Barroquinha. A praia de Bitupitá, localizada neste município, na divisa do Ceará com o Piauí, entrou no mapa das que estão sem balneabilidade. A beleza natural, que ganhou notoriedade no Brasil afora, é colocada em cheque por ser um mais trecho do litoral cearense atingido pela poluição marinha.
Bitupitá é um paraíso com grande potencial turístico em pleno desenvolvimento. A Vila, com cerca de 3 mil moradores, ainda tem na pesca sua maior fonte de renda, assim como ocorre no município, que tem garantido com essa atividade, cerca de 60% de sua economia, seguida por programas de assistência social. Além do peixe, a comercialização da lagosta e do camarão para o mercado exterior complementam a renda das famílias, que sobrevivem do que o mar oferece.
Neste mês, a praia entrou numa indesejada lista divulgada pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), que apresenta semanalmente o índice de praias próprias e impróprias para banho no Estado do Ceará. Das sete praias do Litoral Oeste divulgadas no boletim mensal, Bitupitá foi a única proibida aos banhistas.
Coliformes
As amostras foram coletadas em pontos na profundidade de um metro, em regiões mais utilizadas para recreação, ou seja, nas proximidades da Vila. De acordo com as informações da Semace, foram encontrados 1.300 coliformes termotolerantes, por 100ml de água, no local, quando o limite seria de até 1.000, segundo resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que dispõe sobre balneabilidade das praias brasileiras. Quando é encontrado esse tipo de bactéria em amostras, por exemplo, há o indicativo de que essa água possa estar contaminada por esgoto das casas.
Avaliação
Os coliformes termotolerantes são usados frequentemente para avaliar a qualidade da água e indicar a contaminação por fezes ou outros tipos de resíduo. Essa avaliação é importante, pois permite a prevenção de doenças que são transmitidas pela água. A presença de resíduos sólidos ou animais no entorno da área de banho, também polui a água, levando a esse tipo de resultado nas análises.
Restos de peixes
De acordo com as informações de Maira Gadelha, gerente do Laboratório de Análise e Monitoramento da Semace, onde as amostras foram examinadas, o resultado surpreendeu. "Estranhamos o resultado do material coletado naquela praia, até porque Bitupitá, em todos esses anos, sempre teve bom histórico de balneabilidade e nunca esteve no boletim", ressaltou.
"Em observações feitas pelo técnico que realizou a coleta, não há foco visível de nenhuma fonte poluidora, como esgoto ou lixo perto da praia. O que consta em relatório é a comercialização mais intensa de peixes feita na faixa de areia, nas proximidades do ponto de coleta, o que pode ter acarretado nesse resultado. Após 30 dias, faremos nova coleta e, se for constatado alto índice de coliformes, acionaremos o setor de fiscalização da Semace para estudos mais aprofundados na região", disse.
Bitupitá está localizada em Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba, e notícia da restrição ao banho chamou a atenção do secretário de Meio Ambiente do Município, Gilmar da Silva Filho, que garantiu a realização de ações de Desenvolvimento Sustentável e políticas de Educação Ambiental, ligados ao turismo e pesca, incluindo campanhas de limpeza de praias, lagos e rios da região.
"Mantemos um trabalho constante de desenvolvendo do turismo de base comunitária para garantir o ecodesenvolvimento das comunidades litorâneas, respeitando a identidade cultural e a capacidade de suporte assimilada pelos potenciais naturais do município, sendo a Praia de Bitupitá nosso grande centro de visitação. Então acho estranho esse tipo de resultado, já que nunca estivemos nessa lista", afirmou.
Campanhas
Ainda, segundo o secretário, existem ações de conservação, como a Campanha de Educação Ambiental Jovens Protetores dos Manguezais, nas comunidades de Chapada, Leitão, Picada Nova, Praia Nova e Praia das Curimãs, além de Bitupitá.
"Nestes locais realizamos oficinas e palestras de conscientização ambiental, com reflorestamento das áreas de manguezais nos distritos de Araras e Chapadas, desenvolvendo nas crianças uma conscientização ambiental e um senso de responsabilidade para o meio ambiente", garantiu.
Turismo
Para os moradores, um dos grandes desafios é para que aquele trecho do litoral oeste cearense seja um destino turístico para os amantes de ecossistemas preservados e equilibrados, como afirma a socióloga Fernanda Veras, moradora de Barroquinha.
"Na verdade, o que não falta ao longo da orla são locais propícios para o turismo", salienta Fernanda. Ela lembra o fato de que há o interesse de toda a comunidade que o lugar seja melhor explorado.
São mais de seis quilômetros de dunas móveis, de três a quatro quilômetros de largura. Ao primeiro olhar parece uma fusão entre o deserto e o mar. O acúmulo de tanta areia resulta da movimentação constante das dunas cearenses, cujos depósitos de sedimentos são levados açodadamente para a ponta oriental.
A areia sai do Ceará, passa pelo litoral piauiense, e se soma aos sedimentos que já não são poucos nos Lençóis Maranhenses. Poderia ser uma imagem deslumbrante da praia cearense, onde já se avista Luís Correia, no Piauí, uma das últimas com as características mais primitivas. Porém, os danos ambientais já fazem parte do cotidiano da pequena comunidade.
As dunas chegam a soterrar os postes de iluminação elétrica, enterram a parca vegetação, derramam-se pela estrada carroçal que liga a sede ao litoral. Para Fernanda, o que aconteceu agora foi atípico. Ela atribui ao grande volume de algas que impactou na análise da Semace. "O pior é que eles não nos notificaram", afirmou.