Noiva descobre câncer pouco antes do casamento e casa careca: ‘Meu ato de força’

Aos 29 anos, Arietha Holanda não desistiu de um sonho enquanto a vida enfrentava o maior desafio.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Legenda: Arietha e Davi casaram no último dia 28 de agosto, em Fortaleza.
Foto: Rodrigo e Duda Fotografia

“Hey, hey, meus amores, hoje eu vou casar”, diz Arietha Holanda com uma câmera gravadora em mãos. Está maquiada e sorri. Num dos dias mais especiais da vida, escolheu se entregar de corpo e alma ao momento, priorizar a emoção. É o que justifica a decisão de não negar a própria condição de pessoa em tratamento quimioterápico e, assim, subir careca ao altar. “Conseguir me mostrar dessa forma é meu ato de força”, conta, ainda em tom de festejo.

A cerimônia aconteceu no último dia 28 de agosto, em Fortaleza. Hoje, faz um mês e nove dias em que a entrada comovente dela em direção ao agora marido, Davi Emerson, tomou todos de surpresa e aqueceu o peito. A administradora e empresária de 29 anos partilha que, ao vivenciar todo o processo com a doença, nunca quis mascarar nada. Esta é ela, agora.

“Não vejo problema em quem gosta de usar lace [prótese capilar que imita o couro cabeludo], por exemplo; mas, pra mim, se eu não casasse careca, provavelmente não estaria me aceitando”.

Essa jornada, repleta de coincidências e muita coragem, iniciou no começo deste ano para ela, mas já havia enviado sinais antes, quando iniciou o relacionamento com Emerson, há dois anos. Dessas coisas que parecem inaceitáveis, mas pavimentam esperanças.

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À época, tanto a mãe de Arietha, dona Esmeralda, quanto a sogra, dona Berenice, descobriram um câncer de mama praticamente juntas. Foi tudo muito difícil. A família precisou respirar fundo e lidar com todas as questões inerentes ao tratamento.

Mas a cura de ambas chegou, embora juntamente com uma surpresa: no último mês de março, foi a vez da própria Arietha ser diagnosticada com a mesma doença. “Um baque”, recorda.

“Íamos casar em novembro, mas vimos que não seria possível. Devido ao tratamento, eu estaria em processo de quimioterapia, ou seja, já um pouco mais debilitada. Naquele instante, pensei: ‘Não vou ter energia para lidar com tudo o que um casamento exige’. Então desisti, não quis mais fazer casamento religioso, só o civil”.

O incentivo dos amigos, porém, foi maior. Não teve jeito: Arietha e Davi lançaram mão de vestido e terno, buquê e lencinho, e concretizaram o casório sob as bênçãos divinas.

A maquiadora da noiva – também com histórico de câncer de mama – realçou a beleza da cearense, cujo comentário quando se viu careca e inteiramente pronta diante do espelho foi dito em alto e bom tom: “Meu Deus, como eu tô linda”.

“Sofri muito mais vendo meu cabelo cair e a fibra dele mudar nesse processo, do que ficando careca. Antes mesmo da doença, sempre achei mulheres negras carecas bonitas. Via imagens, pesquisava, achava muito interessante”.

Na imagem, retrato de duas pessoas durante uma cerimônia ao ar livre. Em primeiro plano, uma pessoa veste traje azul-claro com gravata branca e flor na lapela. Ao lado, outra pessoa usa vestido branco com detalhes bordados e mangas rendadas, além de brincos em formato de flor. A cena foi registrada com fundo desfocado, onde aparecem elementos de vegetação e convidados, destacando os participantes no centro da imagem.
Legenda: Antes de Arietha, tanto a mãe dela quanto a sogra tiveram câncer de mama.
Foto: Rodrigo e Duda Fotografia.

Dali em diante, cada detalhe do casório realçou esse brilho primeiro no olhar de Arietha. Ela gosta de brindar a vida e lidar com os fatos sob a lente do otimismo. Desde que pesquisou sobre casamentos de pessoas que venceram o câncer, resultados da busca a fortaleceram. Germinou missão.

“Também quero fortalecer outras mulheres que estão vivendo essa fase, do casamento, e que, em determinado ponto, pensaram em desistir. É uma fase tão linda…”. 

De igual modo, gosta de saber que escolheu a pessoa certa para estar ao lado. Tão logo tomou conhecimento da condição de Arietha, Davi se dedicou ainda mais para que ela se sentisse amparada. Muito antes da promessa no altar, fez valer o “na saúde e na doença”. 

Na imagem, selfie de duas pessoas sentadas lado a lado em um ambiente interno com corredores, guarda-corpos e circulação de pessoas ao fundo. Ambas usam óculos. À esquerda, uma pessoa veste camiseta branca de manga curta. À direita, outra pessoa veste blusa regata clara, usa máscara facial branca e colar com pingente em formato de borboleta. A fotografia foi tirada em plano próximo, destacando os rostos e a parte superior do corpo, com iluminação natural vindo da área superior do ambiente.
Legenda: Arietha e Davi antes das sessões de quimioterapia e da queda de cabelo dela.
Foto: Arquivo pessoal.

“Muitas vezes, encaramos o amor apenas a partir da paixão, das borboletas no estômago. O amor maduro não é só sobre isso, envolve muitas outras coisas: companheirismo, lealdade, permanência. Em alguns momentos, inclusive, achei até engraçado o espanto das pessoas diante do comportamento do Davi, como se fosse obrigatório ele me abandonar ou que deixássemos pra casar apenas quando eu estivesse curada, sem mais risco de morrer”.

Não à toa, quando quiseram realmente iam subir ao altar durante o tratamento quimioterápico, a decisão foi sobretudo de Davi. Defendeu, com vigor, a necessidade de Arietha ser cuidada porque, a partir do “sim”, os dois dividiriam casa, horários e rotina – algo que, com o namoro, ainda não era possível. O matrimônio, esse passo tão grande, confirmou, assim, o peso das pequenas escolhas, e acendeu na noiva percepção diferente sobre si.

Na imagem, pessoa sentada em uma poltrona de atendimento em ambiente hospitalar ou clínica, usando máscara facial e óculos. Um acesso venoso está fixado na mão esquerda, conectado a equipamentos de infusão ao lado da cadeira. A pessoa levanta um dedo indicador enquanto está posicionada diante de uma grande janela com vista para edifícios e céu nublado. À esquerda e à direita aparecem suportes com bolsas de soro e outros materiais utilizados em procedimentos médicos. O ambiente é iluminado por luz natural vinda da janela.
Legenda: Arietha durante o tratamento contra o câncer.
Foto: Arquivo pessoal.

Depois de tanto zelar pelos outros ao longo da vida, era a vez dela de ocupar a posição de zelada. “Relações são constituídas de altos e baixos, e quando você percebe que as pessoas que você ama estão com você no baixo, independentemente do que se esteja vivendo, é muito bom, muito satisfatório”.

Por isso mesmo, a crença de que, quando tudo passar – porque, sim, Arietha acredita ser apenas uma fase – nascerá um novo sol de primavera.

“Quando esse ‘querido’ for embora, Davi e eu, principalmente, vamos viver nossa melhor estação – não que a gente já não esteja vivendo. Somos assim, meio em meio às tribulações: dá pra ser feliz ainda que desse jeito, com esse desafio”. A estrada, inclusive, segue. 

Arietha vai para a quarta sessão de quimioterapia – conhecida como “quimio vermelha” – e para algumas da “quimio branca”. Ainda que acredite não precisar passar por cirurgia, talvez passe por um procedimento. E ainda tem a questão da radioterapia.

Na imagem, pessoa posa em pé usando vestido de casamento branco com detalhes florais bordados, mangas rendadas transparentes e longa cauda estendida sobre o piso. A pessoa segura um buquê de lírios brancos à frente do corpo. Ao fundo, há uma mesa de recepção com arranjos florais brancos em vasos de vidro e bandejas de doces distribuídas sobre superfícies brancas curvas. O ambiente interno é iluminado por luz suave e decoração em tons claros.
Legenda: 'Meu sonho é ser curada pra curar', diz Arietha sobre processo de luta contra o câncer.
Foto: Rodrigo e Duda Fotografia.

Entre os maiores sonhos, claro, a cura. Também conhecer a Itália, percorrer o continente europeu ao lado de Davi. E outro, que brilha na multidão: expandir a própria história, fazê-la conhecida a quem precisa saber para lidar com as coisas de modo menos inseguro.

Com mais amor, talvez. “Meu sonho é ser curada pra curar, que é como falamos no nosso grupo de mulheres com câncer, as oncofriends”, ri.

“Houve um momento em que eu chorava muito porque pensava: ‘Por quê? Vou viver meu melhor momento agora, o do casamento, e isso está acontecendo’. Eu chorava muito. Mas foi só outra rota. A gente não sabe, mas as coisas estão acontecendo de outro modo. Não é que não vai acontecer, é só outra maneira de se realizar”.

 

Esta é a história de Arietha Holanda pela vida. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.

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