No próximo domingo (8), milhões de brasileiros irão realizar a prova de Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026. Em no máximo 30 linhas, os candidatos deverão elaborar um texto dissertativo-argumentativo que reflita sobre uma problemática de ordem social, política, científica ou cultural.
Acertar o tema com precisão é improvável, mas, ao analisar os títulos antigos, os estudantes podem encontrar tendências e compreender o perfil da prova.
Com foco na reflexão crítica dos alunos, os últimos 10 temas aplicados abordam problemas persistentes na sociedade brasileira e direitos que não são efetivamente exercidos ou valorizados. É o que explica Nelândia Teodoro, professora de Redação do pré-vestibular nos Colégios Master e Antares.
“As propostas de redação do Enem têm algumas tendências, por exemplo, a preocupação com grupos socialmente invisibilizados, a diferença que existe para os cidadãos entre ter um direito e efetivamente conseguir exercê-lo e a valorização que a sociedade costuma desconsiderar, além da preferência por problemas estruturais. Ou seja, são temas que não se limitam a comportamentos individuais”, afirma.
A professora orienta que os alunos não foquem em acertar o tema e ter uma estrutura pronta. “Se ele foca nisso, pode se desestruturar quando cai algo que não tem nada a ver com a expectativa dele, e a possibilidade é grande”, reforça.
“Os temas do Enem mudam, mas tem uma característica que é constante: o aluno compreender porque direitos reconhecidos ou contribuições socialmente importantes ainda não se traduzem em igualdade no país, nem na valorização para todos os brasileiros”, diz.
Mais inteligência leitora, menos modelos prontos
Nelândia explica que houve uma mudança nas edições mais recentes em que se exige dos candidatos uma “maior inteligência leitora”. Modelos prontos e engessados que os alunos listaram causas, consequências ou desafios já não são suficientes para garantir uma nota alta.
“Há uma tendência para escolha de recortes específicos, porém é preciso observar que nos últimos anos, no tema da herança africana e no tema do envelhecimento populacional, tem uma exigência maior de inteligência leitora do aluno. Não é mais aquela coisa de colocar dois efeitos, de colocar dois desafios somente, mas de o aluno ter uma percepção maior”, detalha.
Diante desse panorama, Nelândia conta que o trabalho com os alunos se direciona em “saber escrever uma boa redação, ter inteligência leitora para compreender a expectativa da banca e não se preocupar com temas”. “Eles precisam estar preparados para interpretar problemas e não apenas para reconhecer assuntos previamente estudados”, acrescenta.
“O aluno deve estar preocupado com a inteligência leitora, a inteligência interpretativa, em ser capaz de formular uma tese ali que vá ao encontro da expectativa da banca, em ser capaz de mostrar causas e consequências, de utilizar repertórios que contribuam efetivamente para a argumentação dele”
Sem a habilidade de interpretar o texto motivador, o estudante pode não atender a expectativa da banca em relação à proposta e ter problemas nas competências 2 e 3, que versam sobre a compreensão da proposta e aplicação de conceitos, e a coerência e a estrutura lógica da argumentação do participante em defesa do ponto de vista escolhido.
Os temas mais recentes utilizam com frequência o recorte de ‘Desafios para…’, o que exige do candidato a mostrar por que aquele assunto é difícil de resolver e compreender que há um obstáculo social.
“Não vejo dificuldades para isso no aluno, porque aí é só citar dois desafios mesmo. Vejo mais dificuldade quando acontece uma proposta como a do ano passado em que as perspectivas para o envelhecimento populacional eram no sentido da desigualdade”, diz.
Confira os últimos 10 temas de redação do Enem
- 2025: Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira;
- 2024: Desafios para a valorização da herança africana no Brasil;
- 2023: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil;
- 2022: Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil;
- 2021: Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil;
- 2020: O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira;
- 2019: Democratização do acesso ao cinema no Brasil;
- 2018: Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet
- 2017: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil;
- 2016: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil.
‘Cairá um tema ligado às questões da desigualdade’
Nelândia reforça que o Enem tem como característica marcante evitar assuntos que estão em evidência no debate público. “É muito difícil, no Enem, acertar esse tema porque ele tem essa característica de não abordar temas que estão ‘bombando’. São sempre temas que fazem parte de um problema permanente na sociedade, é um problema estrutural que não está muito visibilizado”, salienta.
“O objetivo dos temas do Enem é exatamente colocar luz sobre aquela discussão, fazer a sociedade discutir aquela temática. Não só o aluno, mas a sociedade como um todo, porque, a partir da visibilidade que esse tema ganha, essa abordagem passa a ser quase geral ali”.
Em 2017, o Enem trouxe o tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil” e incentivou na sociedade a busca pela educação em libras. “Não só no aluno que estava lá fazendo o exame, mas em muitas pessoas que integram a sociedade civil. Elas passaram a querer aprender libras pela visibilização que o tema ganhou”, salienta.
Assim, a professora considera que existem temáticas fortes como:
- Valorização dos trabalhadores essenciais;
- Exclusão de grupos vulneráveis;
- Alfabetização, permanência escolar, equidade educacional;
- Formação educacional de jovens em condição de vulnerabilidade;
- Alimentação saudável;
- Recuperação de áreas degradadas.
Ela reforça ainda que “há muito tempo não cai uma temática que envolve o meio ambiente”. Os anos em que o Enem abordou a temática oficialmente na redação foram em 2001, com o tema "Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar interesses em conflito?", e em 2008, com "Preservação da floresta Amazônica".
“Caiu sobre preservação ambiental há décadas e nunca mais se trouxe um tema voltado à questão ambiental, embora a questão ambiental seja uma problemática permanente no país”, destaca.
Outro ponto abordado pela professora é a inteligência artificial e a exclusão digital. “Os alunos levam muito essa questão da exclusão digital para o “não saber usar” ou “não estar preparado” para esse mundo digital. No entanto, existe a exclusão socioeconômica. É muito difícil, principalmente para os mais vulneráveis, acompanhar esse avanço tecnológico”.