A oração de São Francisco revisitada

Do verbo 'levar' ao verbo 'ser', uma releitura da missão franciscana.

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: A espiritualidade franciscana deixa de ser apenas uma ação dirigida ao outro e se torna uma forma de existir: silenciosa, coerente, humilde e profundamente transformadora.
Foto: Ngọc Sơn Đinh/Pexels.

A grande virtude de Francisco de Assis foi a coerência. Ele vivia o que pregava: suas palavras, suas atitudes e seu modo de estar no mundo estavam em profunda sintonia. Tive o privilégio de visitar sua cidade natal e contemplar a simplicidade radical de sua vida. Sua casa era uma caverna; seu leito, uma pedra onde mal aconchegava seu corpo pequeno. Era um itinerante: não tinha morada fixa, estava sempre em movimento e recusava instalar-se ou apropriar-se de um lugar chamado seu. Tudo isso em um tempo em que muitos buscavam segurança, prestígio e poder em palácios imponentes.

Seu legado pode ser condensado em uma oração: a Oração de São Francisco, que traduz sua missão e sua razão de existir. Depois de visitar a terra onde ele nasceu, permiti-me fazer uma releitura dessa oração, que hoje partilho com os leitores deste jornal. Substituí uma só palavra por outra, e tudo ganhou novo sentido: troquei o verbo “levar” pelo verbo “ser”.

Onde houver ódio, que eu seja o amor; 
Onde houver ofensa, que eu seja o perdão;
Onde houver discórdia, que eu seja a união;
Onde houver dúvida, que eu seja a fé;
Onde houver erro, que eu seja a verdade;
Onde houver desespero, que eu seja a esperança;
Onde houver tristeza, que eu seja a alegria;
Onde houver trevas, que eu seja a luz.

Essa pequena substituição desloca o centro da oração. A missão deixa de ser apenas um gesto dirigido para fora e passa a ser uma conversão da própria presença. Não basta levar amor, perdão, fé ou luz como se fossem objetos que possuímos; é preciso tornar-se amor, perdão, fé e luz no modo de estar diante do outro.

Veja também

A palavra “levar” pertence ao vocabulário de quem se sente autorizado a conquistar, colonizar ou dominar territórios e consciências. Nessa lógica, leva-se a fé, a civilização ou a verdade como quem carrega um bem superior a ser depositado sobre o outro.

Já a palavra “ser” transforma pela presença: pela coerência, pela verdade vivida e pelo testemunho silencioso. A presença de quem ama torna-se luz, torna-se eloquência e manifesta uma força que só conhece verdadeiramente quem se deixa transformar pelo amor.

LEVAR pode impor; SER pode transformar

A diferença entre “levar” e “ser” é, portanto, mais do que uma simples troca de verbos: ela desloca toda a compreensão da missão espiritual. “Levar” sugere movimento de fora para dentro, como se alguém possuísse algo e o conduzisse até o outro. Há, nesse verbo, uma ideia de transporte, de mediação e até de superioridade: quem leva parece estar em uma posição de posse diante de quem recebe.

Já “ser” desloca a missão para o interior da pessoa. Não se trata mais de carregar o amor, o perdão, a fé ou a luz como bens exteriores, mas de encarná-los na própria existência. Nesse sentido, “ser” é mais exigente, porque pede coerência entre palavra e vida, entre intenção e presença, entre discurso e testemunho.

Na oração tradicional, “levar” expressa uma atitude missionária generosa, marcada por renúncia e sacrifício: levar amor onde há ódio, perdão onde há ofensa, luz onde há trevas. Na releitura proposta, porém, “ser” radicaliza essa missão, pois afirma que a transformação não começa pelo que se oferece ao mundo, mas pelo modo como se habita o mundo.

“Ser”, ao contrário, aponta para uma forma mais radical e coerente de presença, em que a pessoa encarna amor, perdão, fé, esperança e luz.

Ser amor diante do ódio é recusar-se a reproduzir a violência. Ser perdão diante da ofensa é interromper o ciclo da vingança. Ser luz diante das trevas é tornar-se presença que esclarece sem impor, aquece sem dominar e orienta sem colonizar.

Assim, a espiritualidade franciscana deixa de ser apenas uma ação dirigida ao outro e se torna uma forma de existir: silenciosa, coerente, humilde e profundamente transformadora.

O primeiro Papa a escolher o nome Francisco parece ter compreendido profundamente essa missão de ser franciscano, mesmo vindo da tradição jesuíta. Ao trocar os aposentos papais pela Casa Santa Marta, lugar de passagem, encontro e simplicidade, transformou uma decisão prática em sinal espiritual. Sua escolha aproximou o centro da Igreja da condição dos peregrinos: gente em movimento, carregando histórias, feridas, esperanças e testemunhos.

Nesse gesto, o Papa Francisco não apenas “levou” uma mensagem de simplicidade à Igreja; procurou “ser” essa simplicidade diante do mundo. Ao recusar sinais excessivos de poder e escolher uma residência mais próxima da vida comum, sua presença tornou-se linguagem.

Não foi necessário explicar longamente o que significava uma Igreja pobre para os pobres: o próprio modo de habitar, circular, encontrar pessoas e aproximar-se dos descartados tornou-se uma forma concreta de anúncio. Aqui se percebe a força do verbo “ser”: ele comunica antes mesmo das palavras, porque nasce da coerência entre aquilo que se proclama e aquilo que se vive.

O desafio franciscano: ser aquilo que se anuncia

Quando lavou os pés de presos, migrantes e pessoas colocadas à margem, o Papa Francisco não apenas levou uma palavra de misericórdia; ele se fez presença misericordiosa. O gesto não era propaganda religiosa nem simples representação simbólica. Era corpo inclinado, mãos que tocavam, olhar que reconhecia dignidade onde a sociedade muitas vezes enxerga culpa, ameaça ou invisibilidade.

Nesse sentido, “ser perdão” é mais forte do que falar sobre perdão; “ser acolhida” é mais transformador do que apenas defender a acolhida; “ser ponte” é mais franciscano do que construir discursos sobre fraternidade.

Assim como Francisco de Assis desarmou a lógica do prestígio ao escolher a pobreza, a itinerância e a fraternidade com todos os seres, o Papa Francisco atualiza essa inspiração em uma Igreja chamada a sair de si mesma. Ele insiste em uma Igreja em movimento, próxima das periferias, capaz de escutar antes de julgar e de acompanhar antes de condenar.

Essa postura revela que a missão não consiste em levar uma verdade como quem transporta um objeto pronto e superior, mas em ser sinal vivo dessa verdade no encontro com o outro. O verbo “levar” pode permanecer preso à lógica da missão como conquista; o verbo “ser”, ao contrário, abre espaço para a missão como testemunho. Levar pode impor; ser pode inspirar. Levar pode ocupar; ser pode fecundar. Levar pode falar de Deus; ser pode permitir que Deus seja reconhecido na humildade da presença.

Missão como presença

A história oferece muitos exemplos dessa diferença. Em diversos processos de conquista e colonização, dizia-se “levar” a fé, a civilização, a cultura ou o progresso a outros povos. Muitas vezes, porém, esse “levar” veio acompanhado da espada, da imposição de costumes, da destruição de línguas e templos sagrados, da negação de memórias e da subordinação de povos.

Quando a fé é levada como poder, corre o risco de deixar de ser Boa-Nova para tornar-se instrumento de domínio. Quando a cultura é levada como superioridade, deixa de ser encontro e transforma-se em colonização. Nesse sentido, “levar” pode esconder a arrogância de quem acredita possuir a luz e enxerga o outro apenas como treva a ser iluminada.

O próprio Francisco de Assis rompeu com essa lógica quando, em vez de conquistar pela força, escolheu encontrar o outro pela humildade. Seu encontro com o sultão Malik al-Kamil, durante as Cruzadas, permanece como imagem poderosa: em um tempo marcado pela guerra religiosa, Francisco não se apresentou como guerreiro, mas como presença desarmada.

Não foi para dominar, mas para testemunhar. Não levou a fé como imposição; procurou ser irmão diante daquele que a lógica da época chamava de inimigo. Esse exemplo histórico revela que o verdadeiro anúncio não nasce da superioridade, mas da vulnerabilidade humilde de quem se aproxima sem desejo de possuir de conquistar.

Também podemos recordar pessoas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e Madre Teresa de Calcutá. Gandhi não apenas levou um discurso de não violência; fez da própria vida um corpo político de resistência pacífica. Martin Luther King Jr. não apenas levou uma mensagem de igualdade; procurou ser, no meio da segregação, presença de dignidade, coragem e esperança. Madre Teresa não apenas levou caridade aos pobres de Calcutá; viveu entre eles, tornando-se presença concreta de serviço. Em todos esses casos, a força transformadora não vinha somente das palavras pronunciadas, mas da coerência entre a palavra e a vida.

Esses exemplos históricos ajudam a compreender a profundidade da substituição proposta na oração. “Levar” pode ser necessário quando nasce do serviço, da partilha e da solidariedade; torna-se perigoso, porém, quando nasce da posse, da certeza absoluta e do desejo de converter o outro pela força. “Ser”, por sua vez, exige conversão interior.

Não se trata de ocupar o lugar do outro, mas de tornar-se presença que cura, acolhe, escuta e inspira. A história mostra que os impérios levaram muito e destruíram muito; os testemunhos coerentes, porém, permaneceram como sementes. O que se leva pode passar; o que se é pode fecundar gerações.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

Assuntos Relacionados