O Parque Nacional de Jericoacoara (Parna de Jericoacoara) protege e conserva a fauna e a flora local, mas também abriga espécies exóticas, como uma grande população de jumentos. O grupo desperta preocupação das autoridades por se originar fora do ambiente natural e se reproduzir sem controle, além de ser um possível vetor de doenças.
Na estimativa mais recente, um grupo de pesquisa do Centro Universitário Inta (UNINTA) aponta que ao menos 600 animais do tipo vivem livremente na unidade de conservação.
Ao Diário do Nordeste, o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde no Semiárido (PPGCSS) da instituição, Bruno Marques Teixeira, explica que o grupo é fruto do abandono de antigos proprietários ao longo dos anos.
"Eles são animais domésticos que foram abandonados, então são considerados errantes. Ninguém tem a responsabilidade de fazer uma posse responsável como teria que ser. Por ser doméstico, todo animal deveria ter vacina, vermifugação… são vários cuidados que eles não estão tendo."
Para investigar se esses jumentos causam ou não impactos na biodiversidade do parque, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra o equipamento, firmou um acordo de cooperação com o UNINTA no mês passado. A parceria de cinco anos é dividida em duas frentes de ação: o monitoramento e o manejo dessa população de equídeos.
Segundo a Coordenação de Manejo de Espécies Exóticas Invasoras (CMEEI) da autarquia federal, a iniciativa visa ao desenvolvimento de ações voltadas à prevenção da disseminação de espécie exótica no espaço, adotando medidas que permitem acompanhar e controlar esses animais “de forma responsável e baseada em evidências científicas”.
Em nota enviada à reportagem, a entidade cita, por exemplo, ferramentas como a castração de machos para evitar superpopulação.
Na prática, o projeto realizará um estudo sobre os efeitos dos asininos na fauna e na flora nativa local, além de analisar a saúde desses animais e quais riscos eles podem representar para humanos e outras espécies que vivem na unidade de conservação, conforme esclarece Teixeira, que integra a parceria.
A primeira pergunta precisa ser feita é: 'Eles provocam impacto?'[...] A gente vai desenvolver alguns trabalhos para tentar mostrar se eles provocam ou não. Quando [se] fala de doenças, essa é uma das formas de atuação deles, [...] mas a gente pode pensar o seguinte: Eles afetam as formigas? Afetam os besouros? Outros insetos? Então, a gente pretende estudar também o ambiente onde eles vivem para verificar se está tendo impacto ou não."
Os jumentos do Parque já eram analisados pelos integrantes do PPGCSS do UNINTA há cerca de três anos. Agora, com o acordo de cooperação, o docente aponta que o que muda é que os trabalhos passam a ser executados pelas duas instituições.
“As atividades hoje são juntas, então, por exemplo, quando a gente fala na contagem do jumento; vou com uma equipe UNINTA sabendo que vai ter uma do ICMBio. Não são mais atividades separadas."
Como vai funcionar a pesquisa por doenças nos jumentos
Visando verificar, entre outros pontos, se o estado de saúde dos jumentos pode afetar o bem-estar de outras espécies da unidade de conservação, o grupo de trabalho os inspeciona de forma contínua. Para isso, realiza a vacinação e a coleta de sangue e de tecidos para análises laboratoriais desses equinos antes de devolvê-los ao parque.
A estratégia de manejo busca tanto identificar possíveis indivíduos doentes, quanto verificar a existências de condições que podem representar riscos a outras espécies, inclusive a humana.
Teixeira destaca que um fator que eleva o risco desses animais contraírem alguma enfermidade é a proximidade do Parna com a Vila de Jericoacoara, zona onde vivem outras espécies domésticas e urbanas 一 como ratos, cachorros, gatos e seus respectivos carrapatos 一, que são potenciais transmissores de patologias.
"Eles entram dentro da vila para mexer nos lixos e têm contato com um cachorro; têm atrito com o cachorro; eles vão ter contato com ratos”, ilustra.
Diante desse contexto, e da possível interação entre os jumentos e animais silvestres da reserva, o professor lista alguns exemplos de condições que são pesquisadas pela parceria neles: raiva, leishmaniose, influenza, doenças do carrapato e Febre do Nilo Ocidental.
Ao monitorar regularmente a condição sanitária dos jumentos, o ICMBio promove o bem-estar desses animais e reduz a probabilidade de ocorrência e de disseminação de enfermidades. [...] Dessa forma, o manejo deles representa uma medida preventiva e necessária, que alia ciência, conservação da biodiversidade, saúde pública e bem-estar animal.”
Nesse processo, caso seja identificado indivíduos doentes entre a manada, o professor explica que o projeto segue as recomendações da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri) e realiza o tratamento desses equídeos. “Quando for preciso, se for, a gente, inclusive, oferece hospital [em Sobral] para trazê-los, mas o objetivo, normalmente, é mantê-los dentro do Parque.”
ICMBio cogita castração de machos para controlar população
Desde a última edição do Plano de Manejo do Parque Nacional de Jericoacoara, editado em julho de 2021, a presença de animais domésticos ou asselvajados na reserva era classificada pelo ICMBio como uma “força restritiva”, e o documento previa a remoção desses indivíduos.
No entanto, a estratégia atual visa manter esses asininos na unidade, mas considera a possibilidade do uso da castração de machos para evitar que a espécie exótica continue se expandindo.
Considerando que esses animais podem viver até 40 anos, permitir sua reprodução contínua poderia agravar, ao longo do tempo, problemas relacionados à superpopulação, à saúde animal e aos impactos sobre os ecossistemas naturais.”
A possibilidade é criticada pela docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Débora Façanha.
"Via de regra, não tem como você chegar e dizer: vamos juntar um grupo de algumas pessoas e fazer castrações nos machos em uma população que está em risco de extinção. Isso é, no mínimo, muito arriscado”, aponta a especialista em Conservação de Recursos Genéticos, com ênfase em jumento nordestino.
Segundo a autarquia, os benefícios da estratégia de manejo vão além do controle populacional, e ajudaria a minimizar conflitos dos jumentos com as atividades humanas, como os atropelamentos registrados nas vias que cortam o interior do parque, “protegendo tanto a fauna quanto os visitantes e moradores da região”.
“Ao controlar de forma gradual e humanitária a população desses animais, o ICMBio busca garantir a integridade dos ecossistemas do Parque Nacional de Jericoacoara e reduzir riscos que podem se intensificar caso não haja intervenção adequada”, destaca.
Os jumentos têm o direito de existir, de permanecer no local onde eles estão. Então, acho que está faltando uma aproximação, um diálogo, estabelecer um grupo grande, um grupo diverso, que possa, cada um dentro do seu escopo, construir uma solução ética, justa, que não comprometa a biodiversidade, mas que também garanta aos jumentos o direito deles viverem, de coexistirem com várias espécies.”
Diante da possibilidade, Teixeira afirma que a PPGCSS já treinou equipes para realizar a castração em campo, mas ressalta que a decisão de esterilizar os machos deve partir da análise de dados concretos.
"A gente ainda nem sabe se eles provocam os impactos [no parque], então, acho que tem que ter cautela nisso. A gente vai fazer a castração se for preciso. [...] É claro que se estiver aumentando a população drasticamente, a gente vai observar, mas não vai deixar ela acabar com o ambiente", analisa.