Por quem você andaria 130 km?

Uma experiência transformadora nos faz revisitar a imagem que temos de nós, do mundo e dos outros.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Apresentadora Daniella de Lavôr foi de Fortaleza a Canindé caminhando para cumprir promessa.
Foto: Reprodução.

Toda existência nos apresenta situações-limite em que duvidamos de nós, nos encontramos, nos perdemos, lidamos com medos inomináveis, perdas avassaladoras, angústias, desejos, alegrias, instantâneos de surpresas, onde nos vemos desafiados e testados em nossas forças.

Não sabemos quando  iremos nos confrontar com momentos assim e nem como nos comportaremos. O fato é que, diante dos limites, fronteiras se ampliam. Ampliam-se as fronteiras da fé, dos vínculos, da esperança, da coragem, da força, do amor e de nossa percepção sobre quem somos. 

Uma experiência transformadora nos faz revisitar a imagem que temos de nós,  do mundo, dos outros, nossos desejos e temores. Pode ser uma viagem, um acontecimento inesperado ou até algo planejado, mas que na experiência vivida, extrapola o que imaginávamos. Pode ser um encontro, uma conversa, um encontro com a arte, uma viagem, um curso, uma leitura, uma experiência mística, uma peregrinação.

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Quando fazia doutorado na Espanha, em Santiago de Compostela, fiz dois trechos de 20km cada e foi uma experiência transformadora. Mas semana passada, vi a jornada da extraordinária, admirável e querida jornalista Daniella de Lavôr em uma peregrinação corajosa, sensível, poética e amorosa de 130km para Canindé, para pagar a promessa de saúde de sua amada Serena, e fui atravessada pelas reflexões diante dessa caminhada. 

Caminhar, em uma jornada espiritual, é perceber que a vida é movimento, encontro consigo, com os outros, com os detalhes, com outra referência de tempo e espaço; é lidar com lutos.

Entender que a beleza de uma paisagem, apesar de passar a  cada passo, fica na memória; que o que estava à frente a cada passo, ficará no passado; que quem saiu na caminhada, não será a mesma pessoa que chega; é uma metáfora viva de que podemos elaborar perdas em forma de linguagem e sentido, e reter gratidão pelo recebido.

Estrada é memória; andar sozinho é encontro consigo. Peregrino é "aquele que está fora de sua terra, o que atravessa campos e vai por terras estrangeiras". Quando saímos da nossa zona de conforto, experimentamos a vulnerabilidade, o desamparo; e nas terras do outro, nos sabemos estrangeiros e aprendizes.

As peregrinações existem desde o início dos tempos, antes do Cristianismo. Grécia, Egito, Pérsia, Índia e Ásia abrigavam lugares sagrados, templos e santuários onde os povos buscavam o encontro com o divino, o mistério da existência e a transcendência. 

Durante a Idade Média, aconteceram as maiores expansões das peregrinações, em busca de remissão dos pecados, curas e bênçãos. Naquela época, os maiores destinos eram Santiago de Compostela, Roma e Jerusalém, e expressavam a constatação de que diante dos momentos de maiores inseguranças, a busca pelo transcendente aumenta.

A procura por respostas, a busca por um milagre ou a restituição do milagre recebido, move os passos humanos há milênios. Diante da impotência e do desamparo, a fé oferece anteparo e alento. Diante da angústia pelo medo de que algo aconteça a nós ou a quem amamos, podemos prometer a devoção de nossa crença, diante da espera do impossível e da obtenção da graça do Sagrado. Diante do limite físico de uma peregrinação, nos deparamos com a vulnerabilidade e a fragilidade.

Abre-se assim, o encontro com a verdade, a queda de máscaras, descobrimos que não precisamos de tanto, que muito do que acumulamos é supérfluo, aprendemos a deixar coisas para trás, mesmo as que nos ajudaram em determinada parte da jornada, mas que depois podem não fazer sentido em serem carregadas.

Descobrimos o valor da nossa presença,  de estarmos conosco, o valor da saúde,  da relação mente e corpo, a importância da rede de apoio, da solidariedade. Descobrimos que sozinhos levamos muitos conosco, e que fora de nós, temos muitos semelhantes e companheiros de jornada. 

Quando alguém se dispõe a caminhar 130km movido por amor a um outro ser vivo, movido pelo desejo de saúde e valorização da vida de um outro ser, é uma atitude transcendental. Quando confiamos em algo que nos ultrapassa, elevamos a nossa humanidade para uma esperança tangível que nos fortalece e nos irmana.

A filosofia africana “Ubuntu” diz que “Eu sou porque nós somos”. Quando compreendemos a importância da solidariedade, do vínculo, do amor, do cuidado, a vida se amplia, porque sentimos a pertença e a responsabilidade com tudo o que vive. É assumir que o grande mistério é a vida e seus enigmas por vezes insondáveis. 

Uma caminhada para dentro de si desembrutece. Se uma pessoa faz uma peregrinação e não consegue amar, precisa caminhar ainda muitos quilômetros. Se uma pessoa começa e termina uma peregrinação com amor, pode ter encontrado o que milhares procuram ao longo da história: a alegria de habitar a si mesma.

Uma experiência transformadora não necessita do tempo cronológico, pode se dar em um encontro, um instante. Em poucos dias, tudo pode ser imenso. Mudanças,  aprendizagens, fazem parte da evolução e amadurecimento na vida.

E talvez devêssemos nos permitir experiências onde possamos estar conosco de forma intensa e reflexiva, pois ao descobrir por quem você caminharia 130 km, possa  desvendar a história dos seus amores, aquilo que você mais deseja, e encontrar a si mesma.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora. 

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