O ex-estudante de medicina Mateus da Costa Meira, de 51 anos, condenado pelo assassinato de três pessoas em uma sala de cinema de São Paulo, em 1999, foi visto novamente em espaços públicos.
Imagens dele em cafés, livrarias e no cinema de um shopping center em Salvador, na Bahia, passaram a circular em grupos de WhatsApp da região.
Para frequentadores e comerciantes, a mera presença de Mateus é o suficiente para causar desconforto e preocupação.
“Quando eu o vi pela primeira vez, fiquei em dúvida, porque ele está bem diferente. Mas logo a informação se espalhou no shopping, deixando os vendedores com medo”, narrou a lojista Janaína Chaseliov ao jornal O Globo.
Mateus teve a liberdade decretada em 2024, quando deixou o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia. Ele esteve internado na unidade por 13 anos após tentar matar um colega de cela com golpes de tesoura.
Hoje, vive sozinho a poucos quarteirões do shopping, e fora da alçada dos pais, o médico oftalmologista Deolindo Vanderlei Meira, de 87 anos, e a enfermeira Alina da Costa Meira, de 84.
Em entrevista ao O Globo, a psiquiatra Hilda Morana, que examinou Mateus durante quatro meses em São Paulo, defendeu que ele não deveria estar em liberdade. “Ele não pode ficar na rua porque vai fazer maldade”, garante.
Ainda segundo a profissional, o ex-estudante de Medicina é altamente inteligente e tem uma capacidade de manipulação capaz de enganar até os próprios avaliadores.
Massacre no cinema chocou o país
Em 3 de novembro de 1999, Mateus Meira, então com 24 anos, abriu fogo com uma submetralhadora contra o público durante a exibição do filme "Clube da Luta". O ataque deixou três mortos e feriu outras nove pessoas.
Inicialmente, a defesa tentou provar que ele era inimputável. Ou seja, que um transtorno mental grave o impedia de compreender a gravidade de seus atos, impedindo-o de responder criminalmente pelo massacre.
Porém, a narrativa não foi aceita pela Justiça. Uma equipe de psiquiatras foi alocada para analisar a condição de Mateus e chegou à conclusão de que o crime havia sido premeditado e possuía uma riqueza de detalhes incontestável.
Conforme o relato dos peritos, Matheus comprou a arma do crime por R$ 5 mil, providenciou munição, consumiu cocaína, deixou o apartamento onde morava e hospedou-se num hotel para dificultar seu rastreamento.
Esses fatos ajudaram a Justiça a entender que o ex-estudante poderia, de fato, ser considerado plenamente responsável pelo massacre. Assim, Mateus foi condenado e enviado para cumprir pena em Tremembé, em São Paulo.
Internação e soltura
Mateus pediu transferência de Tremembé para a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, em 2004, para ficar perto dos pais. Cinco anos depois, porém, voltaria a sentar no banco dos réus pela tentativa de homicídio contra Francisco Vidal Lopes, de 58 anos.
Novamente, a banca de defesa voltou a alegar que ele era inimputável, com o argumento de insanidade mental. Outra equipe de especialistas se tornou responsável por analisar o ex-estudante, mas o resultado se manteve o mesmo: Mateus tinha ciência do que fazia.
A reviravolta aconteceu ao fim do julgamento, quando o Ministério Público da Bahia (MP-BA) aderiu à tese, os jurados concordaram e o réu foi transferido para o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico do Estado.
Em 2024, Mateus foi solto com anuência da Justiça da Bahia, após anos de insistência por parte dos advogados e da família para ele continuar o tratamento em casa.
Na decisão, ficou acordado judicialmente que os pais se encarregariam de manter o tratamento psiquiátrico do paciente, com atenção especial aos remédios que o mantêm controlado.
Para a médica Grace Adriana Lopes Conceição, que trabalhou por três anos no Hospital de Custódia e o examinou durante quase um ano, Mateus é psicopata e possui uma personalidade marcada pela falta de empatia e nenhum arrependimento.
“O risco existe. Mateus pode voltar a cometer crimes, embora dificilmente repetisse um ataque nos mesmos moldes do massacre de 1999, justamente por ser inteligente demais”, avaliou, em declaração para o O Globo.
Até o momento, o Ministério Público da Bahia e o Tribunal de Justiça da Bahia não se posicionaram publicamente sobre a situação de Mateus.