Lula refaz campanha, cria exército digital e consegue virada histórica

Quais elementos levaram Lula a ser o primeiro candidato a perder o 1º turno e vencer a eleição desde a redemocratização?

Escrito por
Inácio Aguiar inacio.aguiar@svm.com.br
(Atualizado às 22:01)
Legenda: Lula inicia seu 4º mandato na Presidência da República em 1º de janeiro
Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) para o quarto mandato. Saiu do primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), com 45,16% dos votos válidos contra 47,03%. Virou. Nenhum candidato à Presidência havia conseguido isso desde a redemocratização. 

A vitória, histórica por seus elementos, não foi construída como um milagre de última hora. O candidato petista reconstruiu sua campanha, trouxe novas lideranças para o front e montou um exército digital - estratégia incomum para uma campanha de esquerda.  

Freio de arrumação 

O primeiro movimento foi interno. Insatisfeito com a "desorganização" do primeiro turno, Lula mexeu no núcleo duro e entregou o comando a nordestinos. O cearense Camilo Santana assumiu a articulação política. O governador do Piauí, Rafael Fonteles, reeleito no dia 4, ficou com a comunicação. O baiano Rui Costa, com a agenda. 

A campanha promoveu uma virada de chave e passou a impor a pauta do segundo turno ainda na primeira semana. O novo núcleo impôs outra linguagem: vídeos de celular, formato selfie, fala direta. Menos palanque, mais calçada e mais redes.

Veja também

Exército nas redes 

O movimento digital, por sinal, é inédito na escala. André Janones (Rede-MG) criou, no dia seguinte ao primeiro turno, o canal "Exército do Lula" no WhatsApp. Em dois dias, quase 2 milhões de seguidores. Na reta final, mais de 10 milhões. O canal chegou a ser suspenso pela Justiça Eleitoral antes de voltar ao ar. 

Na prática, a esquerda passou a disputar o campo onde o bolsonarismo jogava sozinho. A mediana de interações por publicação nos perfis de Lula saltou de 2,8 mil para 16,2 mil.

Lula perdeu no primeiro turno, mas venceu na capacidade de se reinventar em três semanas. 

Pleito conturbado

Lula alcançou a maior votação da história numa eleição tensa. Relatos de redução da frota de ônibus em cidades da Bahia e de São Paulo, por exemplo, levaram o ministro Cristiano Zanin, do STF, a estender a votação até as 19h em todo o País. Medida inédita em eleições gerais. Em 2022, pedido semelhante foi negado. 

A prorrogação do horário, é bom lembrar, deve alimentar questionamentos do campo derrotado. 

Vitória e desafio

O resultado tem duas leituras. Lula prova que ainda sabe virar uma eleição. Porém, governará, aos 80 anos, um País dividido ao meio, diante de um adversário que se consolida como líder da oposição.

A costura para governar precisa começar amanhã. 

1 2 3