Negócios

Pentecoste perde metade dos empregos formais em indústrias com fechamento de 4 fábricas

Encerramento de fábricas de calçados gerou demissão em massa de 528 trabalhadores.

25 de Junho de 2026 - 15:06
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Legenda: Os funcionários desligados irão receber o Seguro-Desemprego.
Foto: Reprodução/Google Maps.

O município de Pentecoste, localizado a 90 km de Fortaleza, perdeu metade dos postos de trabalho na indústria após o desligamento de 528 trabalhadores. A demissão em massa ocorreu com o fechamento de quatro fábricas de calçados na cidade.  

Em abril deste ano, Pentecoste contava com 2.276 postos de trabalho formais. A indústria do município tinha ao todo 1.079 empregos.

As informações consideram os dados mais recentes divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Indústria calçadista tem forte presença em Pentecoste

De acordo com o Perfil dos Municípios, do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), a indústria de calçados e couros, no ano passado, foi responsável por cerca de 80% dos empregos formais de Pentecoste.

Em 2025, o município tinha cinco indústrias de calçados, que empregavam 939 pessoas. Pentecoste tinha 1.182 trabalhadores formais.

Para o economista Alex Araújo, essa demissão em massa reforça um problema crônico de municípios dependentes de um único empregador ou setor.

"Quando há forte concentração produtiva, um único evento empresarial pode produzir impactos macroeconômicos relevantes para todo o município. Neste caso, haverá perda relevante de massa crítica industrial, com desperdício de mão-de-obra especializada, desorganização da rede de fornecedores locais e de serviços técnicos", classifica.

"Haverá ainda perda de conhecimento produtivo acumulado. A perda da indústria gera efeitos nocivos sobre a diversificação econômica, com impactos na administração pública, comércio e serviços", completa o economista.

Empresário fecha indústrias de calçados em Pentecoste

Na última segunda-feira (22), o empresário Alexandre Becker comunicou o fechamento de quatro das cinco fábricas no município. Dentre as unidades fechadas, estão:

  • Valenti Calçados: 205 funcionários desligados; 
  • Serrota Calçados: 127 funcionários desligados;
  • Pentecoste Calçados: 103 funcionários desligados; 
  • WS Calçados: 93 funcionários desligados. 

A única que seguirá ativa é a VS Sport, também de propriedade de Becker. Conforme Alexandre, o estabelecimento conta com 306 funcionários, que permanecem trabalhando normalmente.

"É um momento muito triste. A gente está em Pentecoste há mais de 20 anos, passamos por várias crises, pela pandemia. A fábrica trabalhava como terceirizada da Paquetá, que também fechou e, infelizmente, agora a gente chegou no final. Por questões econômicas, não conseguimos mais tocar a fábrica. É um sentimento de pesar a todos os familiares", declarou o empresário na ocasião.

Para o pesquisador do FGV Ibre e professor de pós-graduação em Eocnomia da Universidade Federal do Ceará (UFC), João Mário de França, são necessárias ações para reduzir o prejuízo econômico que deve acontecer com os moradores do município.

"Deve haver a atração de outra empresa industrial que consiga absorver essa mão de obra que ficou desempregada", considera.

Nova empresa deve chegar ao município

Questionado sobre o fechamento das fábricas de calçados no município de Pentecoste, o prefeito do município, Vicente de Paulo Sousa, informou que a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) já negocia a implantação de outros empreendimentos calçadistas na cidade.

Segundo ele, a expectativa é que, em até dois meses, sejam gerados o dobro de empregos que foram perdidos. O número de empresas em negociação e o nome dos negócios não foram divulgados. 

"A gente lamenta muito a situação do município, mas a gente está lutando e o governador (Elmano de Freitas) e a Adece já estão lutando para trazer outras empresas. Já tem umas empresas que estão querendo vir. A Adece está vendo isso e está querendo ocupar o máximo de galpões em Pentecoste. Tem uma (empresa) tão boa que, se vier, vai ocupar todos os galpões. Em dois meses, se Deus quiser, teremos o dobro de empregos que foram perdidos", destaca.

O governador Elmano de Freitas (PT) afirmou que a gestão está concluindo a negociação com a nova empresa, sem nome divulgado, que deve se instalar em até 60 dias. 

"Chegará uma empresa em Pentecoste para contratar trabalhadores do setor de calçados, daquilo em que aqueles têm especialidade. E o nosso pedido para a empresa é que ela priorize contratar trabalhadores que tiveram a notícia triste de perder o emprego", disse em coletiva de imprensa. 

Segundo Elmano, a gestão tem acesso aos nomes dos trabalhadores afetados e deve acompanhar a situação deles. A empresa já se comprometeu em vir ao Ceará, mas ainda faltam ser acertados detalhes, como o galpão onde será instalada. 

De acordo com Vicente de Paulo, as empresas que fecharam eram geridas por um único empresário e ocupavam cerca de oito galpões com 100 funcionários cada, enquanto a capacidade de um galpão é de, aproximadamente, 400 trabalhadores. Após o fechamento dos empreendimentos, informou o prefeito, três galpões devem ficar disponíveis. 

Além da negociação com outras empresas, a Prefeitura enviou uma proposta de lei para a Câmara com o objetivo de entregar cestas básicas para as pessoas desempregadas. 

Demissão em massa é a segunda em dois anos e meio

O fechamento das unidades de propriedade de Alexandre Becker no município segue um padrão similar com o que aconteceu com a Paquetá no fim de 2023.

Na ocasião, a gigante calçadista fechou as portas entre novembro e dezembro daquele ano

Segundo o Novo Caged, em razão do encerramento das atividades da empresa no município, em novembro de 2023, foram fechados 828 postos de trabalho na indústria em Pentecoste. Somente 14 empregos foram criados.

João Mário de França acredita que o setor de comércio e serviços de Pentecoste devem ser mais afetados "devido à queda do poder aquisitivo das famílias atingidas direta e indiretamente por esses fechamentos, bem como via a interligação econômica que existia desses setores com essas fábricas".

"Pode ocorrer futuramente outros desempregos, já que a diminuição de renda dessas famílias pode afetar a demanda por bens no comércio e de serviços, o que implicaria em outros postos de trabalhos perdidos, inclusive atingindo o setor informal", alerta o especialista.

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