Excesso de mimos pode ser ruim

Entender as reais necessidades do cliente pode ser mais eficiente do que gastar muitos recursos com regalias

Escrito por Áquila Leite - Repórter producaodiario@svm.com.br
25 de Outubro de 2015 - 01:00
capa da noticia
Legenda: A professora Cláudia Buhamra é enfática ao dizer que colocar o cliente como protagonista não é uma das saídas para a crise, mas a única
Foto: Foto: Thiago Gadelha

Ao tentar agradar seu cliente, o varejista muitas vezes aposta em algumas regalias e serviços diferentes para tentar "fisgá-lo", ainda mais em tempos de instabilidade econômica e redução do poder de compra, como o vivido atualmente pelo Brasil. Entretanto, tal medida pode ter um custo adicional que não necessariamente será valorizado pelo consumidor. Dessa forma, para evitar gastos desnecessários e ainda assim potencializar suas vendas, o lojista precisa ouvir seu cliente e buscar entendê-lo, tentando sempre responder a pergunta: o que é valor para ele?

> Valorização do cliente garante show no varejo

> Mais cientes de seus direitos, consumidores já não se calam

> Novo perfil também exige mudanças nas empresas

> Papel de regulador está fortalecido

> O prazer de ver a loja chegar ao lar

> Salões apostam em comida gratuita para fisgar clientela

> Entrevista com Severino Ramalho Neto

> Inovação e criatividade para fidelizar

> Cliente feliz é o melhor marketing

> Empresas têm que transpor os limites da venda para encantar

> Rede de ideias supera desafios a partir de soluções criativas

> Natura quer ampliar os canais de atendimento

> Depoimentos geram credibilidade

> Companhias aéreas focam na experiência da viagem

O alerta é da consultora e professora de marketing da Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade (Feaac) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cláudia Buhamra. Segundo ela, colocar o cliente como protagonista não é enchê-lo de mimos, mas ouvi-lo.

"Tem gente que investe em uma loja muito sofisticada e cheia de detalhes, quando tudo que sua clientela quer é gente simpática no balcão. Daí a importância do varejista se comunicar com o consumidor. Quando ele faz isso, pode imaginar o melhor desenho da loja, qualificar o mix de produtos, os preços, além da melhor forma de atender bem", explica a professora.

De acordo com Cláudia, um grande exemplo de exagero na hora de atender os clientes foram as companhias aéreas, que antigamente tinham um serviço de bordo muito sofisticado, com pratos impecáveis e talheres de aço inox, por exemplo, mas que hoje entenderam que "menos pode ser mais".

"A partir do momento em que essas empresas decidiram ouvir os consumidores e eles disseram 'se você me der segurança, pontualidade, conforto e preços mais acessíveis, pode me servir um copo de água com biscoitos que tá legal', achou-se o verdadeiro valor daquele tipo de negócio", pontua.

O que é valor?

Entender o significado de valor, portanto, é ponto fundamental para qualquer negócio, ainda mais porque o que é valor hoje pode não ser amanhã, diz a professora. Para ela, oferecer mais do que os clientes estão dispostos a pagar ainda é um erro comum no varejo, mas que pode ser corrigido com o bom entendimento do consumidor. "As melhores empresas são aquelas que têm a capacidade de reinventar sua interação com o cliente, superando a si mesmo antes que os concorrentes o façam", avisa.

Também é importante fazer o consumidor perceber valor naquilo que é oferecido. Cláudia exemplifica destacando o mercado de sushi em Fortaleza, que há 20 anos não tinha o menor conceito na Capital cearense, mas que hoje já está disseminado em praticamente toda a cidade e até no interior do Estado. "Tem que se antecipar ao cliente, fazendo ele ver valor naquela diferenciação", comenta. Tal aculturação dos mercados ajuda a abrir o leque para os varejistas locais.

A saída para a crise

Neste mês, a pesquisa Pulso Brasil, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), destacou que uma grande parcela dos brasileiros estão deixando de comprar por conta da falta de dinheiro. O levantamento também revelou que 43% dos entrevistados classificaram suas condições financeiras como piores ou muito piores.

Questionada se o fato de colocar o cliente como centro das atenções poderia ser uma das soluções para driblar os efeitos deste atual momento, Cláudia Buhamra é enfática: "não é uma das saídas para a crise. É a única". Segundo ela, isso é falado há décadas, mas somente em momentos de instabilidade é que o assunto ganha maior valor.

"A gestão de relacionamento com o mercado é a única saída para qualquer situação difícil. É uma máxima do marketing, mas, às vezes, é necessário um fato macroambiental para fazer com que a empresa busque isso".