Símbolo do semiárido cearense, o jumento nordestino pertence à espécie Equus asinus e se destaca pela adaptação ao ambiente de seca. Suas características o fizeram sinônimo de resistência e adaptação na cultura popular, sendo utilizado, principalmente, no transporte de cargas, no trabalho rural e na formação das comunidades nordestinas.
Apesar da relevância social, cultural e ambiental, a realidade enfrentada pelo animal é dura: com a mecanização da agricultura, perdeu espaço nos papeis antes desempenhados e viu a desvalorização chegar em forma de abandono.
Segundo especialistas, há relatos de jumentos Nordestinos sendo comercializados por apenas R$ 1.
A espécie enfrenta, ainda, a pressão da indústria do ejiao, produto tradicional da medicina chinesa que utiliza a pele do animal e impulsiona o abate do bicho, contribuindo para a redução das populações.
A seguir, abordamos o que é o jumento Nordestino, seu papel na economia cearense, sua origem, suas características que o diferenciam de outros jumentos e por que preservar esse animal é importante para o Brasil e o Ceará.
O que é o jumento Nordestino?
O jumento Nordestino pertence à classe dos mamíferos, família Equidae, gênero Equus e espécie Equus asinus, caracterizado pelo pequeno porte e pela adaptação ao semiárido.
Conforme explica a coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary, Patrícia Tatemoto, o animal é um dos grupos genéticos ou ecótipos de jumentos naturalizados brasileiros.
Isso significa que estudos genéticos identificaram características no DNA dos jumentos nordestinos que não foram encontradas em outros grupos de jumentos brasileiros analisados.
Apesar disso, a professora da pós-graduação em Ciência Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Débora Façanha, destaca que o jumento Nordestino ainda não é reconhecido formalmente como raça.
Qual a origem dos jumentos?
Segundo Débora, o jumento tem origem africana e foi domesticado na região da Núbia, no Egito, entre três e sete mil anos atrás.
No Brasil, de acordo com Patrícia, chegaram durante o período colonial e, ao longo de séculos, populações submetidas às condições ambientais locais passaram por processos de adaptação.
Qual a diferença entre jumento, jegue e asno?
Jumento, jegue e asno são nomes diferentes para o mesmo animal. De acordo com Débora, a variação ocorre de acordo com a região ou com o idioma.
"O jumento é chamado de jegue no Nordeste do Brasil. Asno pode ser chamado em outros idiomas, pode ser chamado no Brasil também por causa do nome da espécie, que é Equus asinus”, indica.
Já a diferença entre o jumento e o cavalo está na espécie. Embora os dois pertençam à família dos equídeos, a espécie do cavalo é a Equus cavalos, resultando em diferenças anatômicas, morfológicas e de porte.
"Os cavalos têm um porte maior geralmente, têm uma orelha menor, mais ereta do que os jumentos, têm números de cromossomos diferentes do número de cromossomos da espécie asinina. Os cavalos têm 64 cromossomos e os jumentos têm 62", descreve a professora.
Quais raças de jumentos existem no Brasil?
Débora destaca três tipos de grupos de jumentos brasileiros: jumento Nordestino, jumento Pêga e jumento Brasileiro. Segundo ela, um dos fatores que diferencia esses animais é o porte.
Enquanto o Pêga e o Brasileiro apresentam maior porte e são comumente utilizados na produção de muares, como burros e mulas (cruzamento entre jumentos e cavalos), o Nordestino, de menor porte, está historicamente associado ao trabalho no campo e ao transporte de cargas, especialmente em regiões de clima semiárido.
“Os animais maiores geralmente são menos eficientes em se adaptar a regiões com maiores desafios ambientais. O jumento Nordestino é menor, o que possibilitou que ele se adaptasse à nossa região”, indica a especialista.
Outra diferença é o registro genealógico do jumento Pêga, que confere o famoso "pedigree" ao animal e, consequentemente, um valor econômico elevado, destaca Débora.
Segundo o livro Biodiversidade dos Equídeos Iberoamericanos, da rede científica internacional Conservação da Biodiversidade dos Animais Domésticos Locais (Conbiand), o preço de um jumento da raça Pêga registrado varia de R$ 15.000 a mais de R$ 100.000, dependendo da genética, linhagem e idade.
Já os jumentos Brasileiro e Nordestino ainda são considerados ecótipos, ou seja, embora apresentem características genéticas e biológicas que permitem a identificação como grupos distintos, não possuem o reconhecimento formal em um livro de registro genealógico, que estabelece oficialmente os padrões de raça.
“Por ter sido uma raça que ainda não passou por uma seleção para padronização racial, o jumento Nordestino tem uma maior variabilidade genética intra-racial”, destaca a professora.
Entenda a situação atual do jumento Nordestino
Atualmente, o jumento Nordestino está inserido em um contexto de possível extinção de toda a espécie no País.
Segundo a organização The Donkey Sanctuary, entre 1999 e 2025, o número de jumentos caiu de 1,37 milhão para 78 mil no Brasil, uma baixa de 94%.
No Ceará, a redução também é significativa. O Estado é o segundo no ranking brasileiro de maiores populações de asininos em 2017, atrás somente da Bahia. Os dados são do Censo Agropecuário mais recente, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo os números, entre 1995 e 2017, a quantidade de cabeças de asininos saiu de 193.176 para 53.233 no Ceará. O percentual de queda ultrapassa 72%.
Esse cenário foi favorecido pela perda de grande parte da função econômica tradicional do jumento Nordestino nas últimas décadas. Historicamente usado no transporte de água, carga e deslocamento rural, muitos animais foram abandonados devido à chegada de motos, tratores e veículos motorizados.
“Com isso o seu valor econômico foi ainda mais para baixo, porque ele deixou de ser um animal útil para ser um problema, e foi deixado de lado”, aponta Débora.
Segundo ela, não existem cadeias produtivas envolvendo o animal atualmente no Brasil, e até números oficiais sobre a população dos jumentos nordestinos no País podem estar defasados, devido à dificuldade de contabilizar os animais abandonados.
O descaso reflete no valor monetário associado ao bicho. De acordo com Patrícia, existem relatos de jumentos nordestinos sendo adquiridos até por R$ 1.
A crise do ejiao
Sem políticas de preservação da espécie, o jumento Nordestino é um dos alvos da indústria do ejiao, produto tradicional da medicina chinesa obtido a partir do colágeno da pele do bicho.
Segundo relatório da The Donkey Sanctuary, de 2024, a demanda mundial por pele de jumentos cresceu 160% de 2016 a 2021. Além disso, a organização estima que pelo menos 5,9 milhões de jumentos são abatidos globalmente todos os anos para abastecer o mercado chinês.
A previsão é que, em 2027, serão abatidos 6,8 milhões de animais em todo o mundo.
“Mantido o ritmo atual de abate, existe risco real de desaparecimento populacional do jumento brasileiro nos próximos anos, sendo que, em 2030, se o abate não parar, não haverá mais animais”, alerta Patrícia.
Além da alta demanda, a especialista ressalta que os jumentos possuem características reprodutivas que tornam sua reposição muito mais lenta do que a velocidade exigida pelo mercado de peles.
De acordo com relatório da organização The Donkey Sanctuary, um estudo publicado pela Universidade de Reading sugere que um rebanho criado com 200.000 fêmeas de jumentos em condições altamente favoráveis levaria 15 anos ou mais para fornecer 1,2 milhão de peles, número muito abaixo da demanda anual de 5,9 milhões da indústria do ejiao.
Patrícia Tatemoto também salienta que a gestação da fêmea do animal dura cerca de 12 a 13 meses e normalmente nasce apenas um filhote por vez. Já a maturidade reprodutiva e o desenvolvimento físico completo levam entre três a cinco anos para ocorrer.
"O sistema brasileiro de fornecimento de animais para o abate tem sido caracterizado como extrativista e não como uma cadeia pecuária baseada na criação e reposição planejada dos animais. Explora-se um recurso compartilhado sem assegurar sua reposição até que a própria atividade comprometa a existência do recurso do qual depende", alerta.
Jumento ainda pode ter espaço na economia nordestina
Apesar do baixo valor econômico, o jumento Nordestino ainda pode exercer papéis econômicos e sociais significativos.
Patrícia destaca que ainda existem sistemas produtivos e comunidades nos quais os animais continuam relevantes, principalmente onde a mecanização da agricultura é inviável, economicamente inacessível ou incompatível com as características do terreno.
"Isso pode ocorrer, por exemplo, em determinadas áreas de agricultura familiar e em cadeias produtivas como sisal e cacau, onde animais podem participar do transporte em terrenos de difícil acesso", cita.
Débora ainda cita outros meios de reinserção do jumento na sociedade, como proteção de rebanhos, projetos com asinoterapia e combate a incêndios florestais. “Eles são utilizados para pastejo, eles pastejam aquela vegetação e quanto menos vegetação tem, menos substrato se tem para que as chamas avancem”, explica.
Além dos fins econômicos, o animal guarda significativo impacto social, ambiental, cultural e genético. Para Patrícia, o animal representa um patrimônio histórico-cultural e um recurso genético brasileiro que precisa ser conservado. Ela reforça, ainda, que o desenvolvimento econômico não precisa ocorrer à custa do desaparecimento do jumento Nordestino.
“Estamos falando de uma população que passou séculos se adaptando a um ambiente marcado por altas temperaturas, sazonalidade e escassez hídrica. Perder diversidade genética significa também reduzir o repertório biológico disponível para enfrentar mudanças ambientais presentes e futuras. Do ponto de vista cultural e histórico, perderíamos um animal indissociável da formação do sertão e da vida de inúmeras comunidades nordestinas”, indica.