Diário do Nordeste

Acusado de chefiar grupo de extermínio, iraniano volta ao sistema penitenciário cearense

Farhad Marvizi passou 11 anos no Sistema Penitenciário Federal de Segurança Máxima

Escrito por
Messias Borges messias.borges@svm.com.br
(Atualizado às 06:49)
Conforme as investigações, Fahrad Marvizi era líder de um grupo de extermínio, que estava pronto para matar quem tentasse interferir nos negócios do iraniano

O iraniano Farhad Marvizi, conhecido como 'Tony', está de volta ao Ceará. Depois de 11 anos detido em presídios federais de segurança máxima, o estrangeiro acusado de chefiar um grupo de extermínio foi transferido para o sistema penitenciário cearense.

Marvizi estava preso no Presídio Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A transferência foi realizada pela Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), na última terça-feira (23).

A Secretaria da Administração Penitenciária do Ceará (SAP) confirmou que o iraniano já se encontra custodiado em presídio cearense, mas não forneceu mais informações.

Questionado sobre a motivação da transferência, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) não respondeu até a publicação desta matéria. A reportagem também questionou a Senappen sobre a transferência, mas não recebeu resposta.

A defesa de Farhad Marvizi, representada pelo advogado Flávio Jacinto, informou que a decisão partiu da Vara Federal de Campo Grande, que entendeu que não havia necessidade da permanência do preso em presídio federal.

No ano passado, a Coordenadoria de Inteligência (Coint) da SAP enviou um relatório para a Justiça em que pediu a manutenção de Marvizi em um presídio federal.

Diante do nível de periculosidade de Farhad Marvizi, reconhecido fator de liderança dentro da ORCRIM (organização criminosa), detentor de grande influência e alto poder aquisitivo, ter praticado crime que coloque em risco a sua integridade física no ambiente prisional de origem, estar submetido ao Regime Disciplinar Diferenciado, ser membro de quadrilha ou bando e envolvido na prática reiterada de crimes com violência ou grave ameaça, sua volta ao sistema prisional cearense representa um risco à sociedade, sendo notória sua nocividade nos moldes comuns do sistema prisional, este é indicado para permanecer no Sistema Penitenciário gerido pelo Governo Federal."
Secretaria da Administração Penitenciária do Ceará
Em manifestação à Justiça

Iraniano responde por vários homicídios

Farhad Marvizi responde a vários processos criminais por crimes contra a vida, na Justiça do Ceará. Ele e o ex-policial militar Ivanildo Mariano Silva vão a julgamento no dia 29 de agosto deste ano pelo assassinato do comerciante e ex-funcionário da Coelce, Francisco Cícero Gonçalves de Sousa, conhecido como 'Paulo Falcão'.

O julgamento estava marcado para o último dia 4 de maio, mas foi adiado, em razão da marcação de outro júri para o mesmo dia, na 5ª Vara do Júri de Fortaleza. 'Paulo Falcão' foi assassinado em uma pizzaria, no bairro Vila Manoel Sátiro, em junho de 2009.

A trama envolvendo o estrangeiro e seus comparsas no Ceará é marcada por falsas amizades, negócios ilegais, traições e mortes. No caso de Marvizi e 'Paulo Falcão', a ligação entre eles começou no ano de 2008 por um motivo inusitado: altos gastos com contas de energia elétrica.

'Falcão', além de ter uma pizzaria, trabalhava como eletricista, e foi apresentado a Marvizi por um amigo em comum dos dois, o comerciante Carlos José Medeiros Magalhães. Por suas habilidades, o eletricista foi contratado para fazer um "gato" na ligação de energia em dois imóveis do iraniano, nos bairros Meireles, em Fortaleza, e no Porto das Dunas, em Aquiraz.

Mas, conforme as investigações policiais, Farhad Marvizi também contratou 'Paulo Falcão' para matar o chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal, José de Jesus Ferreira, responsável por fiscalizações contra os negócios ilegais de venda de aparelhos eletrônicos do iraniano.

O auditor da Receita sofreu um atentado, em Fortaleza, no dia 9 de dezembro de 2008, mas resistiu aos tiros. Marvizi foi condenado a 20 anos de prisão, por encomendar a tentativa de homicídio, em 2012.

Mesmo sem ter concluído a tarefa pela qual foi contratado, 'Falcão' passou a cobrar dinheiro de Marvizi. Após as seguidas cobranças e por ser conhecedor dos negócios ilegais do grupo criminoso, o eletricista 'Paulo Falcão' irritou o iraniano e passou de pistoleiro a alvo. Ele terminou morto no dia 2 de junho de 2009.

Em outra "queima de arquivo", o iraniano e o grupo de extermínio são acusados de matar o antigo comparsa Carlos Medeiros e a esposa dele, Maria Elisabeth Almeida Bezerra, em agosto de 2010. O casal colaborava com a Polícia Federal para desvendar outros crimes do estrangeiro. O duplo homicídio ainda não foi julgado.

Outras condenações na Justiça

Farhad Marvizi também foi condenado a 17 anos de prisão, em abril de 2022, por ordenar a morte do empresário Francisco Francélio de Holanda Filho, ocorrida no bairro Aldeota, em Fortaleza, em 8 de julho de 2010. O crime teria sido motivado por denúncias que Francélio fez contra o iraniano, sobre importações ilícitas. Acusado e vítima eram concorrentes do mercado de eletrônicos em Fortaleza.

Além do âmbito criminal, Marvizi já foi condenado duas vezes na Justiça Federal no Ceará: em 2015, a pena foi de 11 anos de prisão, por descaminho, corrupção ativa, formação de quadrilha e falsidade ideológica; e em 2017, também por descaminho, com pena de um ano de privação de liberdade, que foi substituída por restrição de direito (prestação de serviços à comunidade ou pagamento de cinco salários mínimos).