A Polícia Civil do Ceará (PCCE) indiciou Fabiano Sales Holanda Lima pelo feminicídio da ex-namorada dele, Camila Maria Gomes Rodrigues. A vítima estava em uma motocicleta e morreu após um caminhão em alta velocidade, conduzido pelo investigado, atingi-la.
No relatório final, os investigadores expuseram que o amigo de Fabiano, Jozieldo do Nascimento Ferreira, cometeu crime de favorecimento pessoal "uma vez que ele permaneceu acompanhando o autor do feminicídio no veículo VW Gol com clara intenção de dar cobertura, esconder o motorista do caminhão ou de qualquer forma auxiliá-lo a subtrair-se à ação da autoridade pública".
A Polícia ouviu pessoas ligadas ao casal e analisou imagens das câmeras de segurança, de diversos ângulos, no instante da colisão fatal.
Três dias após o crime, a reportagem noticiou que peritos da Pefoce concluíram que caminhão colidiu com a traseira da moto da vítima e que, no local, não havia qualquer sinal de desaceleração ou acionamento de freios, o que prova, de maneira técnica, que o investigado não tentou evitar a colisão ou prestar socorro à Camila.
Camila foi esmagada no mesmo instante e ficou com os órgãos expostos ainda na via pública.
O suspeito fugiu para o Piauí, foi capturado ainda em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva. A reportagem buscou a defesa de Fabiano, mas não teve resposta até a edição desta matéria.
Devido ao impacto da velocidade empregada pelo veículo pesado, Camila sofreu traumatismo cranioencefálico, múltiplas fraturas nos membros e outros ferimentos graves que escancararam a crueldade do ato.
A vítima deixou dois filhos, um adolescente e uma criança de sete anos.
'CIÚME DOENTIO'
Testemunhas contaram que o casal estava junto há três meses, que discutia com frequência e que Fabiano apresentava 'ciúme doentio dela': "ciúme até das mulheres da família, ele era possessivo demais, não permitia que Camila tivesse amizades, queria controlar as saídas dela", disse um familiar da vítima.
O casal estava em um bar, na companhia de amigos, e discutiu, supostamente devido às mensagens no celular de Fabiano.
Depois disso, a mulher teria ido a pé buscar a própria moto em casa e retornado ao bar em seguida. Fabiano, então, teria pedido ao amigo que o levasse até a casa da vítima para buscar seu caminhão, que estava estacionado na frente da casa dela, e suas roupas, porque pretendia viajar.
O filho de Camila foi quem abriu a porta da residência para o namorado da mãe.
Quando Fabiano embarcou no veículo, Camila teria passado de moto ao lado e parado em frente ao caminhão para forçá-lo a parar. A testemunha afirmou à Polícia que viu claramente quando o suspeito passou por cima da moto e deixou a namorada com o corpo dilacerado em via pública, sem prestar socorro.
SUPOSTA PERSEGUIÇÃO
O amigo de infância de Fabiano, que levou o suspeito à casa da vítima naquela noite e estava em um carro posicionado atrás do caminhão, testemunhou o atropelamento.
Após o crime, o agressor teria sugerido que os dois fossem "embora" dali. Ele contou que seguiu o amigo até a subida de uma serra, mas desistiu de acompanhá-lo na fuga. "Não vou mais, faça o que você quiser", teria dito ao suspeito.
Fabiano foi preso no dia seguinte em Picos, no Piauí, após a Polícia Militar do Ceará (PM-CE) acionar as autoridades do estado vizinho sobre o feminicídio e a possibilidade de um caminhão branco da marca Volvo passar pela região. Os policiais do Piauí iniciaram um patrulhamento em busca do suspeito e interceptaram o veículo na rodovia federal BR-316.
Suspeito disse não ter visto nada
Quando abordado pelos PMs do Piauí e questionado sobre o crime, Fabiano afirmou que "não viu nada". Já em depoimento na delegacia, ele preferiu ficar em silêncio.
Um dos militares responsáveis pela abordagem desconfiou que o caminhão apreendido com o suspeito tivesse sido lavado recentemente, uma vez que não apresentou marcas de sangue. Além do veículo, a Polícia apreendeu com o agressor um celular, documentos pessoais e R$ 1,3 mil em espécie.
O investigado teve a prisão em flagrante convertida em preventiva no dia 5 de agosto, em audiência de custódia. O pedido de conversão foi feito pela Polícia Civil (PC-CE) diante da brutalidade do feminicídio e do risco de fuga. A solicitação da autoridade policial cearense foi acatada pelo Ministério Público do Piauí (MPPI), que sustentou que os elementos periciais e testemunhais indicam a materialidade e os indícios de autoria, afastando a possibilidade de um atropelamento "meramente acidental".