A Justiça do Ceará decidiu que o monitoramento eletrônico do influenciador Gleiciano Martins de Sousa, conhecido como 'Junior Azevedo', deve continuar. Gleiciano é denunciado por supostamente explorar jogos de azar, como o 'Jogo do Tigrinho'.
A defesa do réu pediu a revogação da medida cautelar, alegando que o monitoramento já dura mais de seis meses.
Os juízes da Vara de Delitos de Organizações Criminosas indeferiram o pedido, destacando que o acusado é suspeito de financiar a organização criminosa Comando Vermelho (CV), "participando em potencial, em atividades de fraudes realizadas com jogos eletrônicos de azar".
"No presente caso, a gravidade dos crimes imputados ao requerente é inquestionável. Os elementos coletados indicam uma possível vinculação a um contexto de criminalidade envolvendo organização criminosa armada, o que torna a medida cautelar tomada, uma medida necessária para garantir a ordem pública e a integridade do processo judicial", disseram os magistrados.
O acusado teria recebido transferências diretas de lideranças de organização criminosa e movimentado a quantia de R$ 5 milhões em um período de apenas seis meses (de novembro de 2023 a abril de 2024), apenas em uma das suas contas bancárias.
O dinheiro adquirido de forma ilícita também foi usado em uma série de cirurgias plásticas, apontam as investigações.
Em 2024, o acusado disse ter gasto mais de R$ 100 mil para se parecer com o ator Cauã Reymond.
"Eu queria transformar o meu rosto, fazer umas plásticas, e, quando cheguei ao médico, ele perguntou se eu tinha alguma referência para seguir. Eu falei do Cauã Reymond, porque sou fã desde a época de Malhação. Ele é muito bonito, e o médico conseguiu fazer essa transformação em mim", disse ele.
DEFESA ARGUMENTA
A defesa do influencer diz que Gleiciano vem cumprindo regularmente a medida cautelar no prazo estabelecido "e que não ocorreu nenhum fato novo que justifique a prorrogação do uso da tornozeleira eletrônica".
O Ministério Público do Ceará (MPCE) solicitou diversas vezes à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) relatório sobre o cumprimento da medida, até que a Pasta analisou e apontou "incidentes decorrentes de área de inclusão e descarga completa de bateria" no período de 9 de outubro de 2015 a 12 de maio de 2026.
"Vale salientar que os registros indicam a ausência do monitorado em sua zona de recolhimento obrigatório. No entanto, conforme demonstram os mapas anexos, a maioria desses incidentes ocorreu enquanto o assistido encontrava-se no perímetro da Coordenadoria de Inclusão Social. Somam-se a isso episódios de descarregamento total do dispositivo, o que inviabiliza a fiscalização e configura descumprimento das condições impostas judicialmente".
Os promotores de Justiça de Combate às Organizações Criminosas também foram contrários à retirada da tornozeleira por acreditarem que "o requerente tem potencial participação em atividades de fraudes realizadas com jogos eletrônicos de azar, vitimando milhares de pessoas que são seus 'seguidores' em redes sociais, o que demonstra que este integra uma organização inominada inclusive com suspeitas de financiamento ao Comando Vermelho – CV".
A advogada do acusado foi procurada pela reportagem para comentar a decisão, mas não se posicionou até a edição desta matéria.
QUEM É 'JUNIOR AZEVEDO'?
Gleiciano foi um dos alvos da operação interestadual 'Quéfren', deflagrada há um ano. Na época, a Polícia Civil do Ceará (PCCE) cumpriu 13 mandados de prisão e 17 de busca e apreensão contra agentes de plataformas e influenciadores digitais que contratavam pessoas e divulgavam jogos de azar ilegais.
Mesmo após ser preso, Gleiciano não escondeu nas redes sociais que levava uma vida de luxo. O Ministério Público expõe que o influencer deu a entender aos seguidores que ganhou milhões de reais jogando em 'cassinos virtuais' e, com os valores, fez viagens internacionais e adquiriu veículos de luxo.
"As investigações balizadas por quebras de sigilo telemático, bancário e relatórios de inteligência financeira revelaram a existência de uma estrutura hierarquizada, na qual o denunciado desempenhava função essencial na captação de vítimas e ocultação de capitais", segundo a acusação.
O acusado posta diariamente no Instagram e tem foco em temas políticos. Nos últimos meses, Gleiciano criou um novo perfil e passou a publicar detalhes do que vivenciou dentro do presídio enquanto esteve encarcerado.
Em uma das postagens, ele contou como se depilava dentro da unidade prisional: "não pode ter vergonha, porque todo mundo fica pelado no pátio", disse sobre o período que passou na Casa de Privação Provisória de Liberdade V (CPPL5), localizada em Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza.
'PAPEL ATIVO NA ORGANIZAÇÃO'
Em documentos a que a reportagem teve acesso, consta que o influenciador exerce papel ativo na organização criminosa, "promovendo a fraude eletrônica em larga escala e movimentando milhões de reais de origem escória. A sua insistência em retornar ao meio digital comprova que as medidas cautelares diversas da prisão são insuficientes para conter sua atividade ilícita".
"Diferentemente de criminosos comuns que atuam na clandestinidade física, o modo de atuação de Gleiciano depende intrinsecamente de sua presença digital. Através do perfil, ele operacionaliza os crimes de estelionato e angaria os recursos ilícitos. A gravidade concreta de sua conduta é agora agravada pelo descumprimento flagrante das medidas cautelares impostas. Conforme demonstrado nas capturas de tela anexas, o acusado reativou suas redes sociais, criou perfil "reserva" para burlar a fiscalização e passou a exibir a própria tornozeleira eletrônica como troféu, demonstrando que não apenas persiste na seara delitiva, mas despreza as determinações do Poder Judiciário", segundo o MP.