As peculiaridades de cada região levam a outras fronteiras os sinais da civilização em forma de arte artesanal
Quixadá. Patrióticos, religiosos, esportivos, sociais, naturais. Os símbolos, de qualquer forma que sejam, podem representar a identidade peculiar de um continente inteiro, uma nação, seu povo, ou até mesmo a referência material de um pequeno e desconhecido lugar. Por meio da observação e preferência popular, esses signos são evocados como forte expressão de suas origens. Das mãos de gente simples, com habilidade para transformar o que vê em arte, esses registros se fortalecem como significantes e singulares identificações culturais. Atravessam caminhos e o tempo preservando e também popularizando seus traços regionais por meio do trabalho com artesanato.
Abençoado é o povo que tem a sensibilidade de encontrar na sua própria terra, na natureza a sua volta, o elemento essencial para a criação do seu documento popular. Quixadá é um desses lugares. O oásis monolítico existente no Sertão Central do Ceará — de encantar qualquer um por seu conjunto de enormes blocos rochosos, os “inselbergs” — foi caprichosamente esculpido pela ação do tempo e erupções vulcânicas ao ponto desses monumentos gigantescos ganharem forma. A Pedra da Galinha Choca é a mais famosa delas. Única no mundo, despojada diante do conjunto arquitetônico do Açude do Cedro, é vislumbrada por todo visitante que vai ao município.
Quem passa pela “Terra dos Monólitos” faz questão de levar na bagagem um pedacinho deste lugar como lembrança, concretizado em pequenas esculturas de pedra. Uma miniatura da majestosa obra petrificada a expressar exatamente a mais impressionante prova de existência destas bandas do sertão nordestino, uma gigantesca e exótica galinha de pedra. Desse imaginário facilmente materializado numa ave domesticada, os artesãos produzem porta-canetas, porta-chaves, chaveiros, cinzeiros, pequenos troféus ou imensos quadros. Em todos eles, a forma geográfica de causar estranheza e admiração está presente.
Preferência
O memorável suvenir, esculpido em pedra-sabão, é o preferido dos turistas. As peças, embora aparentem características de produção industrial, são únicas. Cada uma tem detalhes exclusivos, a começar pelo talento peculiar das mãos de quem as cria. A cada talho mais um toque de capricho e dedicação sem qualquer apelo comercial. A maior gratificação está na certeza de que a sua arte e a sua terra serão memoradas na vizinha cidade ou quem sabe do outro lado do mundo.
Lembrar do artista, provavelmente não, mas da paisagem encantadora e da hospitalidade de seu povo, disso os artesãos de Quixadá garantem que os “forasteiros” não esquecem. Os visitantes são recebidos no espaço comercial cedido pela Prefeitura à Associação dos Artesãos de Quixadá (Arteq). Dos 12 associados, quatro se dedicam exclusivamente à criação de peças a destacarem o ícone memorial da região.
O artista plástico Felipe dos Santos utiliza o pincel para retratar a encantadora paisagem de cartão postal. A mãe, Marlene dos Santos, se dedica à produção de pequenos adornos onde a Galinha Choca é a peça principal. Neube Marques explora as duas artes e Humberto Nunes aprimora suas esculturas. Algumas até recebem intrusos intergalácticos, os extra terrestres vez por outra vistos pelos céus sertanejos.
O grupo justifica a preferência dos clientes, pela retratação da curiosa forma rochosa e seu entorno, como uma contínua oportunidade para exportarem suas habilidades aos quatro cantos do mundo. Sentem orgulho quando ouvem dos estrangeiros as expressões “very good” e “beautiful”. São sinônimos de satisfação. Pelo menos é o que observam nos rostos das caravanas recebidas com mais freqüência nos períodos de alta estação. Sabem que além de agradarem, um pedacinho do Sertão está partindo para terras distantes.
Apontam que a fidelidade a suas raízes tem muito valor, principalmente quando o trabalho é reconhecido em notas de dólares ou de euros.
Valorização
Nos últimos anos, o Balcão do Sebrae em Quixadá tem trabalhado a valorização da identidade artesanal regional. A analista do escritório local, Fabiana Gizele da Costa, explica que o objetivo é aprimorar a arte manual e agregar valores. O artesão é quem identifica os ícones preferencialmente exalados como elementos característicos do lugar. A Galinha Choca, ETs e os esportes de aventura se destacam nesse nicho de mercado.
Entretanto, a técnica considera a necessidade dos artífices libertarem suas criatividades, ao ponto de encontrarem novas formas de exibir o conjunto de elementos representativos da região. Cego Aderaldo, Rachel de Queiroz e o Santuário de Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão são outras formas culturais populares do Sertão de Quixadá.
ALEX PIMENTEL
Colaborador
Mais informações:
Associação dos Artesãos de Quixadá, Av. Plácido Castelo, s/n
Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Quixadá
(88) 3414.4666/ 3414. 4667
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Ícones criam vínculos de identificação
Para levar as pessoas a compreenderem a importância de um ícone natural na construção de suas identidades, vou citar um caso acontecido comigo. Numa noite fui pego de surpresa com um pedido irrecusável de meu filho, então com dois anos de idade: “Conta uma história para mim, papai”.
Percebi que não tinha em casa nenhum livro infantil. Comprei alguns livros. Dentre os pesquisados um me chamou a atenção. Intitulava-se “O Mistério da Galinha Choca”. O autor, Almir Mota, aproveitava o ícone natural de Quixadá para produzir uma ficção, onde a cidade foi acordada por um cacarejo de uma enorme galinha surgida de um grande ovo de pedra. Os habitantes, preocupados, construíram o Açude do Cedro. Depois do livro, para meu filho, Quixadá significava a terra da Galinha Choca e do Açude do Cedro. Desde então, pediu insistentemente para visitá-los.
Quando realizei seu desejo, levou o livro e comparou o desenho com a pedra original. Uma identificação que o seguirá para o resto de sua vida. Ali percebi como ícones ajudam e muito na criação de vínculos afetivos e de identificação. Neste sentido é que está a importância da educação patrimonial. A necessidade de fomentar uma consciência de que todos os bens de natureza material e imaterial, toda produção de ordem emocional e intelectual proporcionam o conhecimento do homem sobre si mesmo e sobre o mundo que o rodeia. Aproximando gerações e estreitando a nossa sociabilidade.
ALTEMAR DA COSTA MUNIZ *
altemarmuniz@yahoo.com.br
*Doutor em História Social
Quixadá. Patrióticos, religiosos, esportivos, sociais, naturais. Os símbolos, de qualquer forma que sejam, podem representar a identidade peculiar de um continente inteiro, uma nação, seu povo, ou até mesmo a referência material de um pequeno e desconhecido lugar. Por meio da observação e preferência popular, esses signos são evocados como forte expressão de suas origens. Das mãos de gente simples, com habilidade para transformar o que vê em arte, esses registros se fortalecem como significantes e singulares identificações culturais. Atravessam caminhos e o tempo preservando e também popularizando seus traços regionais por meio do trabalho com artesanato.
Abençoado é o povo que tem a sensibilidade de encontrar na sua própria terra, na natureza a sua volta, o elemento essencial para a criação do seu documento popular. Quixadá é um desses lugares. O oásis monolítico existente no Sertão Central do Ceará — de encantar qualquer um por seu conjunto de enormes blocos rochosos, os “inselbergs” — foi caprichosamente esculpido pela ação do tempo e erupções vulcânicas ao ponto desses monumentos gigantescos ganharem forma. A Pedra da Galinha Choca é a mais famosa delas. Única no mundo, despojada diante do conjunto arquitetônico do Açude do Cedro, é vislumbrada por todo visitante que vai ao município.
Quem passa pela “Terra dos Monólitos” faz questão de levar na bagagem um pedacinho deste lugar como lembrança, concretizado em pequenas esculturas de pedra. Uma miniatura da majestosa obra petrificada a expressar exatamente a mais impressionante prova de existência destas bandas do sertão nordestino, uma gigantesca e exótica galinha de pedra. Desse imaginário facilmente materializado numa ave domesticada, os artesãos produzem porta-canetas, porta-chaves, chaveiros, cinzeiros, pequenos troféus ou imensos quadros. Em todos eles, a forma geográfica de causar estranheza e admiração está presente.
Preferência
O memorável suvenir, esculpido em pedra-sabão, é o preferido dos turistas. As peças, embora aparentem características de produção industrial, são únicas. Cada uma tem detalhes exclusivos, a começar pelo talento peculiar das mãos de quem as cria. A cada talho mais um toque de capricho e dedicação sem qualquer apelo comercial. A maior gratificação está na certeza de que a sua arte e a sua terra serão memoradas na vizinha cidade ou quem sabe do outro lado do mundo.
Lembrar do artista, provavelmente não, mas da paisagem encantadora e da hospitalidade de seu povo, disso os artesãos de Quixadá garantem que os “forasteiros” não esquecem. Os visitantes são recebidos no espaço comercial cedido pela Prefeitura à Associação dos Artesãos de Quixadá (Arteq). Dos 12 associados, quatro se dedicam exclusivamente à criação de peças a destacarem o ícone memorial da região.
O artista plástico Felipe dos Santos utiliza o pincel para retratar a encantadora paisagem de cartão postal. A mãe, Marlene dos Santos, se dedica à produção de pequenos adornos onde a Galinha Choca é a peça principal. Neube Marques explora as duas artes e Humberto Nunes aprimora suas esculturas. Algumas até recebem intrusos intergalácticos, os extra terrestres vez por outra vistos pelos céus sertanejos.
O grupo justifica a preferência dos clientes, pela retratação da curiosa forma rochosa e seu entorno, como uma contínua oportunidade para exportarem suas habilidades aos quatro cantos do mundo. Sentem orgulho quando ouvem dos estrangeiros as expressões “very good” e “beautiful”. São sinônimos de satisfação. Pelo menos é o que observam nos rostos das caravanas recebidas com mais freqüência nos períodos de alta estação. Sabem que além de agradarem, um pedacinho do Sertão está partindo para terras distantes.
Apontam que a fidelidade a suas raízes tem muito valor, principalmente quando o trabalho é reconhecido em notas de dólares ou de euros.
Valorização
Nos últimos anos, o Balcão do Sebrae em Quixadá tem trabalhado a valorização da identidade artesanal regional. A analista do escritório local, Fabiana Gizele da Costa, explica que o objetivo é aprimorar a arte manual e agregar valores. O artesão é quem identifica os ícones preferencialmente exalados como elementos característicos do lugar. A Galinha Choca, ETs e os esportes de aventura se destacam nesse nicho de mercado.
Entretanto, a técnica considera a necessidade dos artífices libertarem suas criatividades, ao ponto de encontrarem novas formas de exibir o conjunto de elementos representativos da região. Cego Aderaldo, Rachel de Queiroz e o Santuário de Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão são outras formas culturais populares do Sertão de Quixadá.
ALEX PIMENTEL
Colaborador
Mais informações:
Associação dos Artesãos de Quixadá, Av. Plácido Castelo, s/n
Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Quixadá
(88) 3414.4666/ 3414. 4667
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Ícones criam vínculos de identificação
Para levar as pessoas a compreenderem a importância de um ícone natural na construção de suas identidades, vou citar um caso acontecido comigo. Numa noite fui pego de surpresa com um pedido irrecusável de meu filho, então com dois anos de idade: “Conta uma história para mim, papai”.
Percebi que não tinha em casa nenhum livro infantil. Comprei alguns livros. Dentre os pesquisados um me chamou a atenção. Intitulava-se “O Mistério da Galinha Choca”. O autor, Almir Mota, aproveitava o ícone natural de Quixadá para produzir uma ficção, onde a cidade foi acordada por um cacarejo de uma enorme galinha surgida de um grande ovo de pedra. Os habitantes, preocupados, construíram o Açude do Cedro. Depois do livro, para meu filho, Quixadá significava a terra da Galinha Choca e do Açude do Cedro. Desde então, pediu insistentemente para visitá-los.
Quando realizei seu desejo, levou o livro e comparou o desenho com a pedra original. Uma identificação que o seguirá para o resto de sua vida. Ali percebi como ícones ajudam e muito na criação de vínculos afetivos e de identificação. Neste sentido é que está a importância da educação patrimonial. A necessidade de fomentar uma consciência de que todos os bens de natureza material e imaterial, toda produção de ordem emocional e intelectual proporcionam o conhecimento do homem sobre si mesmo e sobre o mundo que o rodeia. Aproximando gerações e estreitando a nossa sociabilidade.
ALTEMAR DA COSTA MUNIZ *
altemarmuniz@yahoo.com.br
*Doutor em História Social