A paz no trânsito também envolve ciclistas e pedestres. Em Limoeiro do Norte, eles estão em pé de guerra
Limoeiro do Norte. Ser pedestre não é fácil, pois a escala de evolução dos transportes terrestres é diretamente proporcional aos riscos de uma trombada em plena calçada na frente de casa ou no patamar logo na saída da igreja. Transporte mais próximo dos ciclistas, a bicicleta é também vilã dos direitos de quem anda a pé. Mesmo com placas bem nítidas proibindo o tráfego em logradouros, a população ciclista sobe na calçada, encurta caminhos e foge do calçamento ruim, mas atropela a lei, o bom senso e provoca acidentes. Em Limoeiro do Norte, a “cidade das bicicletas”, a solução encontrada pelos moradores foi fincar estacas de ferro no meio da calçada para tirar os ciclistas do meio do caminho.
“Atenção senhores ciclistas, por favor, respeitem o pedestre e não andem na calçada” era o que pedia, por muitos anos, uma placa no muro de uma casa na Avenida Dom Aureliano Matos, no Centro de Limoeiro do Norte. Como ninguém obedecia, o jeito foi o morador retirar a placa e fincar canos de ferro recheados de cimento no meio da calçada. Desde então, os ciclistas mal-educados que saem da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (Fafidam) e de três escolas vizinhas têm que andar por onde é lugar de ciclista: na rua.
Mas se tem uma placa bem nítida, mas invisível aos olhos ciclistas, é a que proíbe o passeio de bicicletas na praça principal de Limoeiro do Norte. No entanto, todos os dias pelo menos 300 pessoas sobem a praça calçada e dividem espaço com os pedestres. A aposentada Cosma Noronha tem que olhar para os lados quando põe o pé na Praça José Osterne. “Olha ali”, diz ela, “aquele rapaz correndo; e aquela menina; o povo não respeita, dá é medo quando vai entrar na igreja”, comenta. A dona-de-casa nunca foi colhida por nenhuma bicicleta. “Mas não falta quem atropele”, desabafa ela.
Têm ciclistas que não só passeiam nas praças como até disputam corridas, a qualquer hora do dia, assim que dá vontade. São garotos nas “moutain bikes” fazendo estripulias junto aos pedestres – a mais comum é empinar o pneu dianteiro para ver o céu sem “beijar o chão”. A dona-de-casa, Graça Silveira, nem deixa mais a filha, de 8 anos, ir à pracinha em frente de casa, devido o perigo das “duas rodas”. Quem sai da missa à noite sofre do mesmo medo, pois quando não são as bicicletas são os “patinetes” automáticos, dirigido por crianças no patamar da igreja, mesmo sendo proibidos.
“Ei, o senhor não sabe que é proibido andar de bicicleta na calçada?”, indaga a reportagem; “mas é que tô apressado”, responde um ciclista que já vai longe. Mas é bem perto do taxista José Vagner que quase todos os dias passa gente chispando de bicicleta. “Eu tô aqui lavando o carro, aí quando dá fé passa um por trás, em cima da calçada. Eles que estão errados, mas se um dia a gente der um empurrão é porque é ignorante”, desabafa, e ameaça, o trabalhador na popular “Praça dos Taxistas”.
Danos ao patrimônio
Não é só em Limoeiro do Norte que os ciclistas desafiam pedestres. O prefeito de Russas, Raimundo Cordeiro, precisou baixar uma portaria, no mês passado, exigindo que as pessoas não andassem de bicicleta nas praças, pois estavam causando acidentes. Dessa vez não foram os fiéis, mas a igreja do distrito russano de Flores que não escapou: de tanta “pneuzada”, a porta do templo foi danificada. A entrada foi consertada e, até que “queiram” esquecer, os ciclistas desceram da calçada. O que pouca gente sabe, e quase ninguém aplica, é que o pedestre infrator pode ser multado e ter o veículo apreendido. Difícil é encontrar um caso assim.
SAIBA MAIS
Deveres
Os ciclistas não devem andar na contramão, nem sobre a calçada, para evitar acidentes com pedestres; deve-se evitar pedalar por avenidas, ruas e estradas com grande fluxo, onde circulem caminhões e ônibus; são obrigatórios os usos de retrovisor, campainha e adesivos refletores nos pedais e raios.
Legislação
O Novo Código Brasileiro do Trânsito prevê que o trânsito de todos os municípios brasileiros seja de responsabilidade dos municípios. O Ministério das Cidades determinou o cumprimento até dezembro de 2008. Políticas públicas voltadas para os ciclistas deverão ser contempladas em todo o Brasil.
Melquíades Júnior
Colaborador
Mais informações:
Problemas nas vias relativas ao tráfego de Limoeiro do Norte são de competência do Departamento Municipal de Trânsito
(88) 3423.1165
CÓDIGO EM VIGOR
Código de Trânsito prevê punições
Limoeiro do Norte. Está no artigo 255 do Código Brasileiro de Trânsito: conduzir bicicleta em passeios onde não seja permitida a circulação desta, ou de forma agressiva, em lugares proibidos por lei, é infração média, com multa (valor atualizado em R$ 85,13) e apreensão da bicicleta, mediante recibo para pagamento da multa. O esclarecimento é dado por Osmar Nogueira de Oliveira, diretor do Departamento Municipal de Trânsito (Demut) de Limoeiro do Norte, mas não tem sido uma cobrança constante do próprio órgão.
Capitão Osmar reconhece a dificuldade de aplicar a lei com os ciclistas, “que são muito mal acostumados, é cultural o modo de andarem de todo jeito”, afirma. O Demut tem apenas dois anos e, embora tenha aumentado o rigor na fiscalização de motos e carros (a fiscalização do trânsito está sendo municipalizada em todo o País), aos poucos tenta alertar a população ciclista de que também tem seus deveres. Uma placa indicando a proibição de tráfego de bicicletas foi posta na Praça José Osterne, mais movimentada do Município. Ainda assim, todos os dias centenas de ciclistas fazem vista grossa à legislação em vigor.
Nogueira esclarece que os pequenos motociclos comuns nas praças de Limoeiro do Norte são permitidos. A exceção são os patinetes, que têm os mesmos deveres das bicicletas e, portanto, não podem ser dirigidos nas praças.
No ano passado, o Demut registrou 24 atropelamentos de bicicletas em pedestres. O número deve ser bem maior, já que apenas os mais graves são de alguma forma registrados. Segundo o Demut existem cerca de nove mil bicicletas no município, média de um veículo a cada cinco habitantes.
Especialistas acreditam que a bicicleta, quando usada corretamente, é o melhor instrumento de “humanização” do trânsito e, além de não poluir o meio ambiente, seu uso colabora para uma vida mais saudável aos ciclistas.
De 2005 a 2007 foram registrados 108 acidentes envolvendo ciclistas e pedestres em Limoeiro do Norte. O número de ocorrências não registradas pode ser cinco vezes maior. Embora sem maiores conseqüências, muitos passaram por exames no hospital. Todas as noites, várias turmas de “bicicross” realizam manobras radicais em praça pública sem permissão das autoridades.
O acidente mais recente envolveu um garoto de 8 anos do município de Morada Nova. Ele passeava a pé com a mãe na Praça da Rodoviária de Limoeiro quando foi colhido por um adolescente que pedalava com alta velocidade. A criança pegou alguns pontos no braço.
Limoeiro do Norte. Ser pedestre não é fácil, pois a escala de evolução dos transportes terrestres é diretamente proporcional aos riscos de uma trombada em plena calçada na frente de casa ou no patamar logo na saída da igreja. Transporte mais próximo dos ciclistas, a bicicleta é também vilã dos direitos de quem anda a pé. Mesmo com placas bem nítidas proibindo o tráfego em logradouros, a população ciclista sobe na calçada, encurta caminhos e foge do calçamento ruim, mas atropela a lei, o bom senso e provoca acidentes. Em Limoeiro do Norte, a “cidade das bicicletas”, a solução encontrada pelos moradores foi fincar estacas de ferro no meio da calçada para tirar os ciclistas do meio do caminho.
“Atenção senhores ciclistas, por favor, respeitem o pedestre e não andem na calçada” era o que pedia, por muitos anos, uma placa no muro de uma casa na Avenida Dom Aureliano Matos, no Centro de Limoeiro do Norte. Como ninguém obedecia, o jeito foi o morador retirar a placa e fincar canos de ferro recheados de cimento no meio da calçada. Desde então, os ciclistas mal-educados que saem da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (Fafidam) e de três escolas vizinhas têm que andar por onde é lugar de ciclista: na rua.
Mas se tem uma placa bem nítida, mas invisível aos olhos ciclistas, é a que proíbe o passeio de bicicletas na praça principal de Limoeiro do Norte. No entanto, todos os dias pelo menos 300 pessoas sobem a praça calçada e dividem espaço com os pedestres. A aposentada Cosma Noronha tem que olhar para os lados quando põe o pé na Praça José Osterne. “Olha ali”, diz ela, “aquele rapaz correndo; e aquela menina; o povo não respeita, dá é medo quando vai entrar na igreja”, comenta. A dona-de-casa nunca foi colhida por nenhuma bicicleta. “Mas não falta quem atropele”, desabafa ela.
Têm ciclistas que não só passeiam nas praças como até disputam corridas, a qualquer hora do dia, assim que dá vontade. São garotos nas “moutain bikes” fazendo estripulias junto aos pedestres – a mais comum é empinar o pneu dianteiro para ver o céu sem “beijar o chão”. A dona-de-casa, Graça Silveira, nem deixa mais a filha, de 8 anos, ir à pracinha em frente de casa, devido o perigo das “duas rodas”. Quem sai da missa à noite sofre do mesmo medo, pois quando não são as bicicletas são os “patinetes” automáticos, dirigido por crianças no patamar da igreja, mesmo sendo proibidos.
“Ei, o senhor não sabe que é proibido andar de bicicleta na calçada?”, indaga a reportagem; “mas é que tô apressado”, responde um ciclista que já vai longe. Mas é bem perto do taxista José Vagner que quase todos os dias passa gente chispando de bicicleta. “Eu tô aqui lavando o carro, aí quando dá fé passa um por trás, em cima da calçada. Eles que estão errados, mas se um dia a gente der um empurrão é porque é ignorante”, desabafa, e ameaça, o trabalhador na popular “Praça dos Taxistas”.
Danos ao patrimônio
Não é só em Limoeiro do Norte que os ciclistas desafiam pedestres. O prefeito de Russas, Raimundo Cordeiro, precisou baixar uma portaria, no mês passado, exigindo que as pessoas não andassem de bicicleta nas praças, pois estavam causando acidentes. Dessa vez não foram os fiéis, mas a igreja do distrito russano de Flores que não escapou: de tanta “pneuzada”, a porta do templo foi danificada. A entrada foi consertada e, até que “queiram” esquecer, os ciclistas desceram da calçada. O que pouca gente sabe, e quase ninguém aplica, é que o pedestre infrator pode ser multado e ter o veículo apreendido. Difícil é encontrar um caso assim.
SAIBA MAIS
Deveres
Os ciclistas não devem andar na contramão, nem sobre a calçada, para evitar acidentes com pedestres; deve-se evitar pedalar por avenidas, ruas e estradas com grande fluxo, onde circulem caminhões e ônibus; são obrigatórios os usos de retrovisor, campainha e adesivos refletores nos pedais e raios.
Legislação
O Novo Código Brasileiro do Trânsito prevê que o trânsito de todos os municípios brasileiros seja de responsabilidade dos municípios. O Ministério das Cidades determinou o cumprimento até dezembro de 2008. Políticas públicas voltadas para os ciclistas deverão ser contempladas em todo o Brasil.
Melquíades Júnior
Colaborador
Mais informações:
Problemas nas vias relativas ao tráfego de Limoeiro do Norte são de competência do Departamento Municipal de Trânsito
(88) 3423.1165
CÓDIGO EM VIGOR
Código de Trânsito prevê punições
Limoeiro do Norte. Está no artigo 255 do Código Brasileiro de Trânsito: conduzir bicicleta em passeios onde não seja permitida a circulação desta, ou de forma agressiva, em lugares proibidos por lei, é infração média, com multa (valor atualizado em R$ 85,13) e apreensão da bicicleta, mediante recibo para pagamento da multa. O esclarecimento é dado por Osmar Nogueira de Oliveira, diretor do Departamento Municipal de Trânsito (Demut) de Limoeiro do Norte, mas não tem sido uma cobrança constante do próprio órgão.
Capitão Osmar reconhece a dificuldade de aplicar a lei com os ciclistas, “que são muito mal acostumados, é cultural o modo de andarem de todo jeito”, afirma. O Demut tem apenas dois anos e, embora tenha aumentado o rigor na fiscalização de motos e carros (a fiscalização do trânsito está sendo municipalizada em todo o País), aos poucos tenta alertar a população ciclista de que também tem seus deveres. Uma placa indicando a proibição de tráfego de bicicletas foi posta na Praça José Osterne, mais movimentada do Município. Ainda assim, todos os dias centenas de ciclistas fazem vista grossa à legislação em vigor.
Nogueira esclarece que os pequenos motociclos comuns nas praças de Limoeiro do Norte são permitidos. A exceção são os patinetes, que têm os mesmos deveres das bicicletas e, portanto, não podem ser dirigidos nas praças.
No ano passado, o Demut registrou 24 atropelamentos de bicicletas em pedestres. O número deve ser bem maior, já que apenas os mais graves são de alguma forma registrados. Segundo o Demut existem cerca de nove mil bicicletas no município, média de um veículo a cada cinco habitantes.
Especialistas acreditam que a bicicleta, quando usada corretamente, é o melhor instrumento de “humanização” do trânsito e, além de não poluir o meio ambiente, seu uso colabora para uma vida mais saudável aos ciclistas.
De 2005 a 2007 foram registrados 108 acidentes envolvendo ciclistas e pedestres em Limoeiro do Norte. O número de ocorrências não registradas pode ser cinco vezes maior. Embora sem maiores conseqüências, muitos passaram por exames no hospital. Todas as noites, várias turmas de “bicicross” realizam manobras radicais em praça pública sem permissão das autoridades.
O acidente mais recente envolveu um garoto de 8 anos do município de Morada Nova. Ele passeava a pé com a mãe na Praça da Rodoviária de Limoeiro quando foi colhido por um adolescente que pedalava com alta velocidade. A criança pegou alguns pontos no braço.