Resiliência é a capacidade de se adaptar, recuperar e continuar após passar por momentos de crise. Como um corpo, que depois de uma longa dança precisa descansar para novos passos. Foi assim com a Paracuru Cia de Dança, que depois de quase fechar as portas, em 2024, se apresentou em um evento internacional de dança em Xangai, na China.
Fundada em 2000 pelo bailarino Flávio Sampaio, 63 anos, na cidade de Paracuru, litoral oeste do estado do Ceará, a cerca de 90 km de Fortaleza, a Paracuru Companhia de Dança tem sido há mais de duas décadas um projeto que atua no bem-estar físico e social de jovens cearenses.
“A Paracuru Companhia de Dança nasceu de um encontro potente entre dez jovens com vontade de dançar e um professor de dança que retornava temporariamente à cidade onde havia nascido. Era o ano 2000, e aquele encontro mudou completamente as nossas vidas”, contou Flávio Sampaio.
Segundo o fundador, o que começou como uma experiência de criação e aprendizado, transformou-se, ao longo dos anos, em um projeto artístico que ultrapassou as fronteiras de Paracuru, levando a dança produzida no Ceará a diferentes lugares do Brasil e do mundo.
Atualmente, o grupo conta com oito bailarinos e dois estagiários. “É uma equipe pequena, mas comprometida com o trabalho artístico e com a responsabilidade de representar Paracuru e o Ceará em diferentes espaços culturais. Cada bailarino participa de um processo que envolve treinamento, pesquisa, criação, ensaios e apresentações, atividades fundamentais para a continuidade e o amadurecimento da Companhia”, conta o professor.
O coletivo de dança contemporânea é dedicado à criação, à pesquisa e à difusão artística. A Companhia mantém um repertório próprio e realiza apresentações em Paracuru, em outras cidades do Ceará e em diferentes regiões do Brasil e do exterior.
Mais do que produzir espetáculos, pontua o fundador, “ela representa artisticamente um projeto que acredita na dança como instrumento de formação humana, transformação social e diálogo entre culturas”.
Pelo seu trabalho, Flávio recebeu, em outubro do ano passado, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), o título de Doutor Honoris Causa.
A INCERTEZA E O RISCO DE ENCERRAMENTO
A Companhia depende diretamente de suas apresentações para se manter. Com a pandemia, os espetáculos foram interrompidos, e o grupo enfrentou dificuldades financeiras durante o período e por cerca de um ano após a retomada das atividades culturais.
Foi um momento de muita incerteza, mas nossos bailarinos demonstraram profissionalismo, compromisso e compreensão da situação
Com o apoio da Bienal Internacional de Dança do Ceará, a Cia conseguiu renovar o repertório, fortalecer as parcerias e voltar a se apresentar regularmente.
Além das apresentações na China, a Cia já realizou uma circulação pela Região Norte do Brasil, passando por São Luís, Belém e Macapá, com apresentações previstas também em Manaus e Rio Branco, em novembro.
“A manutenção de um projeto dessa dimensão exige recursos permanentes, especialmente quando compreendemos que não se trata apenas de manter uma companhia profissional, mas também de sustentar todo um processo de formação artística e cidadã”, explica Flávio.
Essa experiência, para o professor, o fez compreender ainda mais que iniciativas culturais dessa natureza não podem depender exclusivamente da resistência pessoal de seus idealizadores: “Elas precisam ser reconhecidas como políticas públicas permanentes, porque seus resultados ultrapassam o campo artístico e alcançam toda a comunidade”.
DA INCERTEZA AO MUNDO: O CEARÁ NA CHINA
Entre os dias 14 e 31 de outubro, Xangai recebe a Plataforma Cena Brasil, iniciativa que reúne 166 artistas, curadores, programadores, produtores e outros profissionais brasileiros em uma programação de apresentações artísticas, encontros de mercado e formação.
Do Ceará, além da Paracuru Cia de Dança, foram selecionados para o projeto artistas musicais: a cantora Clau Aniz e a dupla Mateus e Marcelo.
A Cia apresentou aos palcos de Xangai, no último dia 19, dois espetáculos: "Praia das Almas" e "O Que Você Tem Na Cabeça".
“Levar nossa dança e nossa cultura a um lugar tão distante como a China foi uma experiência única. Existe uma emoção especial em perceber que um trabalho criado a partir de nossas experiências, de nossos corpos e de nossa realidade pode tocar pessoas que vivem em um contexto cultural tão diferente do nosso”, disse Flávio.
O artista contou ainda que o intercâmbio com os chineses foi muito interessante e sentiu que a dança foi compreendida, mesmo quando não compartilhavam a mesma língua. O que, para ele, reafirma uma das maiores potências da arte: a capacidade de estabelecer comunicação por meio da sensibilidade, das emoções e da experiência humana.
Para mim, essa viagem também representa o reconhecimento de um trabalho construído ao longo de muitos anos em Paracuru. É a demonstração de que não precisamos estar nos grandes centros para produzir conhecimento, criar arte e estabelecer diálogos internacionais. Podemos partir de uma pequena cidade do Ceará e alcançar o mundo sem perder nossas referências e nossa identidade
DE ALUNO A SECRETÁRIO DE CULTURA
Alex Santiago, de 42 anos, é secretário de Cultura e Economia Criativa de Paracuru, foi do primeiro elenco da Cia e esteve com o grupo na China, além disso, participou pelo grupo de outra iniciativa similar a deste ano: Dança França Brasil em 2014.
“Minha história com a Paracuru Companhia de Dança começou no ano 2000, quando encontrei na dança uma possibilidade de expressão artística, aprendizado e transformação de vida. Ao longo dessa trajetória, vivi experiências que foram muito além do palco”, contou o gestor.
Para ele, a companhia proporcionou formação, disciplina, convivência, conhecimento e a oportunidade de compreender a arte como instrumento de transformação social; além de anos de dedicação, descobertas e construção de uma identidade artística que continua presente em tudo que faz.
“Hoje, já não atuo como bailarino da Paracuru Companhia de Dança, mas continuo profundamente ligado à história e ao legado desse projeto. Depois de tantos anos vivendo a dança, minha trajetória tomou outro caminho: tornei-me gestor cultural e atualmente sou secretário de Cultura e Economia Criativa de Paracuru”, disse ainda Alex.
O secretário conta que a companhia o ensinou que investir em arte é investir em pessoas, sonhos e oportunidades. Por isso, mesmo não estando mais no palco como bailarino, continua dançando de outra maneira: trabalhando para fortalecer a cultura, valorizar os artistas e ampliar o acesso da população às experiências culturais.
A Paracuru Companhia de Dança faz parte da minha história e da minha formação como pessoa, artista e gestor cultural. Tudo o que vivi ali continua reverberando nas minhas escolhas e no meu compromisso com a cultura de Paracuru
DESTAQUES DO GRUPO
Recentemente, o projeto foi destaque no Globo Repórter, programa da TV Globo, e mostrou como a iniciativa tem transformado vidas.
A Companhia representa artisticamente o projeto que desenvolvem em Paracuru, articulando formação, criação e difusão da dança. Ao longo desses anos, tiveram muitas experiências importantes, com apresentações, intercâmbios e parcerias em diferentes regiões do Brasil e do exterior.
“Destaco, por exemplo, a apresentação em Paris, diante do Museu d’Orsay, que representou uma oportunidade especial de levar nosso trabalho a um contexto cultural internacional. Também foram muito significativas as experiências de intercâmbio com o Ballet Nacional de Cabo Verde, que permitiram compartilhar conhecimentos e estabelecer relações entre diferentes realidades da dança”, lembra Flávio.
A trajetória da Cia é marcada por encontros com artistas e coreógrafos de diferentes procedências, que contribuíram para ampliar seu repertório e perspectivas.
“Mas considero igualmente importante o que acontece em Paracuru: formar jovens, criar oportunidades e demonstrar que uma cidade do interior do Ceará pode produzir arte de qualidade e dialogar com o mundo”, analisa o artista.
ESCOLA E CIA
Atualmente, há duas instituições diferentes, mas profundamente complementares. A Escola de Dança de Paracuru, que é responsável pela formação de crianças e jovens; e a Cia, que constitui uma etapa de profissionalização e desenvolvimento artístico para bailarinos que desejam seguir uma carreira na dança.
“Dessa forma, construímos um percurso que vai da iniciação à formação profissional, passando pela experiência do palco e pela criação artística. É um trabalho contínuo que permite aos jovens encontrar na própria cidade oportunidades de formação, trabalho e realização pessoal”, pontuou ainda Flávio.