O pleito eleitoral de 2026 coloca as 46 cadeiras de deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) em disputa. Embora a corrida pelas vagas seja considerada cada vez mais acirrada em termos de votos, o eleitor cearense terá menos opções de candidatos do que há quatro anos.
Assim como na eleição de deputados federais e vereadores, as vagas para a Alece são distribuídas por meio do sistema proporcional de votação, ou seja, a partir da proporção dos votos dados aos candidatos, partidos e federações. Essa divisão é norteada pelos cálculos dos quocientes eleitoral (QE) e partidário (QP).
Os dois índices são determinantes para a quantidade de vagas que cada partido conquistará a partir dos votos de todos os candidatos da legenda, levando em conta o total de votos válidos. Os quocientes mudam a cada eleição, já que há variação no número de políticos por partido e na quantidade mínima de votos necessária.
É nesse sentido que o número de candidaturas mexe diretamente com a eleição. Conforme dados do sistema de divulgação da Justiça Eleitoral (DivulgaCand), 374 registros foram oficializados na disputa pelas vagas da Assembleia em 2026 — o menor número de postulações desde 2006, pelo menos.
média de candidatos por cadeira de deputado na Alece
O cenário deste ano mostra uma redução de 34.62% nas postulações ao Legislativo do Ceará na comparação com a eleição de 2022. Há quatro anos, o pleito para a Alece registrou 572 candidatos.
O especial “Para entender os Poderes” é uma série de reportagens do PontoPoder sobre o funcionamento e outros aspectos da disputa pelos cargos que estão em jogo nas eleições gerais de 2026. O material envolve a Assembleia Legislativa do Ceará, o Palácio da Abolição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Palácio Planalto.
Panorama de candidaturas
As regras eleitorais ajudam a entender parte dessa redução nas candidaturas. Desde 2021, cada partido pode registrar até 100% mais um do número de vagas a preencher na disputa proporcional.
No caso da Alece, cada agremiação pôde lançar até 47 nomes. Contudo, nenhum partido chegou perto do número máximo de candidaturas em 2026.
| Partido | Nº de candidatos |
|---|---|
| MDB | 16 |
| Mobiliza | 35 |
| Novo | 16 |
| PC do B | 3 |
| PDT | 15 |
| PL | 34 |
| Podemos | 3 |
| PP | 13 |
| PRD | 14 |
| PSB | 32 |
| PSD | 21 |
| PSDB | 32 |
| Psol | 16 |
| PSTU | 3 |
| PT | 27 |
| PV | 6 |
| Rede | 9 |
| Republicanos | 35 |
| Solidariedade | 13 |
| União | 30 |
| UP | 2 |
Cenário político
Deputados estaduais ouvidos pelo PontoPoder também apostam em fatores políticos partidários para o contexto de queda. Um dos pontos passa pela avaliação de que a disputa pela Câmara dos Deputados passa a ser mais atrativa, principalmente em termos de recursos.
Por isso, indicam os políticos, o cargo de deputado federal tem o peso de contar com as emendas parlamentares impositivas, que são propostas de alteração no orçamento público com execução obrigatória por parte do Poder Executivo. Nesse modelo, os parlamentares costumam priorizar os municípios de sua base eleitoral, reforçando a dependência política das gestões em relação a essas verbas.
Já no caso do Legislativo estadual, os deputados cearenses podem fazer apenas indicações para a destinação dos recursos dentro do Orçamento, mas a execução não é obrigatória e fica a critério do Executivo estadual. São as chamadas emendas não impositivas.
Além disso, as siglas costumam concentrar recursos do Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos (Fundo Partidário) e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundo Eleitoral) nas disputas majoritárias e de deputado federal. Fontes de financiamentos de origem pública, ambas são repassadas a partir de critérios internos de distribuição das legendas.
Vagas em disputa
Mesmo com a redução, parlamentares indicaram ao PontoPoder a perspectiva de uma disputa eleitoral cada vez mais acirrada, o que exige cálculos dos deputados na busca por uma margem segura de votos para garantir uma vaga.
Um dos fatores está na postulação de nomes considerados competitivos, como ex-gestores públicos bem avaliados. Além disso, a Assembleia tem pelo menos 12 deputados que não disputarão a reeleição, o que abre a perspectiva de renovação mínima de 26% das 46 cadeiras.
Sobre a conjuntura de 2026, alguns parlamentares trabalham com a projeção de que o quociente eleitoral fique em torno de 110 mil votos, que seria a margem para um partido eleger um deputado estadual no Ceará — índice foi de 109,5 mil em 2022.
Caso o quociente eleitoral de 110 mil se confirme, o candidato precisa contabilizar pelo menos 10% desse índice para atingir a chamada cláusula de barreira, ficando apto para ocupar uma cadeira conquistada pelo partido. O candidato que ficar acima da “nota de corte” de 11 mil votos entraria na disputa por uma vaga conquistada pelo partido.
Custo da campanha
Pelas regras eleitorais, cada candidato deve respeitar o limite de até cerca de 1,2 milhão com gastos na campanha para deputado estadual. O valor deve cobrir todas as despesas contratadas no período, como propaganda, eventos, gastos de pessoal e transporte.
Todo o dinheiro utilizado passa por prestação de contas à Justiça Eleitoral. Gastar acima do teto estipulado pode fazer o candidato responder por abuso de poder econômico, conduta que pode acarretar multas, cassação do registro ou do mandato e até mesmo inelegibilidade.
Limite legal de gastos na campanha para cada candidato a deputado estadual
O candidato pode financiar até 10% desse teto de gastos com recursos próprios. Por outro lado, uma fatia importante dos valores vem de doações de pessoas físicas — o financiamento por empresas é proibido.
Parte dos parlamentares critica o panorama de fontes de financiamentos. Os políticos alegam que a grande maioria dos candidatos não consegue nem chegar próximo ao teto de gastos.
Por outro lado, deputados estaduais evidenciam que os custos para se obter os votos necessários são considerados crescentes. Embora haja uma tendência de diminuição dos materiais de propaganda, alternativamente aumenta a necessidade de outros investimentos, a exemplo dos gastos com o impulsionamento nas redes sociais.
Cálculos eleitorais
No sistema proporcional, como é o caso da eleição para deputado estadual, as cadeiras são distribuídas de forma compatível aos votos obtidos por cada partido. A partir disso, as vagas são ocupadas pelos candidatos mais votados dentro de cada legenda.
A distribuição das cadeiras depende dos cálculos do Quociente Eleitoral (QE) e do Quociente Partidário (QP). A partir dessa equação, as legendas calculam quantas cadeiras conquistam de início.
No caso do Quociente Eleitoral, se a divisão gerar uma fração, arredonda-se para mais se a parte decimal for maior que 0,5. Já o Quociente Partidário descarta qualquer número após a vírgula.
Mesmo após os cálculos, algumas cadeiras não são preenchidas e são chamadas de “sobras”. Quando isso acontece, a Justiça Eleitoral realiza duas distribuições adicionais:
- Média ("Sobras"): Destinada aos partidos que alcançaram pelo menos 80% do QE e cujos candidatos atingiram individualmente 20% do QE. O cálculo é realizado a partir da divisão dos votos válidos do partido pela soma do quociente partidário mais um;
- Sobra das Sobras: As cadeiras restantes são destinadas às legendas que tiverem a maior média, sem o critério de percentual do quociente.
Cenário eleitoral de 2022
Em 2022, o Ceará registrou 5.041.233 votos válidos. A partir da divisão desse número pelas 46 vagas de deputados estaduais, o quociente eleitoral obtido foi de 109.592 votos por cadeira.
Como exemplo, o PDT obteve 1.238.562 votos para deputados estaduais, entre os individuais e os de legenda. A partir da divisão desse total pelo quociente eleitoral, o partido foi o que mais conquistou vagas na Alece em 2023: ao todo, foram 11 cadeiras na primeira rodada de cálculos, além de duas vagas por média a partir das sobras eleitorais.
Dono da segunda maior bancada, a Federação PT, PC do B e PV obteve 950.573 votos para deputados estaduais. Com o resultado, o arranjo partidário conquistou oito vagas pelo quociente partidário, além de uma vaga por média.
Partido da oposição com melhor desempenho, o PL terminou a eleição de deputado estadual com o total de 495.261 votos. O saldo fez a agremiação conseguir quatro cadeiras na Assembleia Legislativa do Ceará, todas via quociente partidário.
Diante da equação de resultados e vagas a serem preenchidas, o contexto de 2022 entra de vez no radar das estratégias dos candidatos. A meta é atingir os votos dentro de uma margem que garanta a cadeira na Alece em 2027.