Fatos vividos estão mortos? Sim, quando pulverizados pela bomba tóxica do memoricídio. Restam soterrados no tempo ido, sem vínculos de reminiscência. Não, quando embalsamados pelas ligas de lembranças recorrentes. Tornam-se corpos abertos às visitas contínuas, físicas e metafísicas, no teatro de suas existências. Embalsamar a história que não deve ser esquecida, atualiza o passado alumiando o incerto porvir.
Bode Ioîô é um exemplo típico de defunto vivo. Sobrevivente das secas que flagelaram o sertão cearense, couro e osso, escapou do machado. Ainda revira o barro dos fatos vividos. Fortaleza concedeu-lhe cidadania, há mais de cem anos. Metido nas bodanças citadinas, mestre na irreverência acanalhada do populacho, alimentadas do faccionismo político ao pão literário, muito pode ainda ensinar.
O olhar curioso de quem o visita, no Museu do Ceará, penetra tanto na alma moleque de um povo quanto nos fundamentos histórico-culturais de uma cidade. Bárbara de Alencar também é chave para compreender o passado cearense. Insubmissa ao mandonismo monárquico e machista, é exemplo de revolucionária rediviva, a cobrar o devido embalsamento na memória popular. Inspira, ainda, a luta permanente à formação de uma nova mentalidade, ao remexer os subterrâneos do patriarcado cristalizado. Por seu vanguardismo feminista, ativismo cultural, retidão moral, liberdade política, idealismo republicano, é pedagógica história, passada, a ensinar ao presente.
Ideias eternas, que balançam no trapézio entre emancipação e dignidade humanas, aureolam a alma embalsamada de quem as reuniu em um corpo vivo de memória. Bárbara vagou por cárceres nordestinos, deixou rastros entre Fortaleza, Recife e Salvador, há mais de duzentos anos, com os filhos, prestigiosos. Todos réus por crime de lesa-majestade, antes ainda da Confederação do Equador.
Bode Ioiô e Bárbara apontam o caminho da mudança, evolutiva, de paradigmas científicos e sociais. Além dos meros fatos, de ontem, cômicos ou trágicos, seus feitos exemplares e simbólicos, suscitam a igualdade ético-política, entre seres vivos, de hoje. Escapando do machado ou da forca, ambos embalsamam o tempo histórico.
Luiz Carlos Diógenes é escritor