O que se sabe sobre o projeto de reator nuclear a ser construído do Complexo do Pecém

Equipamento substitui usinas termétricas a carvão por geradores de vapor nucleares, gerando energia limpa e renovável.

Escrito por Paulo Roberto Maciel paulo.maciel@svm.com.br
12 de Outubro de 2026 - 07:00
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Legenda: Reator auxiliaria na geração de energia de alta escala, como vistos em data centers e projetos de hidrogênio verde.
Foto: Audio und werbung / Shutterstock.

O Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp SA), na Região Metropolitana de Fortaleza, deve receber um investimento futuro em energia nuclear. A Diamante Energia pretende construir um Pequeno Reator Modular (SMR, na sigla em inglês) na região, após iniciar o projeto em Santa Catarina, sede da empresa. 

A informação foi compartilhada por Pedro Litsek, presidente da Diamante, durante um painel do Proenergia Summit 2026, em Fortaleza, e confirmada posteriormente ao Diário do Nordeste.

“Esse é um processo muito longo, mas entendemos que a geração nuclear virá para o Brasil. Se você quer descarbonizar a matriz energética, a única oportunidade que você tem, de grande capacidade, hoje, é a nuclear”, afirmou Litsek.

Apesar da validação do executivo, a empresa informou que não há previsão para quando o empreendimento poderá chegar ao Ceará, tampouco estimativas de investimento ou da energia gerada.

Projeto ainda está em fase de licenciamento

Os estudos por trás do Pequeno Reator Modular (SMR, na sigla em inglês) ainda aguardam a aprovação de uma licença preliminar concedida pela Agência Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).

Concluída essa etapa, segundo a Diamante, serão realizadas outras duas solicitações: uma Licença Prévia de Local (LPL) na ANSN e um licenciamento ambiental junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Em maio deste ano, a agência realizou uma visita ao Complexo Termoelétrico Jorge Lacerda, localizado em Capivari de Baixo, em Santa Catarina, para verificar as condições necessárias para a implantação do reator na região.

Foram avaliados aspectos preliminares, como características das instalações, a distância dos centros populacionais e a necessidade de coleta de dados meteorológicos, conforme previsto nas normas regulatórias da ANSN.

A empresa também firmou, no início do mês, uma parceria com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) voltada ao avanço da energia nuclear no Brasil, por meio da assinatura de uma Carta de Intenções em Viena, na Áustria.

O acordo visa facilitar a implantação de SMRs em usinas termelétricas a carvão, dentro do conceito conhecido como Coal-to-Nuclear (CTN), que estuda a conversão de instalações a carvão para a geração nuclear.

Como o Ceará poderá se beneficiar do projeto?

A eventual instalação de um SMR em território cearense pode significar um grande passo rumo a uma geração de energia mais limpa e sustentável no Estado. Essa é a avaliação de Adão Linhares, diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Ceará (Sindienergia-CE).

Linhares destacou que o Ceará dispõe de muita energia renovável, mas ela é limitada e intermitente. Os reatores, portanto, entrariam na base do sistema, operando com carga plena, todo o dia, e sem interrupções por cerca de dez anos.

"Os SMRs funcionam como uma bateria de carro. A vida útil dele é o combustível utilizado para fazê-lo operar, no caso, urânio enriquecido. Uma vez instalado, vai funcionar a vida toda, sem precisar mexer, apenas monitorar e acompanhar. Se a força acabar, basta trocar a fonte e reiniciar o processo", afirmou.

O tamanho reduzido dos SMRs e o formato modular facilitam o transporte e a instalação para atender a demandas específicas.
Legenda: O tamanho reduzido dos SMRs e o formato modular facilitam o transporte e a instalação para atender a demandas específicas.
Foto: Phonlamai Photo / Shutterstock.

Segundo ele, por não gerarem emissões de CO2, enxofre ou cinzas (comuns na queima de carvão), os SMRs facilitam a transição energética ao permitir a substituição direta das caldeiras de termelétricas a carvão mineral por geradores de vapor nucleares.

A geração contínua atenderia a demandas de alta escala, como as de data centers e projetos de hidrogênio verde. Linhares explicou ainda que isso ajudaria a atrair investimentos para o Estado e tornaria a energia menos densa, mais comercial e acessível em larga escala.

Essa nova estrutura casa perfeitamente com o desenvolvimento do Complexo do Pecém. Não há competição com as outras fontes de energia. A energia nuclear é a mais perto do que podemos chamar de energia verde, porque não tem emissão nenhuma, é a mais limpa que existe".
Adão Linhares
Diretor executivo do Sindienergia-CE

A reportagem procurou o Complexo do Pecém para comentar a proposta da Diamante Energia. Quando houver um retorno, o material será atualizado.

SMRs são seguros?

Adão Linhares também explicou que esses reatores podem gerar até 300 megawatts (MW) de energia por unidade, sem utilizar qualquer fonte externa com potencial poluente. Isso se os procedimentos de segurança estiverem em dia.

Atualmente, equipamentos como os SMRs contam com duas a três redundâncias de segurança inerente. Esse sistema impede que eventuais falhas resultem em consequências extremas, além de não exigir nenhuma intervenção humana.

"No pior dos cenários, se houvesse alguma falha grave, um reator como esse apenas se desligaria sozinho. É como se você botasse o dedo em cima de uma vela. 'Ah, mas não fica lá o combustível gerando?' Sim, mas ele já está calculado de tal forma que aquela vela vai se apagar até o final do combustível", disse o executivo.

Os reatores nucleares precisam de urânio para funcionar. No Ceará, a mina de Itataia, em Santa Quitéria, tem uma das maiores reservas de urânio do País.

O projeto está associado à extração de fosfato para a produção de fertilizantes e à extração de urânio. No entanto, a exploração da mina continua travada devido a impasses sociais e ambientais.   

Outros investimentos da Diamante no Estado

A Diamante administra, além do complexo catarinense, as usinas de Pecém 1 e 2, no Ceará. Recentemente, a empresa realizou a transferência de metade das ações do Porto do Pecém Transporte de Minérios (PPTM) para a Eneva, que já detinha os outros 50%.

Em troca, a Diamante Energia receberá da Eneva 100% das ações da Itaqui Geração de Energia, no Maranhão. 

Também durante o Proenergia Summit 2026, na última semana, Pedro Litsek afirmou que a companhia apresentará propostas de até 300 Megawatts (MW) para o Ceará no primeiro leilão de baterias do Brasil, marcado para o início de dezembro.

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