As câmeras de videomonitoramento estão presentes em centenas de cruzamentos, paradas de ônibus, praças e espaços públicos de Fortaleza. Frequentemente associadas à aplicação de multas de trânsito, esses equipamentos também existem para auxiliar o ordenamento urbano e a fiscalização de serviços públicos.
Os dispositivos podem, por exemplo, identificar o descarte irregular de lixo nas ruas, monitorar os pontos de ônibus, fiscalizar grandes eventos, vigiar áreas de riscos de desastres e encontrar pessoas que descumprem as regras urbanas.
Essas ações são deliberadas a partir do Centro Integrado de Videomonitoramento de Fortaleza (Civfor), localizado no Centro da cidade. O ecossistema tecnológico tem mais de 7 mil câmeras e 60 profissionais trabalhando 24 horas para agilizar o tempo de resposta das equipes em campo.
No caso da identificação de infratores, o videomonitoramento é capaz de encontrar uma pessoa que percorre dois ou mais quarteirões para jogar entulho ou sacos de lixo. A tecnologia presente no Civfor permite aos operadores rastrear os caminhos percorridos pelo infrator por meio da placa do veículo ou pelo endereço de onde saiu, mas não pelo rosto.
“Nós vamos monitorando a pessoa, tentando buscar uma câmera ou outra que vai encontrar o endereço de onde ela saiu. A questão da placa do veículo também, a gente consegue captar. Nós não fazemos o reconhecimento facial para este fim”, explica o Coronel Cleberson Assunção, coordenador do Civfor.
O descarte irregular de resíduos é um dos principais focos da fiscalização por câmeras na Capital, com objetivo de reduzir os pontos de lixo crônicos e promover a limpeza urbana.
Esses locais são mapeados pela Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP) e pela Coordenadoria das Regionais, com câmeras posicionadas nas proximidades.
O que auxilia esse trabalho é a Eco Vigia, plataforma que utiliza inteligência artificial (IA) para identificar automaticamente o despejo ilegal de lixo e alertar os profissionais do Centro.
Como funciona o sistema?
Quando um veículo ou pedestre descarta lixo na rua, algoritmos de IA identificam o movimento e geram um alerta em tempo real nas telas da central. A partir desse aviso, os operadores analisam as cenas e acionam os órgãos envolvidos: a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) e, se preciso, a Guarda Municipal.
Segundo o coordenador, a função do Centro Integrado é “dar meios técnicos para a Agefis examinar as imagens e aplicar a sanção”. Todo o arquivo de vídeo serve de suporte para que a agência valide o ocorrido e envie a notificação de multa para o infrator.
Para que essa identificação aconteça automaticamente, os sistemas das câmeras do Civfor são treinados pelos algoritmos de IA e por outros analíticos para diferenciar o que são ações corretas ou inadequadas.
Acontece da seguinte forma: as câmeras do Centro processam dados de vídeos de forma automatizada e, com isso, são "treinadas" a entender que o movimento de despejar um resíduo em uma calçada é uma infração. Assim, toda vez que uma ação como essa acontece na rua, o sistema gera o alerta para os operadores.
De janeiro a outubro de 2026, a Agefis contabiliza 1.242 autos de infração lavrados a partir de flagrantes realizados por videomonitoramento. O número é maior do que o registrado em anos anteriores. Em 2025, as infrações somaram 283, enquanto em 2024 foram somente 66.
O despejo irregular de lixo pelos moradores é considerado uma infração grave, conforme o Código da Cidade. A penalidade pode ser aplicada em multa em flagrante, remoção e reparação do dano. Se para o descarte for usado um veículo automotor de passageiros, a multa é dobrada. Os valores variam de R$202,50 a R$32.400.
“Eu já tivemos um caso aqui, uma senhora que mandou capinar e limpar a frente da sua residência. No lugar de deixar dentro de sacos de lixo para o recolhimento, ela mandou um rapaz da carrocinha jogar em local indevido. Nós identificamos a casa [de onde saiu], rastreamos o indivíduo que fez o descarte e a Agefis foi lá, junto com a Guarda Municipal, para realizar o auto de infração”
Conforme Guilherme Magalhães, superintendente da Agefis, o uso das ferramentas tecnológicas vem reduzindo as autuações e diminuindo a quantidade de lixo jogado na rua porque as pessoas aprendem com a multa.
“Conseguimos identificar um aumento superior a 50% de assertividade com relação à não reincidência. Nos locais onde conseguimos colocar essa IA, percebemos que vai, aos poucos, deixando de ser um ponto de lixo crônico”, afirma.
Apesar de existir uma automatização, as imagens passam obrigatoriamente por uma dupla verificação humana em que a IA sinaliza a suspeita, mas cabe ao fiscal checar as imagens antes de aplicar qualquer sanção.
“A IA tem que ser ensinada. Ela ainda pode apontar falhas. Então aquele recorte é feito e aí vai para a fiscalização e o fiscal, o fiscal que vai fazer a análise para realizar o auto”, detalha Magalhães.
Centro reúne diversos órgãos
Localizado no Centro de Fortaleza, o Civfor tem como objetivo centralizar o acompanhamento das ocorrências e agilizar o acionamento das equipes que podem atuar naquele caso. A principal questão é “mobilidade para auxiliar no fluxo da cidade”, explica o coronel. Ele funciona desde abril de 2026.
O equipamento substitui a antiga Central de Videomonitoramento, instalada no bairro Aldeota. O novo Centro tem integração com a Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), maior parque tecnológico e maior tamanho, com área de 4.821 m², segundo a Prefeitura de Fortaleza.
São 7 mil câmeras distribuídas em toda a cidade, com telas para visualização simultânea e visão de 360 graus. Há também um sistema inteligente de videomonitoramento com 40 telas e com uso de inteligência artificial, além de sala de operações, datacenter, sala de situação, auditório e espaços para treinamento e despacho.
De lá, são realizados despachos de diversas pastas como:
- Guarda Municipal de Fortaleza;
- Defesa Civil de Fortaleza (DCFor);
- Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC);
- Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor);
- Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis);
- Secretaria Municipal da Educação (SME);
- Secretaria Municipal da Saúde (SMS);
- Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP);
- Coordenadoria de Gestão Regional (Coger);
- Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza (UrbFor).
“Nós temos aqui todos os contratos da Prefeitura. Então, eu visualizo todas as câmeras da AMC. A AMC visualiza todas as nossas. A usabilidade desse equipamento é que muda. Eles usam fiscalização e controle de trânsito. Eu uso para segurança ou para conservação ou para descarte. Então, ela vai ter essa integração, ela tem essa vantagem”, ressalta Coronel Cleberson.
Reconhecimento facial é feito pela SSPDS
O Centro não realiza reconhecimento facial nem faz leitura alfanumérica direta de placas em seus próprios servidores. O cruzamento biométrico de rostos para checagem de mandados de prisão é uma atribuição processada exclusivamente pelos servidores da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), do Governo do Estado.
Os órgãos dos entes municipal e estadual possuem uma parceria em que o Município disponibiliza o sinal de suas câmeras instaladas em equipamentos públicos (como o IJF, Frotinhas e Hospital Presidente Vargas) para que o sistema estadual cruze os dados biométricos e identifique foragidos da Justiça.
O Civfor e a Ciops utilizam o mesmo sistema de despacho. Assim, o recebimento de dados ocorre online e sem delay (atraso). Isso viabiliza ações conjuntas em que as imagens das secretarias municipais e do governo estadual são compartilhadas para monitorar a cidade de forma unificada.
“As prisões decorrentes do reconhecimento facial no IJF, equipamento público municipal, foi feita pela Polícia Militar através do sistema da SSPDS. Aqui nesse centro, a gente não faz reconhecimento facial. Mas a gente cede nossos equipamentos que tem analíticos de borda para que seja processado no servidor da SSPDS, que é onde está o banco de dados”, reforça Cleberson.