Conheça lenda que assombra beco em Aracati e por que moradores evitam local à noite

Romance secreto teria criado área proibida no Centro Histórico da cidade.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
08 de Novembro de 2026 - 07:00
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Legenda: Viga de ferro foi instalada entre sobrados para impedir que o local se fechasse.
Foto: Arquivo/Alexandre Magnus.

Entre os casarões centenários do Centro Histórico do Aracati, há uma rua estreita que inspira uma lenda antiga na cidade do Litoral Leste cearense. Desde o período colonial, um beco é famoso por se fechar, engolindo quem ousa transitar pelo endereço à noite. 

Detalhada pelo historiador Antero Pereira Filho no livro “Histórias de Assombração do Aracati”, a narrativa conta que as paredes da viela — hoje localizada na esquina entre a Rua Barão de Messejana e a Av. Coronel Alexanzito — se estreitavam, tragando as pessoas que decidiam passar pelo local após a meia-noite. 

Embora atualmente seja chamado de Beco do Barão — em referência ao Barão de Messejana, morador de um dos sobrados locais —, o espaço era conhecido antigamente como Travessa das Flores ou do Encontro.

A fama de assombrada da viela teria supostamente motivado a instalação de uma viga metálica entre os dois casarões localizados na entrada do logradouro. A estrutura, que existe até os dias atuais, seria uma tentativa de impedir o fechamento das paredes da viela.

Lenda esconderia amor proibido

Na verdade, a narrativa do beco que engole pessoas não passaria de uma história inventada para encobrir um amor secreto. Segundo Pereira, a narrativa foi criada para viabilizar o romance entre um rico comerciante, que residiria no sobrado hoje ocupado pelo Museu Jaguaribano, e uma senhora que morava no prédio vizinho.  

Para manter o relacionamento proibido em segredo, o homem teria espalhado a informação de que as paredes dos casarões da esquina se fechavam, esmagando e sumindo para sempre com os transeuntes que ousassem adentrá-la após a meia-noite. Entretanto, a realidade era outra: os dois se encontravam naquele endereço, nesse horário.

Para evitar os desaparecimentos, o senhor teria instalado a viga metálica entre as residências. Porém, conforme o historiador, a estrutura era um caminho usado pelo comerciante para chegar até sua amada, atravessando-o como um “equilibrista de circo” até o outro lado.  

Aquele trilho não evitava o fechamento do beco, mas unia os dois sobrados pelo amor proibido, secreto e furtivo do senhor do sobrado norte e sua misteriosa amante do sobrado sul."
Antero Pereira Filho
Trecho de ‘Histórias de Assombração do Aracati’

Inclusive, a cena dos dois amantes teria assombrado um marinheiro que teria saído aos gritos após entrar, por engano, na viela à noite e avistar o “senhor muito bem vestido caminhando no ar, atravessando de um sobrado para o outro como se flutuasse no vazio, aos beijos com uma mulher linda que o acariciava na janela do sobrado vizinho."

Ainda de acordo com a obra escrita por Pereira, alguns dizem que, até hoje, no Dia dos Namorados, é possível observar o homem do casarão do Museu Jaguaribano atravessando a viga e o Beco do Barão se fechando “como a cortina do teatro”.

Lenda atrai visitantes e curiosos até os dias atuais.
Legenda: Lenda atrai visitantes e curiosos até os dias atuais.
Foto: Arquivo/Alexandre Magnus.

Lenda persiste até hoje e o beco atrai visitantes

Atualmente, a viela não assombra mais os moradores da cidade litorânea. Na verdade, o endereço atrai curiosos, intrigados pelos mistérios do local, conforme conta ao Diário do Nordeste o produtor cultural Leandro Lima, presidente da Liga Aracatiense de Blocos e Escolas de Samba (Labes). 

“O beco recebe visitantes, sobretudo como parte do roteiro do Museu Jaguaribano e do centro histórico tombado. A lenda funciona como atrativo complementar, contada por guias e professores.”

Embora remonte a décadas passadas, a narrativa é repassada de geração em geração em Aracati, por meio de relatos orais, da literatura local, do ensino e da pesquisa acadêmica, explica o profissional.

Lima também ressalta que a resistência da lenda ao longo do tempo se deve ao fato de que o casarão, que antes serviu como residência do senhor comerciante e hoje abriga o Museu Jaguaribano, é tombado tanto pelo Município quanto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Isso contribui para a preservação da viela e, por consequência, do causo.

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