A romaria é uma terapia social a céu aberto

Em Juazeiro do Norte e Canindé, a peregrinação revela que fé, pertencimento e vida comunitária também funcionam como formas de cuidado coletivo.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: Missa de Finados na Igreja do Socorro, em Juazeiro do Norte, após conclusão de uma romaria.
Foto: Kid Júnior.

Em um tempo marcado por cansaço, isolamento e laços frágeis, vale olhar com mais atenção para práticas culturais que, há séculos, ajudam comunidades a reconstruir vínculos, sentido e esperança. As romarias ocupam esse lugar no Nordeste. Mais do que expressões de fé, elas funcionam como experiências de amparo coletivo e reconstrução do tecido social, nas quais a dor individual e coletiva encontra acolhimento, escuta e pertencimento. Se pede à Deus e aos santos aquilo que não recebem das instituições sociais.

A vida contemporânea exige desempenho o tempo todo. Cobra produtividade, incentiva a competição e enfraquece vínculos. O resultado aparece em forma de ansiedade, exaustão e sensação de desencontro.

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Mas a própria vida social também produz respostas. Quando é vivida como experiência comum, a cultura recompõe o que a rotina desgasta. Ela reforça identidades, reativa memórias e devolve às pessoas a percepção de que ninguém atravessa a existência sozinho.

É nesse ponto que a romaria pode ser entendida como terapia social. Isso não diminui a importância da saúde pública, da psicologia ou da psiquiatria. Significa apenas reconhecer que certas práticas coletivas também protegem, sustentam e reorganizam a vida interior.

Caminhar junto, rezar junto, cantar, pagar promessa, dividir comida, pedir e agradecer mobiliza afetos e fortalece o sentimento de comunidade. Há dores que não desaparecem, mas se tornam mais suportáveis quando a pessoa volta a se sentir parte de uma história, de um povo e de uma tradição.

Uma tradição que atravessa séculos

As peregrinações acompanham a história da humanidade. Da ida a Roma, que ajudou a consolidar a palavra “romaria”, ao Caminho de Santiago de Compostela, na Europa, e à peregrinação a Meca, no mundo islâmico, diferentes povos criaram percursos rituais em direção ao sagrado.

Apesar das diferenças, essas experiências partilham um gesto comum: suspendem a rotina e interrompem, ainda que por poucos dias, a lógica da pressa e do lucro. Quem peregrina põe o corpo e a mente em movimento, enfrenta o cansaço, lembra, espera e reza.

Certa vez, um romeiro de Canindé me disse: "quando as pernas vão caminhando no chão, minha mente caminha também me fazendo pensar, repensar e organizar a vida". Nesse trajeto, o peregrino reafirma vínculos essenciais que sustentam a existência: consigo mesmo, com o sagrado e com a comunidade à qual pertence.

No Ceará, essa força simbólica ganha forma em Juazeiro do Norte e Canindé, dois dos maiores centros de peregrinação religiosa do país. Juazeiro reúne um amplo ciclo de romarias ligado à devoção a Padre Cícero. Canindé, por sua vez, abriga uma das maiores romarias franciscanas das Américas, dedicada a São Francisco das Chagas.

Mais do que destinos religiosos, os dois municípios são territórios de memória, identidade e encontro. Ali, a fé não se resume ao gesto devocional. Ela organiza vínculos, sustenta histórias e oferece linguagem e espaço para a dor e para a esperança de um povo esquecido.

Em Juazeiro, Padre Cícero foi acolhido pelo povo como figura de proteção de identidades, resistência, acolhimento e amparo. Padre Cícero simboliza a identidade nordestina com seu chapéu de palha.

Em Canindé, São Francisco permanece associado à simplicidade, à compaixão e à proximidade com os mais pobres. Se busca a cura do corpo chagado abandonado pelas políticas publicas, expressa na quantidade de ex-votos depositados no santuário. Se pede ao santo o que não se recebe das instituições sociais.

Não por acaso, essas devoções se fortalecem justamente entre aqueles que nem sempre encontram resposta nas instituições. O romeiro não vai apenas agradecer uma graça alcançada ou pedir um milagre. Vai buscar escuta, dignidade e reconhecimento. Vai procurar um lugar onde sua dor tenha nome e sua esperança possa ser fortalecida.

Pertencer também é uma forma de cura

Esse ponto é central. Muitas vezes, aos mais vulneráveis não falta apenas renda, atendimento ou política pública — embora tudo isso seja essencial. Falta também um lugar simbólico no mundo. As romarias oferecem esse lugar.

Dizem ao peregrino que ele pertence, que sua história tem valor, que sua fé é reconhecida e que seu sofrimento não é invisível. Não é por acaso que tantas pessoas se definem pela devoção: “sou romeiro”, “sou de São Francisco”, “sou do Padre Cícero”. Nessas expressões, há mais do que crença religiosa. Há autoestima, identidade e pertencimento.

Há sinais concretos de que as romarias também merecem atenção do ponto de vista da saúde pública. Na década de 1990, o Departamento de Saúde Comunitária da UFC desenvolveu pesquisas e ofereceu atendimento jurídico e sanitário aos romeiros de Canindé.

Essas ações trouxeram benefícios não apenas para os próprios romeiros, mas também para a formação de futuros profissionais da saúde e da área social, ao aproximá-los das realidades populares, das demandas coletivas e das formas comunitárias de cuidado.

Estudo sobre a romaria de Finados, em Juazeiro do Norte, registrou atendimentos ligados sobretudo ao perfil etário dos romeiros, como aferição de pressão arterial, sem apontar aumento de internações no período. O dado importa porque mostra que esses eventos não devem ser vistos apenas sob a ótica do risco, mas também pela capacidade de acolhimento, organização comunitária e apoio mútuo que produzem.

A experiência religiosa popular não substitui políticas públicas, mas também não pode ser tratada como algo irrelevante para o bem-estar social.

Uma lição nordestina

Em um tempo em que quase toda resposta parece vir em forma de mercadoria, a romaria lembra que nem todo cuidado pode ser comprado ou depende de dinheiro. Há forças que nascem da cultura, da memória coletiva e dos rituais repetidos por gerações.

Reduzir a romaria a fenômeno religioso, turístico ou folclórico é diminuir sua potência. Ela é, ao mesmo tempo, experiência espiritual, patrimônio cultural e prática social de cuidado. O Nordeste conhece bem essa verdade. Conhece quando transforma estrada em promessa, cansaço em oração e multidão em irmandade.

Conhece quando faz da caminhada uma forma de recompor a alma e refazer o laço social. Em um país marcado por desigualdades e sofrimentos silenciosos, as romarias continuam ensinando uma lição simples e profunda: ninguém se salva sozinho.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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