A menina que virou romaria

Fé, feminilidade e identidade cearense no século XXI marcam a Menina Benigna.

Escrito por
P.A. Damasceno producaodiario@svm.com.br
Legenda: Espaço na igreja Matriz de Santana do Cariri onde estão os restos mortais de Benigna.
Foto: Fabiane de Paula.

Há algo de extraordinário na capacidade que o Ceará tem de transformar caminhos em santuários. No sertão e no Cariri, a fé não costuma ficar restrita às paredes das igrejas. Ela ganha as estradas, ocupa praças, mobiliza famílias, movimenta cidades e faz da caminhada uma experiência coletiva. 

No último sábado, 24 de outubro, se encerrou em Santana do Cariri uma das mais recentes dessas experiências. 

No século XXI – ao contrário do que dizem os fatalistas da modernidade, de que não há mais fé nem devoção e que a atual sociedade perde fortemente seus valores – a 4ª Festa da beata Benigna Cardoso da Silva mostra a força resiliente da tradição devota nos nossos sertões e cidades.

Uma menina de 13 anos, assassinada em 1941, tornou-se uma das figuras mais expressivas da religiosidade popular cearense. Cerca de 50 mil pessoas participaram da inauguração de um complexo religioso de aproximadamente 48 mil metros quadrados, com uma estátua de 26 metros de altura que amplia a dimensão pública dessa devoção. 

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São R$ 16,9 milhões investidos em uma estrutura que também pretende impulsionar o turismo e a economia local. A fé, como se vê, também produz paisagem, patrimônio e desenvolvimento.

A tragédia da mártir da virtude ou contra o feminicídio milenar. Mas a história de Menina Benigna merece ser contada para além dos números, dos monumentos e das estatísticas de peregrinos.

Benigna Cardoso da Silva foi assassinada em 24 de outubro de 1941, depois de resistir a uma tentativa de violência sexual. Durante décadas, sua memória foi associada à expressão “Heroína da Castidade”. 

A beatificação, celebrada em 2022, consolidou seu lugar na devoção católica e fez dela a primeira beata cearense. Entretanto, em pleno século XXI, talvez seja necessário ampliar as palavras com as quais contamos sua história.

Afinal, o que significa falar de feminilidade quando lembramos uma adolescente que teve a vida interrompida por não ceder à violência de um homem?

A expressão “Heroína da Castidade” pertence a uma tradição religiosa que valoriza a pureza e a virtude. Para muitos devotos, ela permanece carregada de significado. 

O problema começa quando a história de uma menina passa a ser interpretada apenas pelo comportamento sexual que se espera das mulheres. Benigna não deve ser lembrada somente porque resistiu. Deve ser lembrada também porque tinha o direito de resistir. Seu corpo não era propriedade de ninguém. Sua vontade não precisava de autorização masculina.

Essa mudança de perspectiva não exige que abandonemos a tradição religiosa. Exige que saibamos conversar com ela. A devoção pode preservar sua linguagem espiritual e, ao mesmo tempo, dialogar com temas urgentes, como o consentimento, a proteção de crianças e adolescentes, a autonomia feminina e o enfrentamento da violência de gênero. 

Não se trata de transformar uma romaria em palanque, mas de reconhecer que a memória também pode nos ajudar a compreender o presente.

Há, nesse sentido, uma pergunta incômoda: quantas meninas ainda precisam ter suas histórias interrompidas para que a sociedade compreenda que a violência nunca é uma questão de honra da vítima, mas uma responsabilidade de quem a pratica?

A força de Menina Benigna está também na possibilidade de deslocar essa discussão. Sua memória não precisa servir para vigiar o comportamento das mulheres, mas para reafirmar o direito de cada uma viver sem medo. 

A santidade que os fiéis reconhecem nela pode conviver com uma leitura contemporânea que valorize a dignidade, a liberdade e a integridade das meninas e das mulheres.

Os múltiplos caminhos dos romeiros

É justamente essa capacidade de atualização que faz das romarias fenômenos tão interessantes. Elas parecem antigas, mas não permanecem imóveis. Cada geração chega com suas próprias preocupações, seus pedidos, suas dores e suas esperanças. 

Há quem caminhe para agradecer por uma graça alcançada; quem peça saúde para a família; quem leve uma promessa; quem acompanhe os pais e avós. Na mesma estrada, encontram-se diferentes idades, condições sociais e experiências de vida. A romaria transforma a fé individual em experiência compartilhada.

E existe ainda o Ceará que trabalha enquanto reza. Os romeiros precisam comer, dormir, beber água, comprar lembranças e encontrar meios de transporte. Pequenos comerciantes, vendedores ambulantes, restaurantes, hospedagens e trabalhadores de serviços participam de uma economia que ganha fôlego durante as celebrações. 

Quando bem planejado, o turismo religioso pode gerar renda e oportunidades, desde que o desenvolvimento respeite a comunidade, o patrimônio e o sentido espiritual do encontro.

O Cariri conhece bem essa relação entre religiosidade e território. A devoção a Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, tornou-se referência nacional. Canindé, com São Francisco, também integra esse mapa afetivo. 

Em Santana do Cariri, a romaria de Benigna acrescenta uma personagem feminina a uma tradição que ajuda a explicar quem somos e como nos reconhecemos.

Talvez seja esse o aspecto mais importante: as romarias não são apenas eventos religiosos no calendário. São formas de construir pertencimento. Ajudam cidades a narrar a própria história, preservam práticas comunitárias e criam vínculos entre pessoas que, muitas vezes, só se encontram naquele caminho. 

A identidade cearense não se faz apenas de seca, humor, música, resistência e migração. Faz-se também de promessas, procissões, benditos, imagens carregadas nos ombros e estradas percorridas em nome da fé.

Em um século marcado pela velocidade, pelas redes sociais e pela transformação das relações humanas, milhares de pessoas continuam dispostas a caminhar juntas por uma menina que morreu há 85 anos. Isso não é pouca coisa. É sinal de que a modernidade não apagou a religiosidade popular; ao contrário, ela pode encontrar novas formas de expressão e novos significados.

Que a romaria de 2026 seja, portanto, mais do que uma demonstração da força da fé. Que seja também uma oportunidade para escutar as mulheres, proteger as meninas e repensar os sentidos da dignidade feminina. 

Que o monumento de 26 metros não seja maior do que a reflexão que sua história nos exige.

Porque uma menina pode se tornar símbolo de santidade. Mas uma sociedade verdadeiramente comprometida com sua memória precisa fazer algo além de erguer estátuas: precisa garantir que outras meninas tenham o direito de crescer, escolher seus caminhos e viver.

E talvez seja essa a promessa mais urgente que o Ceará possa fazer a Menina Benigna.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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