Colagem artística ganha força na pandemia; conheça história da técnica e experiências contemporâneas

Em Fortaleza, Escola Porto Iracema das Artes tem promovido cursos com artistas locais e nacionais

Escrito por Roberta Souza roberta.souza@svm.com.br
13 de Março de 2021 - 05:00 (Atualizado às 10:31)
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Legenda: Colagem da exposição "Gigante pela própria natureza", de Célio Celestino

É bem provável que você já tenha customizado a capa de um caderno com recortes de revistas, tecidos e jornais, por exemplo. Ou, quem sabe, até transformou isso em um quadro ou cartão-presente? A técnica em questão, também conhecida como colagem no meio artístico, é bem antiga, mas vem ganhando atualizações e novos adeptos, especialmente nesse contexto de pandemia. 

Na Escola Porto Iracema das Artes, em Fortaleza, foram ofertados dois cursos on-line vinculados ao tema neste mês de março, agregando cerca de 50 pessoas interessadas em explorar as habilidades analógicas e virtuais envolvidas nesse processo.

Entender as origens da técnica, concordam artistas e simpatizantes, é um passo importante para melhor revisitá-la.

“A colagem está presente na brincadeira das crianças, e na história da humanidade em várias situações. Porém, na História da Arte, ela surge no contexto das vanguardas estéticas do início do século XX, frequentemente associada, como advento técnico, aos experimentos cubistas de Pablo Picasso e Georges Braque”, explica a professora de História da Arte nos Grupos de Estudos da galeria Multiarte, Ana Valeska Maia Magalhães.

Ana também chama atenção para as aquarelas de Auguste Rodin (1900), cronologicamente  anteriores aos experimentos cubistas. Segundo ela, encaixes de figuras recortadas para compor novas aquarelas, feitas por Rodin, propiciaram aberturas, solturas do que até então, em termos artísticos, estava atrelado às linguagens da pintura, da escultura, do desenho ou da gravura. 

Rodin
Braques
Matisse
Hans Arp
Kurt Schwitters 1937-8

“A substituição  do pincel e o lápis pela tesoura e a cola passou a ser uma possibilidade cada vez mais utilizada pelos artistas, como nas já citadas colagens cubistas (chamadas também de  Papier collé, quando faz uso somente de papéis), nos papéis colados (guaches recortados) de Henri Matisse, bem como na irreverência dadaísta de Hans Arp, com a sua famosa ‘colagem montada segundo as leis do acaso’, de 1917, que também é o mesmo ano da famosa obra de Marcel Duchamp, ‘Fonte’”, lembra.

A desconstrução de regras rígidas de composição, completa Ana, abriu território de pesquisa para o novo, o estranho, o desestabilizante. E é exatamente isso que vem chamando a atenção de artistas contemporâneos como Ma Njanu, Célio Celestino e Manuela Eichner.

O que estão fazendo os atuais colagistas?

“Colar é, antes de tudo, transfiguração. Em meu corpo, sempre político, entendo a colagem como uma paramenta de guerra, em que adorno minhas imaginatividades estéticas. Isso significa dizer, ao contrário do que querem muitos, inclusive governos, que estou viva, muito viva e cotidianamente disposta a quebrar toda assimilação, destruir, subverter as estruturas coloniais que buscam aprisionar minha história em estereótipos e realidades feitas para a morte. Quando corto, assim, disforme, rasgado, assimétrico, problemático, sou eu a metáfora que lasco no papel. Sempre foi assim”, partilha a cearense Ma Njanu, 29 anos, em contato direto com essa expressão desde 2019.

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Segredo
bocaboca
sem título

Ela, ao lado de Rômulo Silva, ministrou o curso  “Corpo-f3chado: ateliê de criação desobediente”, na Porto Iracema, na última semana. O resultado foi uma exposição virtual com as obras produzidas durante a formação, que já podem ser vistas no perfil @corpof3chado no Instagram.

Ma Njanu tem experiência com colagens manuais, digitais, em técnica mista (misturando tinta e outros materiais orgânicos), e, a partir da colagem, também começou a fazer estudos em esculturas de argila. Processo inverso ao da gaúcha Manuela Eichner, que primeiro estudou escultura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para depois se aventurar profissionalmente nos processos de ilustração e colagismo.

“Nos últimos dez anos, eu peguei a colagem e fiz um alargamento da ideia dela. Eu já desenvolvi performance com bailarinas; fiz murais de grande escala, de 20m; realizei uma instalação multidimensional para as pessoas percorrerem, olharem sobre vários pontos de vistas; além de ministrar oficinas e transmitir videoprojeções de colagens sendo feitas na hora”, detalha Eichner.

Neste mês de março, ela ministrou o curso “Planta-colagem, conversas sobre colagem e natureza”, na Escola Porto Iracema das Artes, apresentando mais uma das múltiplas faces que essa expressão pode assumir. “Desde 2013, eu comecei a pensar que material eu usava, de onde vinham essas imagens que vêm de folhas de revistas e jornal, e elas vêm das árvores. A ideia de reciclagem também é algo inerente à natureza, então elas pra mim se conectam, planta e colagem, nesse sentido de metamorfose”, avalia Manuela.

O artista cearense Célio Celestino, 37 anos, acompanha o trabalho de Eichner e reconhece a colagem como essa “ressignificação de materiais, objetos e resíduos pré-existentes obsoletos ou não, deslocados de seu contexto original e rearranjados em uma superfície por meio de cola ou qualquer outro tipo de artifício que faça a junção de fragmentos, resultando em uma obra de arte”.

célio

Ao longo dos últimos dez anos, ele vem se dedicando exclusivamente à colagem analógica (manual) feita a partir de recortes de revistas das quais coleciona. São trabalhos de dimensões variadas, desde tamanhos que compreendem 17 x 12 cm até mesmo intervenções de 3 x 2M. Entre as exposições mais recentes do artista, está “Gigante pela própria natureza”, viabilizada com o edital emergencial Cultura DendiCasa, no ano passado.

Analógico e virtual: diálogos possíveis

Ma Njanu, Manuela Eichner e Célio Celestino defendem a multiplicidade da técnica e reconhecem a colagem como uma prática democrática, inclusive do ponto de vista da superfície em que ela pode ser realizada.

“Tem quem não tenha condições de comprar cola e papel hoje, mas tem o celular, do mesmo modo o processo criador dela é legítimo. Inclusive, pode ser uma resposta à angústia de resolver um problema interno”, introduz Ma Njanu.

Manuela, por sua vez, apesar de se reconhecer como uma defensora do analógico, por achar que existe muito poder e uma forma de raciocínio diferente quando se produz com as mãos, também assume a importância do virtual em seus processos. “Sempre usei e uso o digital para tratamento, alguma modificação, então acho que há essa mescla desses dois universos”, avalia.

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Série Zóio da Kara, de Manuela Eichner
Mural Natureza Hipotecada no Sesc Pinheiros.
MONSTRA, uma coreografia-colagem para pessoas e plantas.

Para Célio, a colagem por si já é esse diálogo entre partes distintas de contextos diferentes.

“As possibilidades poéticas na arte contemporânea são inúmeras, mas sempre vejo alguém arrasando na analógica. Vejo a colagem muito próxima do cinema nesse aspecto da virtualidade e dos modos de manipular a imagem, diferente do papel que limita certos processos. Tem uma avalanche de criadores se expressando pelo digital. Como todo o excesso, se torna cansativo ver tantas imagens, mas é isso, é o universo de cada um posto no mundo”, sintetiza.

A tecnologia de ponta, como observa a professora de História da Arte Ana Valeska, caminha com a utilização de técnicas mais tradicionais, com a precariedade de imagens antigas, garimpadas em sebos e locais de venda de antiguidades, com suas rasuras, fissuras, com o indefinido. “Nesse sentido, o que interessa é a força da narrativa que é despertada pela atualização que o artista promove em seus trabalhos”, destaca.

Ainda segundo Ana, passamos atualmente por um processo de ruptura, assim como passaram os vanguardistas do século XX, precursores da colagem.

“Em nosso atual contexto, os artistas tem, ao olhar em retrospecto, uma fonte rica de pesquisa de diversidade de técnicas, conjuntamente a possibilidades de ressignificação, sobretudo em histórias como a nossa, atravessadas por processos coloniais, patriarcais, racistas, homofóbicos, dentre outras negações da singularidade e da diferença. Junto a questões conceituais, há o constante reinventar de possibilidades técnicas, na qual o processo criativo é fonte de significados, tão marcantes e importantes quanto o que compreendemos como ‘obra de arte’”, finaliza.

Mais informações

Escola Porto Iracema das Artes: @portoiracemadasartes

Manuela Eichner: @manuelaeichner

Ma Njanu: @ma_njanu

Célio Celestino: @celio.celestino













 

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