O amor produz gratidão, o sacrifício, culpa

Na rotina da vida, o que é recebido por amor oferece a sensação de gratidão, porque é leve e genuíno.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Aquilo que lhe é dado com amor, use para povoar os sonhos, fortalecer a esperança, saber-se possuidor do olhar atento, generoso e cuidadoso de alguém que lhe quis o bem.
Foto: Matheus Bertelli\Pexels.

Receber algo por amor constrói dentro da gente um ambiente vivo, um lugar onde o sonho, a criatividade e a esperança podem se desenvolver. O amor diz que fomos vistos, que alguém se importa com o que sentimos, com o que pensamos e que se interessa em oferecer o que precisamos. 

Isso que precisamos receber do amor não é de ordem material, é da delicadeza da escuta, da presença, do apoio,  do não julgamento, da contenção da agressividade, da oferta de proteção, da partilha do tempo, do se importar em auxiliar no crescer, no aprender, no descobrir mundos, no ter a própria voz e poder usufruir da liberdade para existir, desejar, dizer não, pensar, construir autonomia e autoria.

Aquilo que é oferecido com amor e por amor, não tem cobrança nem nota promissória, não constitui dívida, e sim parceria e solidariedade. O que é recebido por amor oferece a sensação de gratidão, porque é leve e genuíno. Quem recebe amor, pode expressar gratidão, que é o reconhecimento pelo bom do outro que foi partilhado.

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Entretanto, nem sempre as relações podem se construir a partir de um amadurecimento que permita a empatia, a alteridade e a bondade. Muitas vezes, em cenários de histórico de violências, precarização psíquica, ou esvaziamentos e buracos existenciais, dar algo a outrem pode ser uma exigência imensa, pois o desejo pode ser o de sempre receber ou a constatação de uma aridez tão significativa no mundo interno que não tenha o que oferecer.

Nessas situações, o que se oferece é sempre relatado como se fora sacrifício, como se aquilo que o outro recebesse tivesse sido às custas de dano provocado em quem ofereceu. É sempre um histórico de dor, abnegação, sofrimento entrelaçado ao que é oferecido. Como se tudo fosse pesado e o sujeito que recebesse provocasse danos ou sofrimento em quem oferece. 

Nesse cenário, aquilo que é recebido, seja cuidado, mensalidade escolar, cuidados essenciais, ajuda, moradia, bens materiais, afeto, chega carregado de uma dívida impossível de ser paga e difícil de ser desfrutada porque carregada de sofrimento, dor e sacrifício.

O que é recebido torna-se então fonte de culpa para quem recebe, que não pode usufruir com alegria nem expressar gratidão, pois a gratidão só se torna possível diante da alteridade, quando há o reconhecimento de dois que partilham cuidados e vínculos.

Diante daquilo que é ofertado enquanto sacrifício, o embrulho é agressividade e o recebido causa danos. A culpa é o resultado da conta do dano enviado pelo remetente. O sujeito desresponsabiliza-se da escolha diante do que fez, e transfere para o outro, como se fora seu algoz, que lhe impôs a realização do gesto.

Assim, não é possível desfrutar da alegria do recebido, da ajuda, do que seria ofertado de forma a promover crescimento e saúde. O recebido pelo sacrifício entala, fica difícil de digerir e nele não cabe a gratidão, mas a retribuição do sofrimento em juros de culpa.

Muitas vezes são filhos que se sentem culpados pelo que receberam de sacrifício dos pais, seja pela manutenção do casamento, pelos sacrifícios financeiros lembrados continuamente; são os amigos que lembram e cobram tudo o que fizeram; relações amorosas que depositam sobre o outro o peso das suas dores e escolhas; relações profissionais que atribuem ao outro a responsabilidade pelo seu sofrimento e fracasso, pois teriam se sacrificado ao outro que não os restituiu como desejavam possuindo dívida e culpa impagáveis. 

Devido às questões inconscientes que permeiam relações e nos atravessam transgeracionalmente, construímos fantasias acerca do que achamos que o outro precisa, o que desejam de nós e que precisamos oferecer mesmo que não nos seja possível. Quando essa dinâmica se impõe, transferimos ao outro o lugar de algoz e devedor e as relações podem ser pautadas pela culpa e violência. 

Podemos também não sermos capazes de reconhecer o amor e aceitar o que recebemos devido à manutenção de fantasias que só permitem o recebido por sacrifício. Lembro de dona Maria Eunice, madrinha de uma grande amiga que diz: " Quem faz o que não pode, é ladrão de si."

Aquilo que lhe é dado por amor, agradeça, recolha dentro de si, use para proteger o solo fértil dos dias bons e das memórias das alegrias pulsantes de vida e desejo. Use para povoar os sonhos, fortalecer a esperança, saber-se possuidor do olhar atento, generoso e cuidadoso de alguém que lhe quis o bem.

Tal dádiva, os bens do amor, são a matéria-prima do amor próprio, do ser visto, ser querido, respeitado e como tal, merece comemoração. A gratidão é a comemoração que não gera peso e sim,  leveza para seguir na companhia da bondade compartilhada, pois o amor que me foi dado, agora habita em mim e pode ser distribuído. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.