Enquanto as redes sociais repercutiam a megaoperação da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), que encontrou o equivalente a quatro campos de futebol da Arena Castelão com 290 mil pés de maconha em Acopiara, no Ceará, uma etapa crucial da investigação ganhou atenção: a cadeia de custódia nas cenas de crimes. A custódia do caso, inclusive, é alvo de uma apuração paralela, sobre a conduta dos delegados e outros agentes envolvidos.
Um vídeo publicado pelo deputado federal André Fernandes (PL-CE) denunciou que o local da plantação foi deixado sem supervisão e com drogas não destruídas, o que fez Governo do Ceará iniciar a investigação.
O Diário do Nordeste entrevistou Rômulo Lima, perito de cenas de crime e atual presidente do Sindicato dos Peritos Oficiais do Ceará (Sindiperitos), e, segundo ele, cenas de crime grandes como a da fazenda da maconha precisam ser preservadas até o fim das investigações e com o máximo de diligência possível.
Local sem supervisão e com materiais como drogas, celulares ou documentos deixados para trás configuram "falha na custódia".
O perito pontua ainda que o acesso de terceiros que não estejam participando da operação, configura também violação. Rômulo Lima afirma que os participantes de uma operação devem tomar medidas para garantir que, caso o processo não seja finalizado no dia, o local esteja seguro.
Em função das imagens que eu vi nas mídias e que foram divulgadas, realmente é uma violação se eu não adotar as devidas medidas para poder finalizar todo o processo e se eu tenho uma prorrogação desse tempo em que eu não adoto as devidas medidas para que eu finalize todo o trabalho
Quebra da cadeia de custódia
Uma cadeia de custódia é todo o processo de documentação e acompanhamento de um vestígio. No caso da fazenda da maconha, os vestígios visíveis eram das drogas. A cadeia só acaba no momento em que as provas são apresentadas à Justiça, conforme o presidente do Sindiperitos.
A cadeia é como se fosse uma "amarração" que compreende rastreabilidade, fidelidade e imparcialidade da prova, garantindo que o material analisado em laboratório e apresentado perante um juiz seja exatamente o mesmo que foi coletado originalmente.
O que a PCCE também investiga no caso da fazenda da maconha é se essa cadeia foi quebrada, quando parte da droga foi deixada para trás sem fiscalização. A preservação e o isolamento adequado são fundamentais em casos de grande porte, como, segundo avalia Rômulo Lima.
"Considerando que realmente possa ter ficado droga lá, possa ter ficado celular ou documentos, realmente isso é uma falha na custódia, porque quando você está num local de crime e não tem condição física de poder recolher tudo ou repassar, você isola por uma semana, por duas, por 10 dias com apoio da PM, seja quem for, para que você não tenha essa violação, consequentemente mantendo a custódia", explica.
Como funciona a chegada na cena do crime?
Quem chega primeiro e deve garantir o isolamento da cena geralmente são as equipes da Polícia Civil ou Militar, na experiência do perito. Rômulo pontua que o processo deve ser o seguinte:
- Polícias: normalmente os primeiros a chegar ao local, cabendo a eles a tarefa inicial de isolar a área e identificar que ali ocorreu um crime.
- Preservação: esses agentes são os servidores responsáveis por reservar e preservar o local, garantindo que nem a população nem os próprios policiais movimentem vestígios ou entrem na cena antes do tempo adequado.
- Equipes Estratégicas: Em locais muito extensos, onde o uso de fitas de isolamento pode não ser suficiente, devem ser utilizadas equipes da PM e da própria Polícia Civil em pontos estratégicos para evitar a entrada de terceiros e manter os vestígios idôneos.
Delegados da investigação exonerados
Nesta semana, o Governo do Ceará divulgou que dois delegados de Polícia Civil do Ceará (PCCE) que são alvos de Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) no caso da suposta falha de custódia da maconha encontrada em Acopiara foram exonerados dos cargos.
Conforme documento a que a reportagem do Diário do Nordeste teve acesso, Marcos Sandro Nazaré de Lira, ocupante da função de delegado seccional da 4° Seccional do Interior Sul, e Vicente de Paula Rodrigues, delegado titular da Delegacia de Polícia Civil de Acopiara, foram afastados dos cargos desde o dia 29 de junho de 2026.
Em nota, a PCCE esclareceu que a decisão "trata-se, portanto, de efeito legal automático e temporário, não de antecipação de julgamento de mérito. Os delegados permanecem em atividade, mas fora das funções de chefia".
"A Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informa que a exoneração dos dois delegados dos cargos em comissão decorre da instauração de Processo Administrativo Disciplinar (PAD), conforme a Portaria CGD nº 355/2026. A medida atende ao disposto no art. 43, parágrafo único, da Lei nº 13.441/2004, segundo o qual o policial civil de carreira que responde a processo administrativo-disciplinar fica impedido de permanecer em cargo comissionado, ou de ser nomeado para cargo comissionado ou função de chefia de qualquer natureza na Administração Pública Estadual, enquanto durar o julgamento do processo", diz a corporação.