Três meses após denúncia, açude Jangurussu ainda será avaliado após drenagem da área; veja prazo

Moradores da área temem risco de rompimento desde início da quadra chuvosa.

Escrito por Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
03 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Parede do açude Jangurussu deve ser inspecionada após escoamento de água acumulada nas margens.
Foto: Ismael Soares.

A análise definitiva sobre as condições estruturais da parede do Açude Jangurussu, em Fortaleza, que possui mais de 100 anos, depende da conclusão de uma obra de drenagem emergencial na região, ainda não iniciada. Moradores da área temem risco de rompimento do reservatório desde março, quando denunciaram as condições às autoridades.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Fortaleza, tenente-coronel Haroldo Gondim, uma inspeção mais detalhada por parte do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), empreendedor original da barragem, só será possível quando o volume represado de água for reduzido.

A obra de drenagem, de responsabilidade da Construtora Tenda, foi autorizada para solucionar o bloqueio do escoamento hídrico causado pela construção de um condomínio no entorno do açude. Em entrevista ao Diário do Nordeste, Gondim explicou que o projeto já recebeu aprovação da Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf) e do próprio Dnocs.

Segundo o coordenador, o prazo inicial para a execução era de 60 dias, dos quais cerca de 20 já se passaram. “Acredito que, daqui a uns 40 dias, esse projeto deve estar pronto”, afirma. Seguindo esse prazo, a intervenção deve terminar entre o fim de julho e o início de agosto. A liberação do fluxo é importante para que o Dnocs realize uma "inspeção mais elaborada" sobre a segurança da barragem.

Enquanto a drenagem não é concluída, órgãos municipais executam ações de manutenção para reduzir riscos imediatos. A Defesa Civil e a Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza (UrbFor) já realizaram a limpeza do espelho d'água e a capina de todo o entorno da parede do açude.

Intervenções como a poda e supressão de vegetação na estrutura também estão no cronograma, mas aguardam orientações técnicas específicas. "Nós achamos melhor aguardar as orientações também do Dnocs", explica o coordenador.

Há risco de rompimento?

Apesar do temor de moradores sobre uma suposta pressão na parede e infiltrações, a avaliação atual da Prefeitura indica um cenário monitorado. Gondim afirma que o Dnocs classificou a situação do açude ainda dentro de um patamar de segurança. 

"Para saber mesmo a situação, saber se tem água percolando (passando através das camadas do solo), se tem alguma situação mais crítica, só quando a gente realmente tiver aquela água esvaziada", pondera Haroldo.

O fim do período chuvoso na região também contribui para a redução do alerta imediato. Sobre o impacto na vizinhança, a Defesa Civil informou que poucas casas foram atingidas, com água chegando apenas aos quintais, e que a drenagem deve resolver os problemas que afetam ruas próximas, como a Recanto Verde e a Paraisópolis.

Em nota enviada à reportagem em maio, a construtora Tenda confirmou que as intervenções previstas para a região seriam alinhadas com os órgãos públicos envolvidos e com as autorizações necessárias.

A empresa informou que “realizou estudos técnicos da área desde o início do empreendimento, em linhas com os padrões de boas práticas da empresa”. 

Após os problemas identificados em março, foi elaborado um projeto complementar de drenagem para melhorar o escoamento hídrico local e para a redução do acúmulo de água na região.

Relatório da Defesa Civil alerta para possíveis impactos em residências do entorno do açude.
Legenda: Relatório da Defesa Civil alerta para possíveis impactos em residências do entorno do açude.
Foto: Ismael Soares.

Relatório aponta possível inundação

Após vistoria técnica realizada pela equipe da Central de Monitoramento (Cemon) ao local, a DCFor “constatou uma expressiva supressão de cobertura vegetal seguida de intervenção em larga escala por aterramento no perímetro do referido empreendimento”, segundo relatório obtido pelo Diário do Nordeste.

Na visita, foram colhidos relatos de moradores que apontaram prejuízos decorrentes da obstrução do curso natural de escoamento das águas pluviais. Para os técnicos do órgão, a elevação do nível do terreno pelo aterro do residencial criou uma barreira física que compromete a drenagem local, gerando represamento em áreas da vizinhança.

Ficou evidenciado que as unidades habitacionais situadas no entorno imediato do empreendimento apresentam elevada vulnerabilidade e estão suscetíveis a processos de alagamento e inundação. A alteração da topografia original, sem o devido sistema de drenagem compensatória, potencializa o risco de desastres hidrológicos em eventos de precipitação intensa.
DCFor
Em relatório situacional sobre o Açude Jangurussu.

Após a drenagem, a entidade recomenda avaliar se o volume de aterramento observado respeita o distanciamento legal (faixa marginal cujo objetivo é conservar o entorno) em relação ao açude.

Açude dentro de Fortaleza

O Açude Jangurussu foi construído pelo Dnocs em 1922, com capacidade para quase 250 milhões de litros, numa área rural próxima a Messejana. O período coincidiu com a fase em que o órgão federal intensificava a construção de barragens estratégicas no Ceará para combater os efeitos das secas. 

Porém, registros históricos mostram que, desde a década de 1980, moradores enfrentam episódios de insegurança estrutural e inundações causadas por chuvas intensas que forçaram continuamente a parede do açude.

Hoje, além do possível risco de colapso, a água do açude é totalmente imprópria para o consumo humano. Se em décadas anteriores o reservatório servia para banho, pesca e lavagem de roupas, agora a poluição provocada por ligações clandestinas de esgoto transformou o recurso em risco à saúde pública.

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