"Me senti o cara mais humilhado do mundo", é como resume um dos 15 maranhenses resgatados no Ceará, nesta semana, após ser submetido a uma rotina de ameaças, longas jornadas de trabalho, alimentação restrita e atraso ou até mesmo falta de pagamento.
O grupo deixou, gradualmente, o território de origem — a maioria da cidade de Santa Helena, a mais de 150 km de São Luís — seduzido pela promessa de serviço com carteira assinada para atuar na construção de um condomínio na zona rural de Maranguape, a cerca de 3 quilômetros do Centro.
No entanto, ao chegar ao município da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), deparou-se com um pesadelo de coação e exploração. Sem vínculo formal, os homens foram submetidos a um regime de trabalho em que o pagamento era proporcional à produtividade.
12 horas de trabalho, sem água potável e eletricidade
Em entrevista ao Diário do Nordeste, após serem resgatados na terça-feira (21), alguns dos funcionários detalharam que iniciavam o serviço no canteiro de obras às 6h30, deixando o local apenas ao fim do dia. A mesma jornada se repetia seis vezes por semana.
O esquema de pagamento levou alguns a trabalharem por cerca de 12 horas seguidas para supostamente "ganhar dinheiro mais rápido". Contudo, a expectativa de receber a remuneração foi frustrada com os atrasos constantes e até mesmo a ausência de salário.
A inadimplência agravava a condição dos operários, que viviam no mesmo alojamento (veja como era o local no vídeo abaixo), sem cama, portas, água potável ou encanada, além de poucos móveis. No local, após a jornada na obra, descansavam em redes que eles próprios compraram.
"Ninguém me avisou que não tinha cama. No dia em que cheguei, dormi no chão. Comprei uma rede no dia seguinte", conta uma das vítimas, que atua na área da construção civil há mais de 30 anos e nunca tinha se deparado com um alojamento como aquele.
Para ter acesso à água para beber e tomar banho no local, o empreiteiro contratante ofertava somente um reservatório sujo com resíduos de construção civil, localizado nos fundos da casa. Quando os trabalhadores recebiam pagamento, compravam água potável, mas, na falta de salário, acabavam tendo que recorrer ao líquido armazenado no reservatório impróprio.
Apesar de terem eletricidade, chegaram a ficar um período de 15 dias sem energia, pois o capataz não havia pago a conta.
"Imagina, está dentro de casa, bem tranquilo, conversando com a família, as lâmpadas 'tudo' acesas e, de repente, falta energia. Aí, você não tem uma vela para acender, porque você não tem dinheiro para comprar uma vela. Como é que fica?", exemplifica o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil da Região Metropolitana de Fortaleza (STICCRMF), Nestor Bezerra.
As condições do local surpreenderam os membros da entidade de classe, que realizaram o resgate dos maranhenses na terça-feira, após eles pedirem ajuda. "Encontraram um verdadeiro desastre. Era uma casa grande, sem ter nada dentro. Nem ventilador, nem água, nem portas. [...] As redes e as mochilas deles no chão. Sem um bebedor, um fogão, uma panela", afirma o dirigente.
Vítimas temiam pela própria vida
Embora as condições fossem degradantes, os maranhenses permaneciam atuando na construção e residindo no alojamento, pois eram constantemente ameaçados pelo empreiteiro, que os coagia a não procurar a polícia ou o Ministério do Trabalho, afirmando conhecer membros de uma facção criminosa que atua na região.
"Lá, nós 'tava' bem dizer, humilhados. Preso. Nós tinha medo de 'se espocar' lá e ele mandar matar nós. Ali é perigoso."
O temor da vítima é reforçado por um dado recente: Maranguape foi a cidade mais violenta do País em 2025, conforme a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Esse foi o segundo ano consecutivo em que o município liderou a lista de 10 localidades com mais registros de assassinatos, por taxa de 100 mil habitantes.
Alimentação precária
Nos últimos três meses, quando o empreiteiro responsável pelos maranhenses começou a fornecer a alimentação, que até então era realizada no refeitório da obra, a comida também passou a ser usada como ferramenta de pressão.
Quem não cumprisse o dia de serviço ou chegasse após o horário na residência do capataz, onde eram servidas as refeições, ficava sem alimentação. "A comida era fraca, ele 'suvinava' comida. Se chegasse tarde, não comia. Se chegasse às 20 horas, não comia mais."
"Era só carne de porco e frango, que é barato. E peixe também, que ele mandava nós pescar. A gente pescava, tratava e entregava para ele, que fazia nosso 'de comer'. Passamos quase um mês comendo peixe. Fomos 'judiados' demais."
A quantidade de comida fornecida pelo homem também é apontada como insuficiente pelos funcionários. "Para um cara que trabalha num serviço de massa, de reboco, que é um serviço pesado, puxando corda ou desempenando parede, era pouco a comida", relata.
Na manhã da última segunda-feira (21), após uma falta coletiva do grupo ao canteiro de obras, devido a uma confraternização no dia anterior, a alimentação foi completamente suspensa. Sem dinheiro, os maranhenses ficaram com fome até serem resgatados no dia seguinte, quando foram alimentados pelo Sindicato.
Caso é acompanhado pelas autoridades e acende alerta
O grupo foi levado para registrar um boletim de ocorrência (B.O.) na Delegacia de Polícia Civil de Maranguape. Em comunicado, a corporação detalha que apura as circunstâncias da ocorrência.
O Setor de Fiscalização do Trabalho da SRTE-CE disse que analisa a denúncia sobre a existência de trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão na Região Metropolitana de Fortaleza, e que adotará os procedimentos necessários para a apuração dos fatos.
Para Nestor Bezerra, a situação dos maranhenses é diferente de tudo que já observou ao longo dos anos atuando na fiscalização de canteiros de obras na Grande Fortaleza, o que acende um alerta do Sindicato sobre a vulnerabilidade dos trabalhadores do setor, que vive um momento de expansão no Ceará.
"A categoria saiu de 20 mil para 38 mil trabalhadores, quase dobrou o número após a pandemia. Não expandiu mais ainda porque não tem mão de obra no Ceará; as empresas pedem e não tem. Aí acontece uma situação dessa com trabalhadores que vêm de fora. Se o Sindicato não tivesse aparecido, talvez eles não voltassem para casa porque estavam com medo", argumenta.
Em nota ao Diário do Nordeste, a empresa Engeplan, responsável pela obra, declara que, desde que tomou conhecimento do caso, notificou a empresa terceirizada para que apresentasse os devidos esclarecimentos e adotasse todas as medidas necessárias em relação às irregularidades apontadas.
A construtora ainda detalha que, nessa quinta-feira (23), "a situação com os trabalhadores foi resolvida em definitivo e estes retornarão às suas cidades de origem".
“A Engeplan esclarece que contratou uma empresa terceirizada para a execução de serviços em seu canteiro de obras. O alojamento foi uma opção desta empresa. Já no âmbito do canteiro de obras, a construtora adota rigorosos protocolos de segurança, saúde e fiscalização das atividades, em conformidade com a legislação vigente e com os padrões exigidos”, diz o comunicado.