Vida longa a todas as mães

Entre o medo de perder quem amamos e a urgência de viver o tempo que temos.

Escrito por
Eliziane Correia producaodiario@svm.com.br
Foto: Reprodução/Shutterstock.

Uma cena simples e verdadeira entre mãe e filho foi suficiente para tocar meu coração em muitas camadas. O momento, compartilhado nas redes sociais, mostra um menino de seis anos se dando conta de uma coisa que, para uma criança, parece grande demais para caber no pensamento: daqui a 50 anos, sua mãe provavelmente não estará mais aqui.

O pensamento o levou às lágrimas. O medo tomou conta daquele pequeno e, por alguns instantes, desestruturou também aquela mãe, que tentava explicar que os dois ainda teriam muito tempo juntos.

Eu fiquei pensando no ciclo natural da vida. E, principalmente, em nós, mães. Por que precisamos nos despedir? Essa é uma das perguntas mais dolorosas que o amor é capaz de fazer. É um pensamento egoísta, sim. Mas um egoísmo que nasce do desejo quase desesperado de manter nossa cria segura, protegida, perto. Como se amar muito fosse também uma tentativa de negociar com o tempo.

Por vezes, eu me pego pensando que só eu dou conta de proteger minha filha. Observo mais. Cuido mais. Antecipadamente imagino os perigos. Redobro a atenção. Penso em todas as coisas que podem acontecer e, silenciosamente, faço um pedido comum a tantas mães: eu só preciso estar aqui amanhã. A maternidade tem dessas coisas.

A gente passa boa parte da vida planejando o futuro dos filhos, enquanto, no fundo, o nosso maior plano é continuar presente para testemunhá-lo. Queremos vê-los crescer. Ir à escola. Fazer amigos. Errar. Acertar. Se apaixonar. Escolher seus caminhos. Queremos estar na plateia, mesmo quando eles já não precisarem mais procurar nosso rosto no meio da multidão. Queremos tempo. Muito tempo.

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O medo da perda aparece de vez em quando. Ele nos lembra que existe algo que não podemos controlar. Essa é uma das partes mais difíceis de ser mãe: entender que proteger não significa controlar tudo. O medo precisa existir como ponto de atenção, não como uma prisão. Ele pode nos ensinar a cuidar melhor, a estar mais presente, a valorizar o abraço demorado, a conversa antes de dormir, a mão pequena segurando a nossa. Mas não pode nos impedir de viver.

Quando a insegurança ocupa todos os espaços, corremos o risco de perder justamente aquilo que estamos tentando proteger: o presente.

O inesperado continuará acontecendo. A vida seguirá seu curso, apesar dos nossos planos, das nossas preocupações e das nossas tentativas de antecipar o amanhã. Não temos como prometer aos nossos filhos que estaremos aqui para sempre. Mas podemos oferecer algo ainda mais precioso: a certeza de que, enquanto estivermos aqui, eles terão sido profundamente amados.

Que a gente aproveite o cheiro depois do banho, o abraço apertado, a risada sem motivo, a mão dada no caminho para a escola, a história repetida pela décima vez. Porque a vida é breve. E, enquanto ela durar, que seja cheia de presença, afeto e amor.

Vida longa a todas as mães. E vida longa a todos os momentos que ainda temos para viver com quem amamos.