Nos municípios do Interior, as religiões de descendência afro são bastante cultuadas, ainda que de forma discreta
Limoeiro do Norte. Há mais de 500 anos iniciou-se a saga brasileira de escravos negros vindos da África, e com o vigor daquela mão-de-obra explorada pelos colonizadores europeus vieram crenças, deuses e rituais típicos das tribos africanas e completamente atípicos para a sociedade européia, esta que “ocidentalizou” o mundo com a cultura cristã e suas crenças, e condenou a prática cultural de rituais africanos, freqüentemente associados a “coisas do mal”.
Porém, a cultura negra de raiz africana existe e resiste. No Brasil, está presente no processo de luta do negro contra a discriminação étnico-racial. Candomblé e Umbanda são as principais crenças, muitas vezes com práticas religiosas associadas a santos e rituais católicos. Somente no Ceará são quase 20 mil terreiros de Umbanda registrados.
Encontrar um terreiro de Umbanda em cidades do Interior, como Limoeiro do Norte, é fácil, difícil é fazer a pergunta e não receber um olhar de desconfiança, reprovação. “Menino, vai fazer o que no terreiro de macumba?”, indagou uma senhora, respondendo a “onde mora ‘Zé de Telvina’?”.
É logo ali, na mesma Avenida Francisco Remígio, “por trás da igreja de Santo Antônio”, que mora José Luís do Araújo, de 73 anos, neto de Etelvina - que o criou até a morte. Seu José é pai-de-santo, como são chamados os sacerdotes que cultuam e incorporam as divindades orixás afro-brasileiras.
Com 50 anos de “trabalhos” “Pai Zé” é o mais antigo umbandista de Limoeiro. É procurado todos os dias por quem está atrás de uma “luz”. Casamento “desmantelado”, pessoas alcoolizadas, drogadas, com dificuldades financeiras e um sem número de “pedras no meio do caminho” são levados até o pai-de-santo. “Eu peço ajuda aos orixás, minha missão é ajudar as pessoas enquanto eu viver para fazer o bem”, afirma o umbandista, que diz incorporar com freqüência “Pai João” (“preto velho” de Angola, ajuda na caça no mato), Mãe-Marília (curandeira de crianças e doenças em geral), e tem também Maria Padilha (mãe de Pombagira). Cada orixá tem sua funcionalidade.
Termos como “macumba” e “Pombagira”, “Pinga-Fogo”, “Tranca-Rua” são comumente associados a práticas diabólicas. Na opinião de umbandistas, deriva do preconceito com a cultura africana. No lugar de macumba, existem diversas crenças descendentes de segmentos marginalizados da sociedade e perseguidas durante muito tempo. E a ‘Pombagira’ é, na Umbanda, a entidade Exu, tida como intermediária entre o homem e os orixás. “Exu conhece um lado onde outras entidades não caminham, então pode ajudar a desfazer o mal”, explica José Luís.
“Como em todas as religiões, na Umbanda ou Candomblé as pessoas podem seguir por dois caminhos. Na vida, aliás, qualquer pessoa pode seguir o bem ou o mal. Mas eu só trabalho pelo bem. Minha missão é ajudar as pessoas”, defende Francisca Leuda, mãe-de-santo especializada na cartomancia – jogo de cartas que “diz” traços do destino humano. Por toda a entrevista, a fiel conversa receosa, diante do preconceito que ainda existe.
MELQUÍADES JÚNIOR
Colaborador
Limoeiro do Norte. Há mais de 500 anos iniciou-se a saga brasileira de escravos negros vindos da África, e com o vigor daquela mão-de-obra explorada pelos colonizadores europeus vieram crenças, deuses e rituais típicos das tribos africanas e completamente atípicos para a sociedade européia, esta que “ocidentalizou” o mundo com a cultura cristã e suas crenças, e condenou a prática cultural de rituais africanos, freqüentemente associados a “coisas do mal”.
Porém, a cultura negra de raiz africana existe e resiste. No Brasil, está presente no processo de luta do negro contra a discriminação étnico-racial. Candomblé e Umbanda são as principais crenças, muitas vezes com práticas religiosas associadas a santos e rituais católicos. Somente no Ceará são quase 20 mil terreiros de Umbanda registrados.
Encontrar um terreiro de Umbanda em cidades do Interior, como Limoeiro do Norte, é fácil, difícil é fazer a pergunta e não receber um olhar de desconfiança, reprovação. “Menino, vai fazer o que no terreiro de macumba?”, indagou uma senhora, respondendo a “onde mora ‘Zé de Telvina’?”.
É logo ali, na mesma Avenida Francisco Remígio, “por trás da igreja de Santo Antônio”, que mora José Luís do Araújo, de 73 anos, neto de Etelvina - que o criou até a morte. Seu José é pai-de-santo, como são chamados os sacerdotes que cultuam e incorporam as divindades orixás afro-brasileiras.
Com 50 anos de “trabalhos” “Pai Zé” é o mais antigo umbandista de Limoeiro. É procurado todos os dias por quem está atrás de uma “luz”. Casamento “desmantelado”, pessoas alcoolizadas, drogadas, com dificuldades financeiras e um sem número de “pedras no meio do caminho” são levados até o pai-de-santo. “Eu peço ajuda aos orixás, minha missão é ajudar as pessoas enquanto eu viver para fazer o bem”, afirma o umbandista, que diz incorporar com freqüência “Pai João” (“preto velho” de Angola, ajuda na caça no mato), Mãe-Marília (curandeira de crianças e doenças em geral), e tem também Maria Padilha (mãe de Pombagira). Cada orixá tem sua funcionalidade.
Termos como “macumba” e “Pombagira”, “Pinga-Fogo”, “Tranca-Rua” são comumente associados a práticas diabólicas. Na opinião de umbandistas, deriva do preconceito com a cultura africana. No lugar de macumba, existem diversas crenças descendentes de segmentos marginalizados da sociedade e perseguidas durante muito tempo. E a ‘Pombagira’ é, na Umbanda, a entidade Exu, tida como intermediária entre o homem e os orixás. “Exu conhece um lado onde outras entidades não caminham, então pode ajudar a desfazer o mal”, explica José Luís.
“Como em todas as religiões, na Umbanda ou Candomblé as pessoas podem seguir por dois caminhos. Na vida, aliás, qualquer pessoa pode seguir o bem ou o mal. Mas eu só trabalho pelo bem. Minha missão é ajudar as pessoas”, defende Francisca Leuda, mãe-de-santo especializada na cartomancia – jogo de cartas que “diz” traços do destino humano. Por toda a entrevista, a fiel conversa receosa, diante do preconceito que ainda existe.
MELQUÍADES JÚNIOR
Colaborador