A infância não espera a nossa agenda ficar vazia

Construímos memórias afetivas nos pequenos momentos do cotidiano.

Escrito por
Eliziane Correia producaodiario@svm.com.br
Legenda: Qual foi a última vez que você brincou com o seu filho, sem distrações?
Foto: Renjith Tomy Pkm/Pexels.

Entre uma rotina agitada e tantos compromissos que assumimos na tentativa de oferecer o melhor aos nossos filhos, quanto tempo de qualidade estamos, de fato, oferecendo a eles? Estou falando daquele momento em que você se desliga, ainda que por alguns minutos, das suas obrigações para entrar no mundo mágico das crianças.

Você entra no personagem. Faz a voz diferente. Senta no chão. Inventa histórias. Aceita as regras daquela brincadeira que, para você, não fazem o menor sentido, mas que, para uma criança, podem significar o mundo inteiro. É nesse espaço aparentemente simples que memórias afetivas são construídas. São experiências que ajudam a criança a se sentir vista, importante, amada e segura.

Mas nós também cansamos.Também temos trabalho, contas, casa, compromissos, preocupações. E, por vezes, falhamos. 

“Agora não posso”.

“Estou cansada.”

“Depois a gente brinca.”

“Hoje não.”

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Para nós, pode ser apenas um recorte de um fim de dia exaustivo. Para a criança, pode ser justamente o momento pelo qual ela esperou o dia inteiro. Antes de entrar nessa reflexão, encontrei, sem querer, uma gravação feita pela minha filha no celular.

Ela tem o costume de brincar que está falando com uma plateia fictícia, coisa de artista. Uma das formas que encontrou para expressar o que sente com a espontaneidade que só as crianças têm. Na gravação, ela fala um monte de coisas sem pé nem cabeça. Até que, em determinado momento, diz:

“Você chama o seu pai e sua mãe para brincar, mas eles ficam no celular…”

Essa frase me travou. Eu parei. Voltei. Ouvi de novo. E, imediatamente, comecei a procurar uma resposta:

Quando foi que ela se sentiu assim?

Que momento eu não percebi?

Em que situação ela me chamou para brincar e eu estava ocupada demais?

A culpa veio. Aquela sensação de ter falhado justamente com quem eu jamais gostaria de falhar.

Mas, depois, pensei que aquela frase pudesse me ensinar mais do que me condenar. Porque maternidade também é isso: descobrir que, mesmo tentando acertar, nem sempre conseguimos perceber tudo. Importante mesmo é estar atento o suficiente para perceber, ouvir e mudar quando necessário.

O que para mim é “só uma brincadeira”, para ela, pode ser uma oportunidade de conexão. É ali que ela me conta, sem necessariamente contar, o que está sentindo. É ali que ela experimenta a fantasia, cria histórias, reproduz comportamentos e constrói memórias.

Por isso, comecei a olhar para o brincar de outra maneira. Não como uma obrigação. Não como mais uma tarefa na lista interminável da maternidade. Mas como uma oportunidade de encontro. E isso também significa respeitar os nossos limites. Nem sempre vamos conseguir brincar. Nem sempre teremos energia para sentar no chão. Nem sempre estaremos disponíveis.

E tudo bem.

O importante é que o “agora não” não vire sempre. Que o celular não esteja sempre entre nós. Que a pressa não ocupe todos os espaços. Que nossos filhos também encontrem em nós um lugar para voltar. Quero estar mais atenta aos pequenos convites:

  • À boneca que precisa de uma mãe;
  • À história que precisa de uma voz;
  • À plateia imaginária;
  • Ao desenho que precisa ser admirado;
  • Ao “mamãe, vem brincar comigo”.

Porque a infância não espera a nossa agenda ficar vazia. O maior presente que podemos oferecer aos nossos filhos é uma infância em que eles se sintam importantes, com presença, memória, afeto, espaço para brincar. E, principalmente, com a certeza de que existe alguém disposto, sempre que possível, a entrar no mundo deles. 

Eu só preciso estar presente enquanto ainda sou parte da brincadeira.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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