A confirmação de novos casos de Febre do Nilo Ocidental no Brasil e a morte de uma mulher de 77 anos em Santa Catarina voltaram a chamar atenção para uma doença considerada rara no País. Em São Paulo, duas pessoas também foram diagnosticadas recentemente com a infecção, enquanto um caso provável é investigado no Piauí.
Apesar de a ocorrência ainda ser considerada incomum, o cenário reforça a importância da vigilância sobre mosquitos, aves silvestres e equídeos, inclusive no Ceará, que já registrou a circulação do vírus em animais. A Secretaria de Saúde do Estado não contabiliza casos em humanos.
Mesmo sem novos casos confirmados, a Sesa publicou, em julho de 2026, uma nova nota técnica com orientações para prevenção e vigilância da Febre do Nilo Ocidental e da Encefalite de Saint Louis.
A medida não significa que um surto tenha sido identificado no Estado. Segundo a Secretaria, trata-se de uma atualização das estratégias de monitoramento, com o objetivo de preparar os serviços de saúde para reconhecer rapidamente eventuais casos suspeitos e orientar a coleta de amostras.
Mas o que é a Febre do Nilo Ocidental?
A Febre do Nilo Ocidental (FNO) é uma infecção causada por um arbovírus do gênero Flavivirus. A principal forma de transmissão ocorre pela picada de mosquitos infectados, especialmente os do gênero Culex, conhecidos popularmente como pernilongos ou muriçocas. O inseto se infecta ao picar aves silvestres que carregam o vírus e, posteriormente, pode transmiti-lo a outros animais e aos seres humanos.
Como o vírus chega ao ser humano?
O ciclo da doença envolve principalmente aves silvestres e mosquitos. As aves funcionam como hospedeiras amplificadoras do vírus: quando são picadas por mosquitos infectados, o vírus se multiplica em seu organismo. Outros mosquitos podem adquirir o agente ao picá-las e, posteriormente, infectar pessoas ou animais.
Humanos e equinos, porém, são considerados hospedeiros acidentais e terminais. Isso significa que a quantidade e o período de circulação do vírus no organismo geralmente não são suficientes para que um mosquito se infecte ao picar uma pessoa ou um cavalo e continue o ciclo de transmissão.
Por isso, não é comum a transmissão direta de uma pessoa para outra. Há, contudo, relatos de formas raras de transmissão, como por transfusão de sangue, transplante de órgãos, aleitamento materno e transmissão da mãe para o feto durante a gestação.
Quais são os sintomas?
A maior parte das pessoas infectadas não apresenta sintomas. Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 20% dos infectados desenvolvem manifestações clínicas.
Quando aparecem, os sintomas geralmente são leves e podem incluir:
- febre de início súbito;
- mal-estar;
- dor de cabeça;
- dor muscular;
- náuseas e vômitos;
- dor nos olhos;
- manchas na pele;
- aumento dos gânglios linfáticos.
Um em cada 150 indivíduos infectados desenvolve doença neurológica severa. A infecção pode atingir o sistema nervoso e provocar quadros como meningite, encefalite e paralisia flácida aguda. Também podem ocorrer confusão mental, perda de equilíbrio, convulsões e fraqueza muscular intensa.
O risco de complicações é maior em pessoas mais velhas e em indivíduos com determinadas condições que comprometem a imunidade.
Há vacina ou tratamento?
Não há, atualmente, vacina recomendada para prevenir a Febre do Nilo Ocidental em seres humanos no Brasil, nem medicamento antiviral específico contra o vírus.
O tratamento é feito de acordo com os sintomas apresentados. Em quadros leves, podem ser indicados repouso, hidratação e acompanhamento médico. Casos graves, principalmente aqueles com comprometimento neurológico, podem exigir hospitalização e atendimento em UTI.
O diagnóstico pode ser realizado por exames laboratoriais que identificam anticorpos contra o vírus ou, em determinadas situações, por técnicas moleculares.
Quais são os casos registrados no Brasil?
Em agosto de 2026, São Paulo confirmou pela primeira vez casos humanos da doença. Os pacientes são uma mulher de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto, que relatou ter viajado recentemente para a região amazônica e já se recuperou, e uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto, que permanece sob cuidados médicos. As autoridades investigam onde ocorreu a infecção.
Em Santa Catarina, dois casos também foram confirmados. Uma mulher de 77 anos, de Imbituba, morreu após desenvolver a doença. O outro paciente, um homem de 56 anos, morador de Caçador, apresentou manifestações neurológicas, mas recebeu alta após o tratamento.
O Ministério da Saúde também informou a existência de um caso provável no Piauí, que está sendo investigado.
Segundo especialista ouvido pela Agência Brasil, apesar da possibilidade de evolução grave, menos de 1% das pessoas infectadas desenvolvem a forma severa da doença. A orientação é manter a vigilância sem criar alarme entre a população.
E o Ceará?
Embora não haja registro confirmado de casos humanos recentes no Ceará, o Estado já identificou a presença do vírus em equídeos.
O primeiro registro cearense ocorreu em 2019, quando um cavalo de Boa Viagem, no Sertão Central, morreu após uma infecção pelo vírus do Nilo Ocidental. Naquele período, mortes de outros cavalos em municípios como Caucaia, São Gonçalo do Amarante, Canindé, Abaiara, Irauçuba e Limoeiro do Norte também foram investigadas. No entanto, apenas o animal de Boa Viagem teve confirmação laboratorial da doença.
Após a confirmação, uma força-tarefa foi montada para investigar a possibilidade de circulação do vírus entre animais, seres humanos e mosquitos na região. Em setembro daquele ano, após a coleta de amostras, as autoridades informaram que não haviam identificado casos aparentes da doença em pessoas nem outros animais suspeitos.
O episódio de 2019 permanece como o único caso confirmado de Febre do Nilo Ocidental no Ceará, segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Desde então, não foram confirmados casos humanos no território cearense.
Como se proteger?
Como não existe vacina disponível para a população, a principal forma de prevenção é evitar a picada dos mosquitos.
Entre as recomendações estão:
- utilizar repelente;
- usar roupas que reduzam a exposição da pele, especialmente em áreas de maior risco;
- instalar telas em portas e janelas;
- evitar exposição aos mosquitos nos períodos de maior atividade;
- eliminar recipientes que possam acumular água;
- manter ambientes limpos e com saneamento adequado;
- evitar o contato direto com animais mortos, especialmente aves e equídeos.
No Ceará, a orientação é também comunicar às autoridades o aparecimento de aves silvestres ou equídeos com sintomas neurológicos ou mortes sem causa aparente. A população pode utilizar o aplicativo SISS-Geo para registrar ocorrências desse tipo, contribuindo para o monitoramento da circulação do vírus.
O que explica a preocupação atual?
A Febre do Nilo Ocidental não é uma doença nova no Brasil e continua sendo considerada rara. O que chama atenção agora é a identificação de novos casos humanos em diferentes estados e a ocorrência de um óbito, após anos de registros esparsos.
O histórico cearense mostra que a presença do vírus pode ser identificada primeiro em animais. Por isso, a vigilância sobre equídeos e aves, associada ao monitoramento dos mosquitos, é considerada uma das principais ferramentas para detectar precocemente uma eventual circulação do vírus entre humanos.
No cenário atual, as autoridades de saúde mantêm o monitoramento nacional e reforçam que a ocorrência de casos não significa, por si só, transmissão ampla da doença no País.