Desmobilização das brigadas de incêndios determinada pelo Ibama atinge duas equipes no Ceará

As brigadas, no Estado, contam com 15 agentes cada. Com a paralisação, o Corpo de Bombeiros terá que contemplar todas as futuras demandas, gerando sobrecarga

Legenda: As equipes param de trabalhar justamente nos meses (novembro e dezembro) que registram maior número de focos de queimadas em vegetação no Estado
Foto: Honório Barbosa

O Ibama determinou, nesta quarta-feira (21), que as brigadas de incêndios florestais interrompam, a partir da meia-noite desta quinta (22), os trabalhos em todo o País, por "indisponibilidade financeira" para fechar o mês de outubro. No Ceará, o impacto dessa determinação será observado nos meses seguintes, período de maior criticidade das queimadas.  

O Estado conta com duas brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), cada uma composta por 15 agentes. No entanto, atualmente, o efetivo está atuando no combate a incêndios no Pantanal e no Maranhão. A previsão é de que eles retornassem ao Ceará em novembro, quando a demanda historicamente cresce – os dois últimos meses do ano são os que possuem maior média de focos de incêndio no Estado.  

Diante da determinação do Ibama, as equipes, agora, retornarão de imediato para a sede Quixeramobim, no Sertão Central, mas ficarão impossibilitadas de atuarem.

“Não podemos atuar sem o pagamento de diárias para os agentes”, pontuou o coordenador estadual do Prevfogo do Ibama Ceará, Kurtis Francois Teixeira Bastos. Sem eles, a tendência é que ocorra sobrecarga para atender as demandas futuras.    

O subcomandante do Corpo de Bombeiros da 1ª Seção do 3º Grupamento de Sobral, major Mardens Vasconcelos, reforçou que “já existe uma sobrecarga por conta do grande número de queimadas” e que a ausência dos brigadistas do Prevfogo amplias as dificuldades no combate aos incêndios florestais.

“Seria de grande ajuda, sem dúvida, pois sozinhos a situação fica mais pesada”, ressaltou.

Atuação

A rigor, a brigada do Prevfogo atende à demanda federal, isto é, combate a incêndios em unidades da União – terras sob jurisdição da Funai, unidades de conservação do ICMBio e Ibama.

No Ceará, são 411 projetos de assentamentos federais, oito áreas indígenas, 15 de quilombolas e 12 unidades de conservação ambiental. Com a paralisação, esses incêndios que venham a surgir nestas áreas serão atendidos pelo Corpo de Bombeiros, corporação que já está sobrecarrega diante do alto número de ocorrências nos municípios cearenses.

“A nossa preocupação é que os meses de novembro e dezembro são os mais críticos no Ceará com registro de fogo em vegetação”, pontua Kurtis. 

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), já são 663 focos no Ceará neste mês de outubro. 

O professor de geografia do Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus de Iguatu, Carlos Lima da Silva, se mostra preocupado com possível falta adequada de cobertura para conter os incêndios.

Ele detalha que as queimadas contribuem para o avanço do processo de desertificação, a partir da degradação do solo que fica exposto, e da perda da vegetação. “Além do problema ambiental, temos consequências econômicas, pois afeta as atividades produtivas”, pontuou. 

Entenda a desmobilização 

A desmobilização nacional foi determinada por meio de ofício do chefe do Centro Especializado Prevfogo, Ricardo Viana Barreto, que alegou falta de recursos financeiros e orçamentários no Ibama para a adoção da medida administrativa.

"Determino o recolhimento de todas as Brigadas de Incêndio Florestal do IBAMA para as suas respectivas Bases de origem, a partir das 00:00H (zero hora) do dia 22 de outubro de 2020, onde deverão permanecer aguardando ordens para atuação operacional em campo", diz o documento.

O Ibama informou que a determinação para interromper o trabalho dos brigadistas "acontece em virtude da exaustão de recursos" e que "já contabiliza 19 milhões [de reais] de pagamentos atrasados, o que afeta todas as diretorias e ações do instituto, inclusive, as do Prevfogo".

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