Famílias lembram histórias da boleia de caminhão

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
07 de Setembro de 2013 - 20:06
Há duas décadas, Festival de Caminhoneiros reúne famílias que cruzam as vidas na estrada

Tabuleiro do Norte. Este município homenageia, até hoje, os caminhoneiros, personagens importantes de diversas histórias que relatam a superação o trabalho árduo e a paixão por viver a vida encarando estradas país afora. Os últimos dias foram de mais um Festival dos Caminhoneiros de Tabuleiro.

Quem se depara com dona Otacília Freire Maia, aposentada de 73 anos, sentada em sua calçada ao cair da tarde, nem imagina que é uma mulher respeitada e reconhecida no universo dos caminhoneiros de Tabuleiro do Norte. Ela é, simplesmente, a primeira mulher da cidade a ter um caminhão Mercedez Benz 1970 como ferramenta de trabalho. Nada de costura, ou tarefas domésticas, foi na estrada em que ela levou a vida junto com seu marido, Manoel André Freire, e levou para casa o sustendo para seus três filhos.

Dona Otacília começou a pegar no volante para ajudar o marido, que já era caminhoneiro na época, em meados dos anos 1970. Folheando seu álbum de fotografias, ela mostra um registro do primeiro carro que aprendeu a dirigir, um Chevrolet de 1963. Na foto, está ela ao lado do marido, dos dois filhos pequenos e uma multidão em cima da carroceria, que ela trouxe de cidades vizinha para ver os desfiles de 7 de Setembro. "Eu já fazia viagens aqui no Interior mesmo, mas pra tirar a carteira eu aprendi a dirigir um Mercedes Benz 1970. Foi nele que eu e meu marido trabalhamos por anos", recorda a aposentada.

O trabalho era pesado. O casal vivia da venda da banana para as fábricas de doce. A fruta era comprada em São João do Jaguaribe e nos perímetros irrigados das cidades de Morada Nova e Icó e eram vendidas para fábricas de doce, principalmente em Fortaleza e Estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Dona Otacília conta que deixava seus três filhos pequenos com os avós para ajudar seu esposo no trabalho. Eles revezavam no volante durante longos dias de viagem e ainda realizavam as cargas no transporte.

Habilitação

Apesar do tempo ter apagado algumas das muitas memórias construídas ao longo de mais de 20 anos como caminhoneira, ela revela a mais importante delas: o dia em que recebeu sua habilitação para guiar o transporte. "Naquele momento, foi emocionante, quando o chefe do Detran chegou pra mim e disse assim: eu tenho orgulho de assinar a habilitação de uma mulher caminhoneira. Foi de uma felicidade imensa receber minha habilitação", relata.

Em um fato triste, a aposentada conta que um acidente quase a fez desistir de largar a vida de caminhoneira. Foi no início dos anos de 1970, na BR-116, nas proximidades de Pacajus, distante 48km da Capital. Ela capotou o carro após tentar desviar de um animal. "Eu estava guiando quando manobrei pra desviar do jumento, mas o carro virou, nós nos machucamos um pouco, o carro ficou acabado e perdemos 11 toneladas de banana. Eu fiquei nervosa, porque tinha ocasionado aquilo, tinha perdido tudo, mas meu marido me tranquilizou, ficou ao meu lado e disse que iríamos batalhar para recuperar tudo. Isso me deu muita força e me fez continuar", desabafa a aposentada.

Nos anos de 1980, a caminhoneira deixa a vida da estrada. Já cansada, aposenta o volante. Ela conta que hoje não sente falta dessa vida, mas garante boas recordações de tudo o que viveu com seu esposo pelas estradas do Nordeste.

Desejo

Outra história é a da caminhoneira Sandra Nanci Schuwengber, 49 anos. Começa na cidadezinha de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. Filha de pais operários, ela despertou seu interesse pelo transporte ainda pequena, quando via caminhões saindo de uma fábrica de fogão. "Eu ainda vou ter um desses", diz ela, relembrando na época.

Muito cedo, conseguiu a habilitação e, aos 18 anos, estava pronta para sair na estrada, com trabalho já garantido em Recife. "Minha mãe dizia que o perigo da minha vida era eu não ter medo de nada".

De carona para Recife foi em uma parada num posto de gasolina na cidade de Muriaé, interior de Minas Gerais, que o caminho dela cruzou com o do tabuleirense Leudemar Rodrigues de Oliveira. O então caminhoneiro queixava-se que precisava de um motorista e ela, como sempre sem medo, aceitou o trabalho. Um mês depois, eles já estavam morando juntos e, cinco anos depois, casaram-se. "Caminhão, para mim, sempre foi uma paixão, foi o que eu escolhi para minha vida. E já vivi muita coisa boa na estrada, viajei o Brasil todo. É o que eu gosto de fazer", afirma Sandra.

Sandra e Leudemar têm uma filha de 20 anos, estudante universitária em Fortaleza. Para cuidar da filha e da sogra (quando em vida), ela deixou a estrada. Mas pretende voltar a fazer algumas viagens com o marido, mesmo que a passeio. "Não me vejo no futuro largando isso. Enquanto puder, estarei na estrada".

Tradição

Na família Maia Gomes, a tradição caminhoneira veio do pai que é apaixonado pelo ofício e decidiu ensinar seu filho mais velho, Francisco Mais Gomes, o Chiquinho, como é chamado. De lá para cá, os outros sete irmãos acompanharam a tradição da família e já ensinam os filhos. Zé do Cazuza já tem dois netos caminhoneiros. Mesmo viajando o mês inteiro, neste período do Festival de Caminhoneiros na cidade, todos se esforçam para se fazerem presentes em casa, para comemorar a festa em família.

Mais Informações:

21º Festival dos Caminhoneiros, Tabuleiro do Norte
Associação dos Caminhoneiros do Município
Telefone: (88) 3424.2324

ELLEN FREITAS
COLABORADORA