Caminhos do Beato são refeitos

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
30 de Agosto de 2006 - 02:26
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Crato (Sucursal) — Sessenta anos depois da morte do Beato e decorridos 70 anos da destruição do Caldeirão, um grupo de caririenses, a maioria professores e estudiosos do fenômeno das romarias, resolveu refazer os caminhos percorridos por José Lourenço da Silva, o Beato Zé Lourenço, e seus seguidores, integrantes da Irmandade da Santa Cruz do Deserto. A cavalgada está marcada para os dias 16 e 17 de setembro. Os cavaleiros sairão da cidade de Exu (PE), em direção ao Sítio União, ainda em território pernambucano, onde o Beato Zé Lourenço viveu seus últimos dias de vida.

A iniciativa partiu do professor Francisco Cunha, inspirado nos Caminhos de Santiago, que se estendem por toda a Península Ibérica até a cidade de Santiago de Compostela, no extremo oeste do Reino da Espanha, aonde se acredita estar o túmulo do apóstolo. Os cavaleiros lembram também a tradicional cavalgada que é realizada todos os anos, no dia 25 de janeiro, ao cemitério da Baixa Rasa, onde, segundo a lenda, dois vaqueiros morreram de fome e sede.

Na caminhada nordestina, após uma pausa no Sítio União, os peregrinos atravessarão a Floresta Nacional do Araripe até atingirem o Município de Crato, em busca do Sítio Caldeirão. Ali, aconteceu a experiência comunitária do Beato Zé Lourenço até ser destruída por forças policiais em 9 de setembro de 1936. Durante o percurso os caminhantes farão ligeiras paradas em 35 pontos, todos já mapeados, que incluem capelas rurais como as dos distritos de Zé Gomes (em Pernambuco) e as de Cruzeiro, Monte Alverne e Santa Fé (no Município de Crato).

CARISMA — José Lourenço Gomes da Silva, o Beato, veio da Paraíba para Juazeiro do Norte, em 1890, em busca de sua família, que para lá se mudara, e que há muitos anos não via. Ali, exemplo de milhares de romeiros, sentiu-se atraído pelo carisma do Padre Cícero. Por sua liderança e caráter laborioso, José Lourenço destacou-se no meio à leva de romeiros e atraiu a simpatia e a proteção do Padim. Por indicação deste, arrendou uma faixa de terra no Sítio Baixa Dantas, no Crato e, em pouco tempo e com ajuda de seus primeiros seguidores, transformou o lugar, outrora estéril, em um pomar. Quando o sítio foi vendido, o novo proprietário o requereu de volta sem indenizar o Beato e seus seguidores.

Padre Cícero entregou-lhe um novo sítio, inóspito e seco, conhecido como Caldeirão dos Jesuítas, localizado no Crato. Ali, ele e seus seguidores desenvolveram a mais importante experiência coletivista, de natureza religiosa e popular, do século XX. Construíram um arraial, dotado de capela, engenho de rapadura, casa de farinha, reservatórios de água e oficina de fabricação de utensílios e instrumentos. Plantaram cana-de-açúcar, mandioca, feijão, milho, legumes e frutas. Criaram gado, aves e peixes. Dividiam a produção segundo as necessidades de cada um. Viviam ordeiramente, regidos pela fé e pelo trabalho. Isto despertou hostilidade dos fazendeiros que perdiam a mão-de-obra. Tramou-se, então, a destruição do Caldeirão, tido como “um antro de comunistas”.