Sacerdote deixa fortuna de herança

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
12 de Maio de 2007 - 01:59
Maior vítima da Bispado do Crato, Padre Cícero foi-lhe extremamente generoso. Deixou-lhe, de sua herança de bens recebidos por doações, uma fortuna. De acordo com o inventário do Padre Cícero, registrado em cartório do Juazeiro, antes da morte dele em 1934, e levantado por Paulo Machado, a Diocese do Crato recebeu bens no valor de 493:918000 (quatrocentos e noventa e três contos, novecentos e dezoito mil réis) — mais do que o dobro da segunda mais contemplada, a Congregação Salesiana, que recebeu 183.903000 (cento e oitenta e três contos, novecentos e três mil réis). Com essa fortuna, o Bispado do Crato poderia ter montado uma fazenda com 820 bois zebus adultos, sonho de latifundiários e agropecuaristas da época e da atualidade também.

Mesmo tão generosamente beneficiada pelo Padre Cícero, a Diocese de Crato nunca soube reconhecer isso. Pelo contrário, ao invés de gratidão, o que deu ao Juazeiro do Padre Cícero, durante décadas, foi muita hostilidade, felizmente quase inexistente nos tempos atuais. Mas os abusos contra Juazeiro vêm de longe. Em seu “Depoimento para a História”, em 1923, Floro Bartolomeu, lembra que, na perseguição implacável ao Padre Cícero, o Bispado do Crato chegou a interditar a Matriz de Juazeiro para que nenhum padre pudesse nela celebrar, porém jamais deixou de acolher e recolher seus donativos financeiros gerados.

“Só para arrecadação das importâncias nos cofres de Nossa Senhora das Dores, pelos romeiros, e que eram transportadas para o Crato em sacos de tamanho regular, não havia interdição”, apontou ele.

Configura-se, na atualidade, uma situação financeira semelhante a do início do século 1900, quando Juazeiro sustentava o Crato com o pagamento de impostos. Agora, o município parece estar acordando para lutar por sua independência como província religiosa, com o objetivo de ter e manter a sua própria Diocese.

Extraoficialmente, as nove paróquias da Diocese no Crato arrecadam em torno de R$ 40 mil por mês, ou R$ 480 mil por ano, o que deixa a Cúria Diocesana em situação difícil. Daí a dependência dela em relação a Juazeiro. Recebe R$ 226 mil por ano contra praticamente zero de suas próprias paróquias no Crato. Sem falar nas espórtulas excedentes de Juazeiro (missas encomendadas) que revertem para a Diocese.

Em 1967, Della Cava chocou-se com essa curiosa transferência financeira: “Está, no momento, em pleno vigor na Diocese do Crato, que recebeu mais de 1 milhão de cruzeiros, provenientes de missas encomendadas em 1965, em Juazeiro, em um só dia”.

Sempre foi e sempre será difícil o acesso de pesquisadores à vida econômica da Igreja. Dom Fernando Panico, atual bispo do Crato, habilidosamente, desconversa. Diz apenas que a Diocese vive numa situação de penúria. Condutor do processo de reabilitação do Padre Cícero, sob orientação do papa Bento XVI, dom Panico está, gradativamente, ocupando o vazio deixado pela morte, em 2006, do monsenhor Murilo de Sá Barreto, durante 44 anos sucessor e defensor do Padre Cícero no Santuário Diocesano das Dores e, por isso, celebrizado como “Vigário do Nordeste”. Agora, até falam que Juazeiro está disposto a oferecer a dom Panico um Palácio Episcopal e que ele poderia ser o primeiro bispo do Juazeiro. “Isso é apenas uma ilação do povo”, reage ele, sabiamente.