Centro, onde a cidade nasceu e se expandiu, casarões construídos há mais de um século permanecem como testemunhos de uma Capital que se transformou ao longo das décadas. Essas edificações guardam formas de morar, costumes, relações familiares e modos de construir que ajudam a compreender a formação do município.

O Diário do Nordeste escolheu três residências históricas do bairro, tombadas provisoriamente pelo poder municipal, para compor a série “Casarões de Memórias”. As reportagens especiais revelam histórias inéditas dos antigos moradores, o estado atual de conservação dos imóveis e os vínculos afetivos construídos nesses lugares.

Os imóveis integram uma lista de prédios presentes no Edital de Fomento ao Patrimônio Cultural Edificado, lançado pela Prefeitura de Fortaleza em 2025 com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). A iniciativa é voltada à produção de levantamentos históricos, arquitetônicos e técnicos que possam subsidiar políticas públicas de preservação e processos de tombamento.

As histórias desses imóveis também revelam um dos principais desafios para a preservação do patrimônio: como manter construções históricas vivas, conservadas e integradas à cidade? A conservação exige gestão compartilhada entre poder público, moradores, pesquisadores e sociedade, com políticas de incentivo, acompanhamento técnico, recursos e definição de usos que permitam conciliar preservação e sustentabilidade.

Casarões de Memórias

Casarão na Rua da Assunção e os primeiros moradores

Em meio a prédios quadrados, pontos comerciais e movimento intenso que transformou o Centro de Fortaleza ao longo das décadas, um casarão ainda preserva a aparência de um tempo em que as casas tinham jardins, famílias se conheciam pela vizinhança e a rua também era lugar de brincar. Na esquina da Rua da Assunção com a General Clarindo de Queiroz, o imóvel de número 390 permanece como uma espécie de ilha de memória em meio à paisagem urbana.  

Para a cerimonialista Alódia Moreira Guedes Guimarães, de 82 anos, porém, a casa é mais do que um exemplar da arquitetura antiga da cidade: é o lugar onde nasceu, cresceu, namorou, ficou noiva e viveu até se casar. Segundo ela, o imóvel se aproxima dos 90 anos de existência. 

A história do casarão começou antes do nascimento de Alódia. Os pais, Rui Garcia Guedes e Carmelita Moreira Guedes, moravam em uma casa em frente à Igreja do Coração de Jesus e procuravam um terreno para construir uma residência naquela região. Quando encontraram o espaço na Rua da Assunção, decidiram comprá-lo. 

Casarões de Memórias

Uma casa projetada por Emílio Hinko

Para transformar o terreno na residência da família, Rui e Carmelita recorreram a um amigo próximo — o arquiteto e construtor Emílio Hinko, personagem importante da arquitetura de Fortaleza. 

Emílio Hinko transitava por diferentes linguagens, mas o Art Déco foi uma das marcas mais recorrentes da produção em Fortaleza. Nas residências assinadas por ele, o arquiteto incorporou preocupações com ventilação, iluminação e salubridade, implantando as casas com afastamentos dos limites dos terrenos, muros baixos, jardins e espaços abertos

“Meus pais eram muito amigos do Emílio Hinko, que era um grande arquiteto, um grande construtor. Ele era muito amigo do meu pai e da minha mãe. Então, fez a nossa casa”, conta Alódia. 

A residência foi pensada para atender às necessidades específicas dos dois moradores. Carmelita trabalhava com alta-costura e ganhou dentro de casa um espaço destinado ao ateliê. Rui, funcionário público que chegou a exercer funções como prefeito interino e secretário, tinha um gabinete repleto de livros. 

“O meu pai era um homem muito culto. Ele era filólogo [ciência que estuda a linguagem], amava a língua portuguesa e tinha um conhecimento profundo sobre literatura. Tinha um gabinete muito bem equipado, muitos livros, uma enciclopédia rica, maravilhosa, que depois nós doamos para a Academia Cearense de Letras”, afirma. 

Jovino Guedes Alcoforado (circulado na imagem) nasceu em 1859, em Arneiroz (CE). Ele foi o primeiro Padeiro-Mar da Padaria Espiritual, famosa agremiação artístico-literária fundada em maio de 1892, na capital cearense, com o objetivo irreverente de 'fornecer o pão do espírito' à sociedade por meio da literatura, das artes e da sátira.
Legenda: Jovino Guedes Alcoforado (circulado na imagem) nasceu em 1859, em Arneiroz (CE). Ele foi o primeiro Padeiro-Mar da Padaria Espiritual, famosa agremiação artístico-literária fundada em maio de 1892, na capital cearense, com o objetivo irreverente de 'fornecer o pão do espírito' à sociedade por meio da literatura, das artes e da sátira.
Foto: Arquivo Nirez.

Rui era filho de Jovino Guedes Alcoforado, apontado pela filha como um dos primeiros padeiros da Padaria Espiritual. Carmelita, por sua vez, era filha de Pedro da Rocha Mota e irmã mais nova de uma família numerosa. O irmão mais velho dela era Moreira da Rocha, médico e deputado federal que posteriormente deu nome à Rua Deputado Moreira da Rocha, no bairro Meireles. 

Casarões de Memórias

O nascimento de Alódia 

Cerimonialista Alódia Moreira Guedes Guimarães, de 82 anos, nasceu e até casou no casarão da Rua da Assunção.
Legenda: Cerimonialista Alódia Moreira Guedes Guimarães, de 82 anos, nasceu e até casou no casarão da Rua da Assunção.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

A casa foi o local de nascimento de Alódia. Os pais dela tiveram duas filhas. A primeira, Artamilce, chegou a viver ainda na residência anterior, em frente ao Coração de Jesus, antes de se mudar para o casarão da Rua da Assunção. A diferença de idade entre as irmãs era de 17 anos. 

Artamilce era adolescente quando Alódia nasceu; já era noiva de Glauco Lobo, integrante de uma família tradicional de Fortaleza. A mãe de Alódia acreditava inicialmente que os sintomas que sentia poderiam ser sinais da menopausa. Era, na verdade, a chegada da segunda filha. 

“Depois de 17 anos eu nasci nesta casa, neste quarto. Foi uma coisa maravilhosa, porque minha irmã praticamente foi minha mãe também. A diferença era muito grande. E meu cunhado, o Glauco Lobo, também foi um pai. Nós tínhamos uma relação de muito amor, todos nós. Uma família pequena, mas de muito conteúdo, de afeto e de respeito”, recorda. 

Casarões de Memórias

Infância no Centro marcada por vivências na rua

Atualmente, o local abriga um escritório de advocacia.
A fachada sofreu modificações, mas estrutura de paredes, janelas, teto e escadaria permanecem originais.
Área externa no primeiro andar com vista para rua.
Legenda: O local sofreu alterações com o passar dos anos, mas mantém fachada original.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

A primeira infância de Alódia foi profundamente ligada ao casarão e à rua. Ela descreve uma época em que a vizinhança era formada por famílias próximas e a própria Rua da Assunção funcionava como espaço de convivência. No início, os pais eram cuidadosos e não permitiam que a menina circulasse livremente pela rua. Com o tempo, porém, ela ganhou mais liberdade. E os elementos da própria infraestrutura urbana acabaram incorporados às brincadeiras. 

“A Rua da Assunção era também um grande parque, porque as casas eram todas conhecidas, as pessoas eram muito amigas. Eu era muito cuidada, muito paparicada, não podia correr na rua. Aos poucos, foram me soltando”, conta. 

As crianças brincavam de corda, pega-pega, esconde-esconde e outras brincadeiras que hoje parecem pertencer a outra época. O terraço da casa também se transformava em ponto de encontro da juventudade da época. “Esse terraço na entrada era o mais frequentado por todos os adolescentes dessa geração. A gente brincava de pose. A pessoa fazia uma pose e depois dizia qual era a mais bonita", relembra a cerimonialista.

Casarões de Memórias

O ateliê de Carmelita 

Carmelita, mãe de Alódia, era conhecida pela criatividade e pelo perfeccionismo.
Legenda: Carmelita, mãe de Alódia, era conhecida pela criatividade e pelo perfeccionismo.
Foto: Arquivo Pessoal

Se o quintal e o terraço eram espaços de brincadeira, o ateliê de Carmelita ocupava outro lugar na memória de Alódia. A menina cresceu observando-a trabalhar com tecidos, desenhos e roupas feitas sob medida. “O ateliê da minha mãe era muito frequentado. Eu tinha uma paixão pelo ateliê, eu vivia nele".

A moda também aproximava mãe e filha. Naquele período, roupas não eram compradas prontas como atualmente. Os vestidos eram feitos sob medida, e o ateliê produzia peças para ocasiões especiais, incluindo casamentos e festas de Carnaval.

“Naquela época, você não comprava uma blusa pronta. Tudo era mandado fazer sob medida. E minha mãe fazia vestidos de noivas belíssimos, fantasias lindíssimas. Os carnavais eram lindíssimos, as fantasias eram maravilhosas e eu vivenciei tudo isso". Alódia passou a participar do trabalho e chegou a produzir brincos e adereços para a mãe. 

Casarões de Memórias

A caminhada pelo Centro 

Diferente do passado, o casarão possui uma grade que separa a residência da rua. No passado não havia essa barreira.
Legenda: Diferente do passado, o casarão possui uma grade que separa a residência da rua. No passado não havia essa barreira.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

A relação de Alódia com o Centro de Fortaleza não se limitava à casa. Segunda-feira era dia de sair a pé com Carmelita e percorrer as ruas da região. “Minha mãe não trabalhava no ateliê. Ela ia para a rua e nós íamos a pé para o Centro da cidade".

O passeio tinha também uma finalidade profissional. Carmelita acompanhava a chegada de tecidos e passava pelas lojas que abasteciam o mercado de alta-costura da época. “Ela ia passar um visto nos tecidos que haviam chegado na loja A Cearense, depois na Ceará Chic, na Magenor. Eram casas de muito renome em tecidos".

A memória dessas caminhadas é também uma lembrança de um Centro diferente, no qual o comércio especializado e as relações pessoais faziam parte do cotidiano. A formação escolar de Alódia também esteve ligada a uma instituição de referência na cidade: o Colégio da Imaculada Conceição. Ela mantém até hoje a relação com a instituição e atua como conselheira da Associação dos ex-alunos.

Casarões de Memórias

O dia em que a Igreja do Coração de Jesus caiu 

Desabamento da Igreja do Coração de Jesus, em Fortaleza, em 15 de março de 1957. A queda da torre provocou a destruição de parte da estrutura do templo e mobilizou moradores e equipes de socorro no entorno do templo religioso.
Legenda: Desabamento da Igreja do Coração de Jesus, em Fortaleza, em 15 de março de 1957. A queda da torre provocou a destruição de parte da estrutura do templo e mobilizou moradores e equipes de socorro no entorno do templo religioso.
Foto: Fortaleza em Fotos/Acervo Digital da Prefeitura de Fortaleza.

Entre as lembranças mais marcantes da juventude, está um episódio que testemunhou ao lado do pai — a queda da cúpula da Igreja do Coração de Jesus. Alódia havia voltado a pé do Colégio da Imaculada Conceição. Costumava atravessar a igreja durante o trajeto, mas naquele dia seguiu diretamente para casa. Encontrou o pai e os dois foram para o terraço. 

Do alto da casa, os dois observavam a paisagem quando a estrutura da igreja desabou. “Nós dois estávamos aqui conversando, olhando para aquele ambiente maravilhoso, quando, de repente, caiu a cúpula da igreja. E, abençoadamente, não tinha uma só pessoa dentro da igreja. Foi um milagre, porque a igreja sempre tinha muita gente".

Casarões de Memórias

Namoro, noivado e casamento no casarão 

A história de amor de Alódia também se desenvolveu dentro da casa. O namoro e o noivado com Paulo Sérgio Alves Guimarães aconteceram ali, assim como parte dos preparativos para o casamento. Em 6 de junho de 1969, o casamento civil foi realizado no próprio casarão. 

Nós fizemos o casamento civil aqui na nossa casa. Naquele momento eram só os padrinhos e as minhas damas, que eram minhas amigas de infância, com os namorados, os maridos ou os noivos
Alódia Moreira Guedes Guimarães
Cerimonialista e proprietária do casarão da Avenida Assunção

Após do casamento, Alódia passou seis meses no Paraná, onde o marido tomou posse no Banco do Brasil. O casal já havia deixado um apartamento alugado e mobiliado para quando retornasse.

Mesmo depois de deixar fisicamente o casarão, ela continuou frequentando a casa dos pais. “Eu vinha jantar diariamente na casa dos meus pais até o dia em que fechamos as portas".

A morte do patriarca e os últimos anos da mãe

Rui Garcia Guedes nasceu no dia 30 de dezembro de 1897. Ele era filho de Jovino Guedes Alcoforado, um um dos primeiros padeiros da Padaria Espiritual.
Legenda: Rui Garcia Guedes nasceu no dia 30 de dezembro de 1897. Ele era filho de Jovino Guedes Alcoforado, um um dos primeiros padeiros da Padaria Espiritual.
Foto: Arquivo Nirez.

A saída definitiva de Alódia da casa coincidiu com uma nova fase familiar. Rui Guedes morreu de maneira fulminante, em 1973, segundo a filha. O episódio foi marcado por uma espécie de pressentimento. Alódia havia passado pela casa para visitar os pais antes de seguir para um almoço no Icaraí, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.

Durante a refeição, recebeu a notícia de que alguém precisava falar com ela. “Quando eu olhei, vi que era o meu vizinho. E, quando olhei, disse: ‘O papai morreu’. Ele não tinha nada, não estava com nada, mas foi uma coisa que veio em mim”. Ela voltou imediatamente para casa. Encontrou a mãe devastada. 

Rui era espírita e, segundo a filha, havia transmitido a ela uma visão de espiritualidade que, naquele momento, ajudou a enfrentar a perda. “Meu pai era um homem muito espiritualizado. Foi quem me ensinou a rezar, acompanhava minha mãe à missa, mas era espírita. Ele dizia que espírita não era uma religião, era uma filosofia de vida. E eu acho que foi ele que me deu essa força naquela ocasião”. 

Carmelita permaneceu no casarão por mais quatro anos. Morreu em 22 de fevereiro de 1977, depois de sofrer uma queda que agravou o estado de saúde dela.

Casarões de Memórias

Da residência da família aos escritórios 

Com a morte dos pais, o casarão permaneceu ligado às duas filhas. Durante algum tempo, ficou fechado. Depois, Alódia e a irmã passaram a utilizar o imóvel como espaço profissional. 

As duas tinham ligação com a Construtora Guedes Guimarães, empresa do marido de Alódia. Ela também havia trabalhado durante anos como professora da Escola Técnica Federal do Ceará (ETFCE) — hoje o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) — ensinando português e literatura e, posteriormente, educação moral e cívica. 

Casarão chegou a ser usado como Ouvidoria da Prefeitura de Fortaleza na gestão da prefeitura Luizianne Lins.
Legenda: Casarão chegou a ser usado como Ouvidoria da Prefeitura de Fortaleza na gestão da prefeitura Luizianne Lins.
Foto: Reprodução/Google Maps.

“Transformamos a casa, eu e minha irmã, nos nossos escritórios. Eu fiquei com a parte de cima e ela com a parte de baixo", ressalta Alódia. Atualmente, a casa possui como herdeiros a cerimonialista e sobrinhos. 

Mais tarde, o imóvel ficou um período sem nenhuma ocupação até ser escolhido para ser sede de um órgão público. O casarão chegou a funcionar como Ouvidoria da Prefeitura de Fortaleza. Ela conta que não gostou da mudança de finalidade. Anos depois, surgiu a possibilidade de locação para um escritório de advocacia. 

Casarões de Memórias

De casarão desocupado a escritório de advocacia

Casarão tem teto preservado, base de lustre, mas antigos quartos foram transformados em salas de escritório.
Legenda: Casarão tem teto preservado, base de lustre, mas antigos quartos foram transformados em salas de escritório.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

Foi ao passar diariamente pela Rua da Assunção, a caminho da Justiça Federal, que o advogado Rodrigo Ferreira Gomes, de 51 anos, começou a prestar atenção no casarão. Na época, o imóvel estava desocupado, com janelas fechadas por tijolos e sinais de deterioração. Quando o escritório onde trabalhava ficou pequeno, ele viu uma placa de "aluguel" na fachada e decidiu transformar o espaço no novo local de trabalho.

“Eu via essa casa e me dava uma tristeza enorme por conta de ver um patrimônio cultural. Eu gosto muito desse tipo de construção e via isso aqui e me dava um aperto no coração”, relata o advogado.

Segundo Rodrigo, quando assumiu o imóvel, por volta de 2019, a situação era de grande deterioração. O piso estava danificado, havia diferentes tipos de revestimento, tacos de madeira haviam sido arrancados e deixado pregos expostos, enquanto o telhado apresentava problemas que permitiam a entrada de água durante as chuvas.

“A gente começou a ver o que dava para fazer para manter, para resgatar o que existia de bom nessa casa”, conta. O trabalho incluiu o fechamento de buracos deixados por instalações antigas e reformas realizadas por ocupantes anteriores. Em alguns pontos, ele orientou que o novo reboco imitasse o acabamento original.

Apesar das intervenções necessárias para tornar o espaço novamente habitável, Rodrigo afirma que procurou preservar elementos históricos. Entre eles, estão a escadaria de madeira e o corrimão, algumas janelas, partes do teto, suportes para lustres e elementos da fachada.

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Legenda: Luminárias, escadaria e a base pare lustre na sala são algumas das estruturas preservadas até hoje.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

“Foi uma luta. Devagarinho a gente foi fazendo e tem algumas coisas que a gente conseguiu preservar”, afirma o inquilino. Hoje, o advogado diz que considera o imóvel um ponto turístico informal do Centro. Segundo ele, pessoas param diante da fachada para fotografar e perguntar sobre a construção.

Para Rodrigo, porém, a experiência também revelou uma dificuldade enfrentada por proprietários e ocupantes de imóveis históricos: a falta de incentivos e de orientação técnica por parte do poder público. Ele defende políticas que possam reduzir os custos de manutenção e restauração, além de um acompanhamento mais próximo dos responsáveis pela preservação do patrimônio.

“Eu acho que o poder público cobra muito de quem habita esse tipo de imóvel e não dá nenhum tipo de incentivo. Nós pagamos IPTU, pagamos todos os impostos que devem ser pagos e só recebemos cobrança”, critica.

O advogado também relata que chegou a receber um auto de infração durante o processo de recuperação do imóvel. Segundo ele, a autuação ocorreu sob alegação de que a casa estava sendo reformada sem autorização. Rodrigo afirma que apresentou defesa e conseguiu reverter a autuação.

Na avaliação do advogado, a recuperação do casarão demonstra que a preservação do patrimônio também depende de quem ocupa e utiliza esses espaços. “Se não fosse a gente, hoje essa casa não existia mais. O telhado já teria caído e, quando o telhado cai, o restante vai junto”, afirma.

Por isso, ele defende uma relação diferente entre poder público, proprietários e inquilinos. “Era o apoio realmente do poder público e um respeito maior por quem realmente faz alguma coisa por esse tipo de imóvel”, resume.

Para Rodrigo, além de incentivos financeiros, como descontos ou benefícios tributários, seria importante oferecer orientação técnica e acompanhamento especializado para quem assume a responsabilidade por um imóvel histórico. A ideia, segundo ele, é que a preservação não seja tratada apenas como uma obrigação do proprietário ou do inquilino, mas como uma responsabilidade compartilhada.

Créditos

João Lima Neto, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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