Sobre desculpas e reparações

Processo exige amadurecimento emocional e enxergar a si e ao outro.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: A reparação demanda trabalho, observação, escuta, comunicação e descentramento.
Foto: Ron Lach/Pexels.

Ao longo da vida iremos magoar, ferir, atacar, produzir danos intencionais ou não, nas pessoas com quem convivemos. As relações são possibilidades de encontros, descobertas, aprendizados, afetos, desejos, mudanças, mas também de tensões, enfrentamentos, evoluções e posicionamento de limites.

O outro geralmente é enigma, objeto do desejo, e responsável pelos dissabores e alegrias no cotidiano. Inevitável que nos encontros ocorram frustrações, desentendimentos, falhas, decepções,  tristezas, mágoas. Entretanto, o que sucede danos revela a qualidade da relação existente. 

Muito jovens aprendemos a nos desculpar. Como se a desculpa fosse palavra mágica que repara todos os erros, cicatriza feridas, dissolve palavras amargas, pulveriza violências, desrespeitos, injustiças. Para muitos, é palavras difícil de pronunciar e praticar, pois necessita da compreensão dos sentimentos de um outro e a aceitação da sua própria agressividade e capacidade destrutiva. 

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Infelizmente,  só a palavra pode não ser suficiente diante de certos danos. A desculpa pode não oferecer a reparação. Em muitas situações, fala-se, desculpa, e acredita-se que tudo estará magicamente resolvido, sem haver acontecido o gesto de reparação.

Ou então transfere ao outro de forma individual, isolada e desresponsabilizada a cura dos danos, ou seja: “você que se cuide dos danos que lhe causei porque não tenho nada a ver com isso.” A reparação é a tentativa de reverter ou buscar aplacar o dano causado, uma procura por restaurar a situação anterior à mágoa ou sofrimento produzido. 

A reparação demanda trabalho, observação, escuta, comunicação e descentramento. O que preciso fazer diante do dano que causei para tentar restabelecer o bem-estar daquela pessoa? Como reparar, mesmo que não seja possível a volta à situação originária,  o sofrimento que causei, o prejuízo financeiro, emocional, social, profissional, afetivo? 

Claro que existem situações que demandam do outro um cuidado consigo, e não estamos falando de transferência de responsabilidades do próprio processo de cuidado, e sim de quando o outro está tão acostumado a “atropelar” afetos e pessoas, que considera a humanidade seu direito a “um saco de pancadas particular”.

A reparação oferece dignidade e valor ao outro, pois me importo com o que causei e desejo refletir sobre minhas atitudes porque o sentimento do outro me importa. A reparação necessita de gestos concretos, de palavras, de iniciativa diante do erro. A omissão, o silêncio, a covardia, a negação, a indiferença, ampliam os danos causados. 

Vivemos dias em que há uma ênfase nas posturas individualistas, autocentradas, que fazem da circunferência do seu narcisismo a medida da terra, e referência para o valor insignificante do outro. Perceber o que causo no outro enquanto dor, vergonha, humilhação, injustiça, prejuízo, violência, é operar uma responsabilidade ética diante das relações. 

A reparação não permite, entretanto, ver somente o outro. Ela nos coloca diante do espelho da responsabilidade com nossos desejos e ações. A reparação exige amadurecimento emocional, o enxergar a si e ao outro, o perceber-se, o observar falhas, o deparar-se com desejos obscuros, destrutivos e a capacidade de cuidar com o que fazemos.

Inúmeras vezes, procuramos chancelas que nos ajudem a confirmar a certeza e a verdade dos nossos gestos, e não o desmonte dos argumentos enviesados daquilo que fizemos. Buscamos reparar os prejuízos que causamos apenas quando atingimos alguém superior ou com mais poder do que nós, na tentativa de nos protegermos e nos resguardarmos. E quando erramos com quem tem menos poder? E quando erramos com quem consideramos inferior ou insignificante?

As lesões que causamos, sejam com palavras, gestos, presenciais, virtuais, de forma direta ou indireta, e o que fazemos com a consequência disso, revelam cotidianamente o que conseguimos ver em nós e se avançamos ou retrocedemos em nossa dignidade enquanto seres humanos.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora. 

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