É pela fé e pelo desejo de pagar promessas que eles caminham. A jornada é longa e não esconde os desafios. Exige de todos uma força que às vezes vem cambaleando, quase sem dar conta, mas que se sustenta em nome de Padre Cícero.
“Chegar é ter a sensação de dever cumprido, porque a gente passa por muitas situações no caminho. É frio, sono, sede”, conta Osmario Severino da Silva, de 58 anos.
Ao todo, foram 16 dias de caminhada até chegar a Juazeiro do Norte, no Ceará, usando apenas meias e chinelo.
Severino estava acompanhado de outros três romeiros, todos idosos, que também carregavam o sonho de agradecer ao “Padim Ciço” e participar da Romaria pelos 92 anos de morte do sacerdote.
Maria de Lurdes, de 62 anos; Carmelita, de 68 anos, e o agricultor Chicão, de 65 anos, saíram de União dos Palmares, em Alagoas, e passaram por Correntes, em Pernambuco, para buscar Severino.
Juntos, os quatro fizeram a jornada de quase 550 km até Juazeiro do Norte, chegando ao destino na manhã desta sexta-feira (17).
Eles não estão sozinhos nesse ato de devoção. Neste ano, a romaria, que acontece entre os dias 17 e 20 de julho, deve receber cerca de 130 mil pessoas, conforme o Secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, Wilson Soares.
Promessas para Padre Cícero
Cada um tem seu motivo para embarcar nessa jornada. No caso de Severino, ele quis estar diante da estátua de Padre Cícero para agradecer pela saúde de um amigo, que esteve entre a vida e a morte.
“Um amigo meu tinha 1% de chance de sobreviver, foi ‘desenganado’ pelos médicos. Mas eu falei para a mãe dele que ele não ia morrer. Disse que Padre Cícero ia interceder por ele. Pedi de joelhos na capela e hoje ele está vivo, trabalhando, ajudando a família”.
Como tinha prometido viajar a pé, Severino atendeu ao chamado e partiu no começo do mês. Mas essa devoção independe da idade. Chicão, por exemplo, já fez a jornada de ônibus muitas vezes. Mas neste ano decidiu fazê-la andando, para percorrer o mesmo caminho trilhado pelo pai, anos antes.
A sua promessa foi mantida em segredo, como a de Carmelita, viúva e dona de casa, que tentou fazer o percurso a pé em 2024, aos 66 anos, mas não conseguiu concluir devido às dores da caminhada.
Agora, dois anos depois, realiza o sonho. Fez a travessia completa, cruzando o Nordeste e superando os próprios limites.
Laço criado na estrada
Os quatro se conheceram em um grupo de romeiros, mas Severino conta que foi apenas na estrada que o laço se firmou. “A gente cria um elo familiar muito forte, porque a gente se cuida”, disse.
“Não é só você vir, é você cuidar do outro. Porque o outro está sentindo dores piores. Você tem que ser resiliente, entender, deixar o outro desabafar as dores, de entender como é uma jornada dessa. Ser companheiro.”
Essa relação, inclusive, ajuda a fortalecer o grupo durante a peregrinação. Carmelita, de 68 anos, quase pensou em desistir, mas os outros romeiros deram todo o apoio para que ela chegasse ao destino.
“A gente não pode abandonar ninguém. É a norma do bom samaritano. Quando um tiver arriado, no chão, a gente tem que colocar nas costas e carregar”, acrescentou.
Em meio a tudo isso, ainda há a ajuda que recebem na estrada. Eles caminhavam sob um sol escaldante e dormiam em casas abandonadas, no chão, embaixo de pé de árvore e até em calçada.
Por isso, valorizavam toda água, comida e teto que recebiam. “Recebemos incontáveis ajudas na estrada. Chorei várias vezes. A emoção toma conta da gente e a gente chora feito criança”.
Mas, longe de ser uma peregrinação para pagar uma promessa, Severino explica: “É a fé que me move. Eu era um homem de um mundo mundano. Era um viciado, e desde então, Deus tem me livrado de muita coisa, e a fé tem aumentado em mim cada vez mais”.